quarta-feira, 4 de maio de 2016

Lutou pelo bom, pelo belo e pelo justo - William Bonfim


Temos difíceis. Tempos de luto pessoal e coletivo. Domingo, 1º de maio de 2016, recebi nas primeiras horas a notícia da morte física do Lourival Rodrigues da Silva, 49 anos. Este homem/amigo é parte da minha estória, da estória de tantos outros/as pessoas e da história de um país. Sem modéstia. Nas ruas, manifestações no Dia do Trabalhador denunciaram a falácia do processo de impeachement de uma presidente - democraticamente eleita pelo povo brasileiro - conduzido por homens de conduta questionável. Tempos de morte de um projeto de nação, cujo um dos eixos centrais foram a inclusão social e a distribuição de renda, sonhado e construído por milhares de mãos.

Tempo em que o fascimo dá as caras no Congresso Nacional, nos púlpitos, nas redes sociais e até mesmo na atitude de pessoas próximas. Tempo em que o conservadorismo ganha expressão no comportamento de pessoas aparentemente “esclarecidas”. Tempo em que a disputa pelo poder valida as estratégias mais rasteiras e mesquinhas: roubar, matar, fazer o outro menor, não enxergar o bem coletivo. Tempo no qual isto é aceito e justificado sob a proteção da “legalidade”, com o aval de instituições que deveriam zelar pela ética e pelo bem comum. Tempo em que as igrejas, que deveriam promover a paz, estão preocupadas em fazer valer seus projetos de poder.

Como, em meio a tudo isto, não lembrar de você Louri que foi, simultaneamente, trilhando e sendo trilhado por um itinerário que anuncia valores de amizade, de afetos e partilha, de acolhida das diferenças, de superação de desafios, de utopia de um mundo melhor, sem divisões e com novas relações, de estética e beleza. Uma trilha na qual não há perdedores e nem vencedores, mas irmãos e irmãs, caminhantes do bem viver. Um caminho onde a mesa da “comensalidade”, do comer juntos, do partilhar a comida e o pão da vida, é o lugar central e sagrado, onde a amizade se refaz dos cansaços da estrada e se realimenta de estórias e esperanças e os projetos se costuram e enfeitam de beleza, estratégias e concretude...

Desde a sua carroça, primeiro instrumento de trabalho nas ruas do setor Fimsocial, bairro pobre da periferia de Goiânia, projetou e empreendeu sonhos e caminhos, individuais e coletivos. Você, junto a tantos/as buscadores da paz, deu bases e ajudou a edificar a Pastoral da Juventude de São Luis de Montes Belos, de Goiânia, do Centro Oeste, do Brasil e da América Latina. Você deu fundamento ao que conhecemos por Casa da Juventude Pe. Burnier. Você sistematizou e publicou tantas experiências que vivenciamos. Você deu vida a uma pós-graduação e pesquisas sobre a realidade juvenil... Você empreendeu lutas no campo das políticas públicas, pelos direitos das crianças, adolescentes e da juventude. Você plantou e colheu, em vida, o Cajueiro. Fomos com você e com tantos e tantas irmãos/as colaborando, de diferentes formas e em diferentes lugares, na costura deste projeto.

Você não se furtou a comprar uma boa briga pelo que considerava ser justo. Nunca fugiu a nenhum desafio. Enfrentava-os como se enfrenta a um touro bravo, encarando-o frente a frente, fitando-o profundamente no olho, segurando-o pelo chifre, superando-o com a doação do seu melhor conhecimento, capacidade de trabalho e entregas de resultados efetivos. Você soube conjugar o verbo amar, o trabalho coletivo e cuidado essencial das relações, da amizade... Tinha o dom de nos questionar sempre e nos tirar sempre da nossa “zona de conforto”. De nos fazer pensar sobre o sentido de nossas vidas e nosso projetos. Como disse a Shirlaine Valeriano, em seu velório: “O Louri foi o ser que mais me compreendeu”. E certamente, como a mim, também a tantos/as outros/as.
Tua passagem me faz pensar e refletir sobre o câncer. Na sociedade na qual estamos mergulhados, como bem lembrou outra amiga Eliane Martins, do Rio Grande do Sul, estamos todos na fila desta doença. Mais cedo ou mais tarde nos defrontaremos com câncer, nosso ou de amigos e familiares. Afinal, o que está errado é este modo de vida forjado pelo capitalismo, que devemos combater e denunciar: alimentação inadequada, cheia de venenos e agrotóxicos, estresse provocado por trabalho desumanizante, falta de tempo para cultivar o que é essencial e processar as emoções, medos e angústias. Me fez também pensar nas mágoas que vamos guardando e que possuem uma imensa capacidade tóxica de fazer mal ao nosso corpo e à nossa saúde. Me fez pensar na necessidade do perdão. O perdão ensinado por Jesus Cristo que pede que perdoemos até mesmo os nossos inimigos.

Um homem, uma mulher não se tecem sozinhos. A esperança também não. Uma manhã precisa de vários galos para ser anunciada, como bem nos lembrou o poeta João Cabral de Melo Neto. Vivemos um luto coletivo de um projeto de sociedade e da perda de um grande amigo. Que tenhamos a capacidade de nos perdoar, de perdoar e de ser perdoados. Que cuidemos uns dos outros, repensemos nossa forma de viver e alimentar, cuidemos da nossa casa comum. Entrelacemos redes de solidariedade e afeto. Compartilhemos o pão, as dores e alegrias. Avancemos, com gestos concretos, para a utopia do bem viver.

À sombra de uma árvore, à luz de um belo entardecer, aos pés do Santuário do Divino Pai Eterno e rodeado de gente querida seu corpo físico, Louri, desceu ao barro. Mas sua vida e exemplos transcendem o tempo e o espaço. Amigos e inimigos, afetos e desafetos, de perto e de longe, vieram-lhe render uma última homenagem. Prá mim sua grandeza se reflete nisto. E afinal é isto que importa. O que você amou. Os que o amaram. Tudo o mais são penduricalhos de vidas que não conseguem enxergar além de si mesmas, que se fiam na perspectiva egoísta e na falsa ideia de que se bastam e que podem prescindir de lutar pelo que é belo, bom e justo, como você sempre fez.

Willian Bonfim

O dia e o tempo Pascal exige uma carta: Querido Lourival - Luis Duarte





Querido Lourival,

O dia e o tempo pascal que vivemos me convida a te escrever. Confesso que é estranho pensar que irei ao CAJUEIRO e não te encontrarei mais. É estranho ter que aprender a lidar com sua ausência física. É claro, você nunca morrerá em nós e nas causas que assumimos. Mas, preciso dizer que sua ausência é sentida.

Sei que sabes, mas quero lhe contar algumas coisas que vivemos ontem em seu velório, na grande festa da ressurreição. De fato, por mais estranho que pareça, vivemos uma festa. A grande festa da ressurreição. A grande festa das causas e da doação.

Depois de ficar sabendo de sua páscoa, entre vários amigos que avisei, falei com o mano Jean. E meu dia foi marcado pela presença e amor do mano que me cuidou e me ajudou a organizar o ODJ. Um gesto simples para ajudar os grupos de jovens a rezarem sua Páscoa para que a missão siga sempre mais viva e forte.  Logo em seguida, partimos daqui de Rio Verde, em meio de choros e abraços, eu, Karlos, Hellen, Alessandro, Edina, Luiz Rogério e Júlio. Foi uma viagem cheia de silêncios, memórias e partilhas.

Já na chegada era impressionante o número de amigos/as ali reunidos/as. Foi uma festa com tanta gente... De tantos lugares... Com tantas histórias... Sua vida e sua doação reuniu tantos/as amigos/as e familiares na despedida e envio. Até a Vanildes, lutando forte contra o câncer, estava. Sei que a abracei e chorei junto. A Flor, uma das mais novas em nosso meio, estava com seu sorriso e seu olhar carregado de horizonte. A Quel em olhar longe, carregado de memória... Quim, lembrando que você sempre questionava o projeto de vida... A Alessandra, a quem você tanto incentivou e cuidou, mesmo com a perna machucada estava lá... Até a Edina, vindo da missão na África... É claro que faltou muita gente que estava longe, mas muito perto e próximo. Hilário, do RS, nosso mestre e avô, dizendo-nos em meio de choros e rezas que sua vida é uma surra de esperança... Sei que o avô chorou. Ainda bem que a mana Pati estava lá cuidando dele. Mirim e Mercedes lá em São Félix sonhando e organizando a  Romaria dos Mártires.. O Guigo, recordando sua ajuda no ICJ e sua amizade... O povo da PJ espalhado pelo país todo... Seus inúmeros alunos/as e tantos/as jovens assessorados por você... Todos/as num amor sem tamanho, celebrando junto a doação de sua vida...

Em meio aos choros e abraços, sua memória nos unia e nos comprometia. Você jamais morrerá em nós. Porque, muito do que somos se deve a você. Na recordação da vida, foi impressionante (e fez todo mundo chorar) o número de pessoas que narravam as memórias que guardavam de você.  Foi de arrepiar escutar uma vovozinha dizendo de como você foi importante na vida de seus netos e filhos e que por isso ela estava ali com o coração agradecido.

Todos choraram quando a Cida disse forte: “o Lourival me ensinou a ser gente. Com ele, eu aprendi a ser gente”. Como negar sua contribuição para que centenas de nós nos tornássemos autônomos/as e felizes?

Como negar o bem que sua vida fez na Pastoral da Juventude? Foi muito forte a presença de seu grupo de jovens RUACC. Impressionante a presença, a fala, o choro... Forte demais a presença dos amigos/as do Floris e Frutos... O choro de Azézio era o choro de tantos/as amigos/as que fizeste na PJ...

Na Eucaristia, presidida por Geraldo e Célio, junto de duas pastoras, todos/as comungamos do AMOR, na certeza da vida que rompe a morte. O choro de Geraldo e de Célio.  Entre cantos e choros, sua memória nos animava. Não dei conta de segurar as lágrimas com Claudinha, que tanto lhe cuidou, contando que você dizia: “Deus está me chamando para dormir!”. Como não chorar com a oferta de Rosas a ti, ao Ciron (seu amor e companheiro, que lhe cuidou e amou) e a sua mãe, Dona Abigair, que nos ofertou você...

Você pensou em tudo e todos/as... Escolheu a bata que desejava usar, reafirmando mais uma vez sua pertença ao povo latino, sendo sempre um goiano de pé rachado.  Escolheu os pés do Divino Pai eterno para acolher seu descanso eterno. É uma volta ao amor da infância... Até o por do sol foi lindo: um presente seu para nós. E um presente do Gisley, Floris, Albano, Wal, Raimundo, Deusdete, Julciene que te precederam no martírio e na eternidade amorosa. Sei que teve bonita festa no céu para te acolher. Eles também estavam na Eucaristia. Os senti.

O carroceiro que virou pesquisador (Miriam) .... O pobre que derrotou o capitalismo (Rezende)... O homem que me acolheu e sempre acolheu todos (alguém disse)... Gratidão, gratidão, gratidão (disse a Kelli)... E como não se emocionar com Marlúcia, sua irmã, falando?

Impressionante como sempre falavam de você, de Carmem e de Rezende juntos/as... Vocês marcaram a vida de tantos/as... Não posso deixar de mencionar esses dois amigos, mestres e amados/as. O coração doía ao ver as lágrimas dos dois... Também da Vanildes. Na verdade, doía demais ver o choro de todos. Mas, dizer de Carmem, Rezende e Vanildes é dizer de três pessoas imensamente amadas por ti e que te amavam demais... Mas, é dizer de como e do quanto vocês fizeram juntos/as... É claro, que juntos deles estão Edina, Alessandra, Marcelo, Willian, Berg, Geraldo, Claudinha, Arilene, Ciron, Kelli e tantos/as outros/as...

Abraçado no Marcelo, nos perguntamos: “e agora?” E agora? O que faremos? O que faremos sem o Lourival? Com o Berg conversei a mesma coisa, também no carro com o povo de Rio Verde... Já estávamos sem Wal, Floris, Albano e Gisley... O que faremos sem você? Você que sempre cuidou de todos/as nós também pensou nisso... Na véspera de sua Páscoa, pediu que seu sobrinho, um jovem, chamasse e Carmem. E você disse a ela, dizendo a todos/as e cada um/a de nós: “o projeto”. Sim Lourival, amigo e assessor, mestre e amigo, seguiremos com o projeto. Carmem escutou em nosso nome e respondeu em nosso nome: “o projeto vai continuar!”. O CAJUEIRO vai crescer e dar mais frutos. A causa da vida da juventude mais vez é assumida e re-assumida por todos/as nós. Você não morrerá meu amigo, porque sua vida que foi toda doação será sempre eternidade...

Em meio de mantras, que cantamos várias vezes ao longo do dia, devolvemos teu corpo à terra. As palavras ainda não mensuram tudo que sinto e sentimos. Sei que você não morrerá em nós amigo. Sei que a causa jamais terá fim! De minha parte, ainda preciso agradecer tudo que você foi e é em minha vida e em meu processo. Tanto poderia e devo dizer. Mas, deixo isso para a próxima carta. Não faltarão cartas amigo. Te amo. Te amamos! Ajude-nos a cuidar da juventude. Beije o Wal, o Gisley e o Floris por mim.

Beijos e abraços,

Luis Duarte

Mensagem da Áustria - DKA envia mensagem pela Páscoa de Lourival



Tudo que você ama
Você eventualmente perderá
Mas no fim
O amor retornará
Em uma forma diferente   
Franz Kafka

Recebam antes de tudo um abraço recheado de carinho, memórias e saudades. 
Nestas horas não é fácil encontrar palavras que possam ser capazes de expressar o que sentimos - saudades, muitas saudades de todos vocês e saudades do Lourival!! É difícil entender que Lourival partiu para a outra forma de ser e acompanhar isso a distancia parece mais difícil ainda. 
Queríamos unir a vocês e celebrar a Pascoa do Lourival junto a vocês. Acompanhamos pelo face as mensagens de solidariedade e carinho para com ele, não esperávamos que partisse tão cedo.
 Ano passado ainda nos escreveu sobre a situação do Brasil e a dele cheio de esperança as seguintes palavras que são proféticas e sabias: “... um pensamento punitivo de olho por olho e dente por dente e fazer justiça com as próprias mãos nos assusta. Neste contexto ainda sofremos para trazer a esperança e construir um outro modelo de sociedade. Temos sentido uma falta de lideranças com horizontes para a defesa da vida, da justiça e do seguimento a Jesus. Mas estamos de pé acreditando, investindo e buscando caminhos para dar nossa contribuição para um pensamento diferente... a todo momento é necessário buscar pistas e animar a caminhada.”
 Muita gratidão pela vida de Lourival, pelo exemplo dele, pela partilha e a comunhão com ele nos vários  intercâmbios e nas visitas que fizemos ao CAJU e CAJUEIRO.
Desejamos força e coragem para tod@s vocês que estão seguindo no caminho, na trilha com as juventudes, buscando a defesa da vida, da justiça e o seguimento de Jesus. Os nossos sinceros pêsames em nome de toda equipe de DKA neste momento, estamos unidos apesar da distancia que nos separa geograficamente.
Lourival, presente hoje e sempre!
Abraços de coração a cada um/a de vocês e à família do Lourival.
Angela, Clemens, Karin em nome de toda equipe da DKA






terça-feira, 3 de maio de 2016

A bandeira dos povos originários da América Latina vai pro meu amigo Louvial ... Diane Valdez

A bandeira dos povos originários da América Latina vai pro meu amigo Lourival...

 Fiz parte da coordenação de um encontro do JUBRA (Simpósio Internacional Sobre a Juventude Brasileira), uma década atrás e tinha uma mesa com o tema: "A juventude no Brasil e na América Latina". Tive uma síncope, com meu jeito sempre meigo, esbravejei, bati o pé, falei que Brasil fazia parte da A. Latina, que nós tínhamos que assumir isso, que eu ficava com vergonha dos colegas de outros países, etc etc... Todos me escutaram, fingindo não escutar, achando que isso era insignificante. 

Lourival, meu amigo de décadas, ia coordenar esta mesa e ele abriu os trabalhos com esta bandeira na mesa e com uma fala linda sobre ser latino americano. Chorei. Ele me escutou. Depois disso, toda vez que via essa bandeira, eu o abraçava nela. 

Toda vez que eu pensava em gente cristã com buniteza, eu abraçava o Lori. Toda vez que eu pensava em gente que amo sem barreiras, pensava nele. Lori foi embora hoje, e eu não consigo parar de pensar no meu egoísmo de achar que ele não tinha que morrer, pois eu o queria perto de mim. Eu o queria aqui 'bem meu vizinho', no prédio atrás do meu, onde ele tinha uma foto nossa no porta retrato. 

Eu o queria aqui, com essa gente que chamo de Casa da Juventude, que sempre disse ser o meu único lado cristão. Eu o queria aqui perto de mim, fazendo troça do meu ateísmo e ignorando minha ignorância sem fé. 

Lori é um dos meus amores que perdi. Se ele estivesse aqui diria "...Deixa de ser boba, quem a gente ama, não perde...". Mas eu o perdi. Na minha descrença com a fé, eu perdi, não só eu, todos nós que acreditamos em um mundo melhor e não fazemos esforço para tentar colocar em prática. Eu perdi... E a dor é grande demais...
Te amo para sempre Lori... meu amor!

 

Eu tiro meu Chapeu! Joara Reis



Foto de Joara Reis.


Mas é que pra você,
Eu tiro meu chapéu!
Sob lágrima de adeus
E no riso de até breve...

Eu recrio com os seus
Para a dor ficar mais leve....
Pra você,
Eu tiro meu chapéu!
Para o mestre tão amado

Ao menino tão querido...
Para o homem magoado
Naquela Casa ferido...
 

Pra você,
Eu tiro meu chapéu!
Pelos risos despertados
Pelas vidas atingidas
Pela luta com os jovens
Tantas vezes, vencidas!


Pra você,
Eu tiro meu chapéu!
Pelo Humano aguerrido,
 

Valente, teimoso, um urso!

Pelo seu sangue corrente
Que em nós achou seu curso...
 

Pra você,
Eu tiro meu chapéu!
Pela saudade marcante...
Por todos que tu leva,
Nesse peito grande!


Pra você,
Eu tiro meu chapéu!


Pelo teu legado
Evangelho vivo encarnado!
Pela tua vida que pulsa,
Hoje, em nossa vida!


Por ter sido,
Muitas vezes,
 

Na Terra, um céu!
Pra você,
Eu tiro meu chapéu!

Domingo. Dia do Senhor e de celebrar a vida dos trabalhadores e trabalhadoras. Raquel Pulita


A madrugada foi quase em claro, Maria Flor, vigiava. Quando aproximou 7h da manhã, enquanto ela mamava, chegou a notícia. Rezei olhando para ela. Imaginando quantas histórias dele eu teria para contar. Amanhecia. As lágrimas fizeram-me companhia. Fomos dar a notícia ao Joaquim. Nos abraçamos. Sentimos que nosso amigo-irmão havia nos deixado.

Nos preparamos para seguir a Goiânia. No caminho, lembramos de vários fatos. Joaquim recordou que conheceu Lori e Gisley na mesma atividade. Recordamos assessorias, encontros, almoços na casa de Lori, aniversários conjuntos, conversas fiadas e de projeto de vida. Ouvimos músicas que possivelmente ele gostava. No silêncio que também fez parte da viagem, contemplamos.

Chegando lá, na praça onde fica a capela das Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado, pássaros cantarolavam muito. Os abraços recebidos enquanto o esperávamos, foram fortes e emocionantes. Rezende com seu olhar profundo e firme. Cláudia me disse que ele anoiteceu cantando como um passarinho. Carmem lembrava do nosso irmão. Vanildes cuidadosa e presente na sua força. Ciron, cuidadoso. E outros de nossos companheiros de missão foram chegando.

O dia foi intenso de recordações, abraços, lágrimas e sorrisos. Lori havia preparado nossos corações. Chamou os que estavam próximos e deixou o plano de ação. Foi embora com alguns segredos.

Realizou sonhos lindos nesses últimos dias.
Entardeceu. Estávamos em Trindade/GO. O pôr do sol lindo, fazendo companhia nessa despedida. As vozes ecoavam canções. Na volta, conversamos com Maria Flor, que outra estrela brilhava forte lá no céu.

Meu amigo... Nosso irmão... obrigada pela tua vida doada e comprometida com o Reino. Somos muito do que você ajudou a construir e sonhar. Continuaremos a missão. O cenário não é fácil, mas estamos juntos, de mãos dadas no sonho e na esperança. Tu vives em nós. Te amamos.

p.s.: chegar em Porto Alegre terá outro gosto. Sempre que piso aquelas terras me lembro de você. Agora será diferente, mais intenso. Creio que lá selamos nossa amizade. Que o teu encontro com tantos outros por aí, possa suscitar em nós o compromisso do bem-viver.
Obrigada! Fique em paz!




Quando morre um cajueiro!!! Helio Martins



O cajueiro Lourival Rodrigues já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha adolescência/juventude: belo, imenso como todo bom cajueiro. Agora, vem uma notícia dizendo que ele caiu. 

Eu me lembro dos outros cajueiros; e morreram há muito mais tempo (Juciene, Valderez, Raimundo, Deusdete) e, com certeza, têm mais amigos/as de luta e caminhada que se juntaram no céu. 
Eu me lembro bem de vários encontros pastorais, seminários, formação, assembleias das diversas pastorais de juventude do nosso Brasil. 

Lembro-me o quão tão doce era estar ao lado desse cajueiro. A sua sobra nos serviu de orientação por toda a vida. Lembro-me das parcerias firmadas e do seu sorriso feito sol a brilhar no fim de tarde. Lembro-me também dos seus posicionamentos firmes e de sua bravura para lidar com interesses de nossa juventude. Lembro-me do seu carinho e de sua preocupação com a vida da gente (amores, relacionamentos ...). Tudo agora sumiu; mas o imenso cajueiro lá do alto é como árvore sagrada a nos proteger. Cada jovem que se aproximou dele ia crescendo, ia aprendendo o jeito de seu tronco, a cica de seu fruto, o lugar melhor para apoiar o pé e subir pelo cajueiro acima, ver de lá o telhado das casas do outro lado do mundo e da vida. 


Nos últimos dias ainda o vi; estava como sempre carregado de frutos de amor, amizade, carinho e tremenda vontade de viver. 


A notícia veio até mim por um grande amigo, que dizia que ele caiu numa manhã tranquila e calma; e caiu meio de lado, como se não quisesse quebrar o telhado (Coração) de nossa velha casa. Dizem que no dia anterior ele recebeu todos, e a cada um fez um pedido especial. 


O velho cajueiro, o nosso Lourival, o Lori, agora está de algum lugar a olhar por nós. 


Glorifiquemos, pois, nós, a vida desse homem, a nossa árvore amiga e hospitaleira. Nenhum é mais cajueiro que ele. Nenhum acompanhou tão de perto a vida sofrida e violenta da nossa juventude. Ele é, foi e sempre será um cajueiro de bons frutos.


William Bonfim comentou no face
Bela homenagem Hélio Martins! Como as árvores, que um dia encerram seu ciclo produtivo, mas antes disso espalham pelo mundo, graças à polinização, muitos ideais e sementes que também por sua vez renovarão o ciclo da vida na Terra... Um Cajueiro nunca morre, renasce e continua vivo no que semeou... 

Algumas mensagens que chegaram 01 - Homenagens ao Lourival Rodrigues da Silva

MENSAGENS I


Mensagens diante da Páscoa/passagem de Lourival Rodrigues da Silva:

"Querid@s amig@s abraço fraternos! Vamos nos apoiar e transformar este momento de dor em uma celebração de reconhecimento por termos tido o privilégio de ter convivido e aprendido com Lourival! Bjs a tod@s"

Regina Novaes - Antropóloga, pesquisadora em juventude, 
A cientista social Regina Novaes é uma referência para a sociedade quando o tema é juventude. Por dois anos (2005-2007) foi Secretária Nacional de Juventude - Adjunta e Presidente do Conselho Nacional de Juventude.

"Meu dindo, siga o seu caminho de LUZ, ressuscite com os sonhos e a ousadia da juventude. Eu quero agradecer por tudo que você deixou de marcas em minha vida, aprendi com você a sonhar e mais ainda a organizar os sonhos. Essa é a marca que vou carregar eternamente... Sempre que eu sonhar e colocar um sonho no papel, eu vou lembrar de você... Sempre que eu deitar numa rede e comer banana com sorvete, eu vou lembrar de você... Meu doce amigo, meu firme assessor e meu eterno Mestre da vida e da missão. Para sempre eu vou te amar".

Tica - Hildete Emanuele (Foi secretária da PJ, participou da posjuventude, hoje trabalha como educadora nos Colégios Maristas) 

"Eterna é a saudade, mais eterna é a sua sabedoria partilhada com criatividade, dinamismo, empoderamento. Na sua Páscoa, Lori, com certeza diante do criador você abriu seu coração cheio de nomes. Na sua Páscoa, Lori, em um aeroporto fazendo uma conexão, como tantas outras, lembrei-me que a primeira vez que fui a Goiânia viajamos no mesmo vôo. Você veio a Manaus para o Curso de formação de assessores e assessoras, há 19 anos. E voltamos para o retiro em Hidrolândia. De você aprendi muito, com a metodologia e com a vida. Você foi a primeira pessoa que me acolheu na CAJU. Hoje, eu lembro de você e meu coração também está cheio de nomes e rostos que quero abraçar mas estou longe, entre elas Carmem Lucia Teixeira, Vanildes Santos, Alessandra Miranda... 
 Pessoas que fazem parte da minha história, do jeito que sou e me fizeram ser muito mais do que eu podia imaginar. 
Cheguei a Lima para celebrar 10 anos da nossa presença nesse país. Depois que eu saí de Goiânia para viver no Peru, você seguiu na CNA acompanhando a juventude, a CN, e as pessoas mais caras para nós. Nos encontramos depois que eu retornei na Escola de Educadores em Manaus.
Lembro-me das poucas mas profundas partilhas, uma vez você, Carmem Lucia Teixeira e eu, nossos olhos estavam cheios de cumplicidade pela CAJU, pela juventude, pelo Reino. Você plantou muita vida e escolheu a melhor parte que nunca lhe será tirada. Intercede por nós e obrigada por tudo".



Ir. Elsie Vinhote, Religiosa, foi da equipe de Assessoria Nacional da PJ, hoje provincial das Irmãs Adoradoras do Sangue de Cristo e da CRB nacional.





"Amor a quem era de AMOR!
O primeiro chefe a gente nunca esquece, muito menos o chefe que puxa a gente pra esquerda e pro lado humano pra quando a gente esquece que somos apenas humanos!
Ah, Louri.. Quantos ensinamentos! Mas sua dor, foi minha dor, espero que descanse onde estiver! Você deixou uma legião de jovens, adultos e idosos que jamais esquecerão o propósito de tudo: lutar pela VIDA humana!
Te amo de coração, espero que sinta isso!"

Tamires Terra (Trabalhou na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás, onde o Lourival era Chefe de Gabinete)


"Nuestro abrazo de profundo cariño y solidaridad, por el amigo Lourival...A los amigos y amigas y a toda la familia, desde Costa Rica. Los espacios compartidos con él siempre nos dejaron huella, por su sencillez, solidaridad y cercanía...Abrazos".

 Asjov Cristianos – Costa Rica.

"Obrigada Senhor pelo Lourival; esse menino encantador e que encantou tantos corações. Soube dar testemunho do seu Amor a Juventude. Do seu carinho de Pai e Mãe. Meu abraço fraterno e de paz a todas e todos."

Ir. Angela Falchetto, foi assessora do Setor Juventude –CNBB (2003 – 2007), hoje missionária no Norte do Brasil.



"Vidas pelas vidas
Vidas pelo Reino.
Todas as nossas Vidas,
Tal qual a sua Vida,
Igual a Vida Dele
Óh Mártir Jesus!"

Neste dia da trabalhadora e do trabalhador, cumpre sua missão e realiza sua Páscoa o amigo, companheiro e amante da Juventude, Lourival Rodrigues da Silva. Uma vida dedicada à Pastoral da Juventude e à Utopia do Reino. Dentre tantos serviços, foi membro da Comissão Nacional de Assessores da PJ de 2005 a 2008, contribui de forma significativa na produção de materiais e em processos da PJ do Brasil e Latino Americana e atualmente presidia o Cajueiro - Centro de Formação, Assessoria e Pesquisa em Juventude. A PJ do Brasil se une em oração, na certeza do abraço eterno do Pai, que acolhe com ternura e misericórdia. A Coordenação Nacional, Comissão Nacional de Assessores e Secretaria Nacional agradecem essa vida doada e marcada para sempre na história da PJ e dos grupos de todo país. O amor nos manterá unidas/os.
‪#‎LourivalVive‬

Pastoral da Juventude Nacional. Uma nota da coordenação que estava reunida no final de semana da Páscoa/passagem de Lourival.


"E no final do caminho me perguntarão: e tu viveste? Amaste? E eu sem dizer nada, abrirei meu coração cheio de nomes" (D. Pedro Casaldáliga). Você foi tão de repente, não esperávamos que fosse assim... E fica um vazio no peito, uma saudade na alma e tantas perguntas na cabeça... Porque tão cedo e dessa forma? Quanta coisa boa você fez pro mundo e pras pessoas... E a gente se conforma: Deus precisava de você do lado dele pra olhar o mundo e por nós... E assim foi Raimundo, Deusdete, Pe. Flores... Tanta gente que me fez bem... Que me ensinou, que me amou, que me fez sentir mais gente... Mais perto de Deus... Obrigado meus amores. Que estejam brilhando numa dessas estrelas do céu. Gratidão meu amigo Lourival... Saudades eternas... "Qualquer dia amigo a gente vai se encontrar" (Milton Nascimento).
Ronei Maciel - Pai de Santo , bailarino, ator...