segunda-feira, 23 de maio de 2016

MINHA FÉ NO SER SUPREMO - Frei Betto


Este texto de Frei Betto colabora para o debate sobre o papel da religião na realidade:



Minha fé cristã tem paralelo com a história das ideias. Criança, eu acolhia como óbvio que Deus criara a árvore, assim como todas as coisas existentes.

Depois, passei a crer que Ele fizera, não a árvore, e sim a semente, da qual brotou a árvore. Adão e Eva são apenas figuras emblemáticas para atestar que somos todos filhos e filhas de Deus. Deixei de ser criacionista.

Adão significa, em hebraico, terra; Eva, vida. O autor bíblico quis sinalizar que a vida veio da terra, confirma hoje a ciência. Descartei, portanto, a convicção embutida no criacionismo de que somos todos filhos e filhas do incesto materno, já que Adão e Eva tiveram dois filhos homens...

Sei, hoje, que a semente é o ovo primordial que deu origem ao Big Bang. Ali, naquele miolo de densíssima energia, estava contida toda a Criação. Aderi ao Deus de Aristóteles, a causa primeira. E aprendi com Santo Agostinho que Deus nos legou dois livros: a natureza e a Bíblia. O segundo nos faz entender o primeiro. Hoje, o papa Francisco vai mais longe e afirma, na encíclica Laudato Si, que a natureza também é fonte de revelação divina (85).

Do Deus Providencial passei pelo Deus Artífice e, afinal, cheguei ao Deus Amoroso. Para tanto, atravessei um estágio ateu. Deixei de crer no Deus “lá em cima”, o Deus que regula sincronicamente os movimentos do Universo. Este Deus se apagou da minha fé na medida em que me aproximei de Jesus.

Antes, eu tinha Jesus na conta do Filho que o Pai enviara para redimir o pecado do mundo. Pobre Filho, destinado a lavar com o seu sangue inocente os nossos pecados! Que Deus é este, que aplaca a ofensa sofrida ao ver o Filho dependurado na cruz diante da dor incomensurável de Maria, sua mãe?

A equação se inverteu em minha cabeça. Jesus é quem me revela Deus. Agora, subo da Terra para o Céu, do humano para o divino, do Filho para o Pai/Mãe. Não creio senão no Deus de Jesus. E para mim nada significa ter fé em Jesus. Busco ter a fé de Jesus.

Assim, chego ao estágio atual de minha crença. Na fé de Jesus o ser supremo não era Deus, com quem ele tinha relações de familiaridade amorosa. Era o ser humano. Jesus acreditava que o ser humano é imagem e semelhança de Deus. Este só pode ser adorado, servido e amado no ser humano.

Por isso, toda ofensa ao ser humano é uma ofensa a Deus. Todo preconceito, toda discriminação ou segregação é rejeitar Deus. Toda injustiça cometida contra o ser humano é uma profanação do templo vivo de Deus.

O amor, como mandamento maior, não é uma questão de sentimento, devoção ou piedade. É uma questão de justiça, solidariedade e partilha. Toda religião, portanto, se resume em cuidar do ser humano e da natureza como seres sagrados. E toda espiritualidade consiste em deixar que o Espírito quebre as resistências de nosso egoísmo e nos mova na direção do ser supremo e de seu contorno ambiental, de modo a fazê-los transcender da injustiça à justiça, da opressão à libertação, da dor à felicidade, da morte à vida.

Frei Betto
Texto publicado no Facebook 

domingo, 22 de maio de 2016

O horizonte: Ampliada Nacional da Pastoral da Juventude – Janeiro 2017 - Luis Duarte e Maicom Malacarne



Estamos iniciando um novo caminho. Caminhos e horizontes não podem se separar. O próximo mês de Janeiro reserva para a história da Pastoral da Juventude do Brasil mais um momento importante e marcante: a Ampliada Nacional. Dessa vez, nossos corpos e nossas almas se dirigem para o sertão do Ceará, cidade de Crato.

A ANPJ é sempre um espaço da graça de Deus e da construção da juventude e de acompanhantes e assessoras/es de jovens. É Deus, através da meninada e desse chão sertanejo, que lançará sementes de novidade para a caminhada pejoteira no Brasil. 

Novidade sempre com gosto de profecia. Para que a juventude esteja lá de maneira profunda e aberta ao diálogo e as construções coletivas, não temos dúvida que é necessário uma boa preparação. Nós queremos contribuir nesse caminho, apontando algumas possibilidades de reflexão, no intenso desejo de ajudar apontar horizontes. Questionar também nossas certezas, nem que seja para termos certeza da certeza. 



O tema escolhido para a Ampliada Nacional diz: Ser tão PJ – romper barreiras, renovar a esperança e celebrar a vida.

 E a Iluminação Bíblica: “Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia.
 Lá me verão” (Mt 28,10). 

Queremos “esmiuçar” esse tema e a Iluminação, afim de que, a cada reflexão (mensal) possamos adentrar naquilo que se quer dizer, viver, rezar e celebrar. Outras tantas reflexões serão possíveis. 
Quiçá, esse instrumento possa ser lido, gestado, partilhado, negado, questionado e provocado outros pontos de vista. 

Estamos sugerindo para essa construção:


Maio: Ser tão PJ – Romper barreiras!
Junho: Ser tão PJ – Renovar a esperança!
Julho: Ser tão PJ – Celebrar a vida!
Agosto: Quais as “Galileias” que temos sido para os jovens do Brasil?
Setembro: Qual Jesus vamos encontrar na Galileia? Crucificado/Ressuscitado – Divino/Humano
Outubro: O que temos a anunciar a juventude do Brasil? Nossa identidade é um anúncio ou uma bandeira? É uma alegria ou uma marca?
Novembro: Como temos apontado para Galileia/Reino? De que lugares? Onde nossos pés estão pisando? Qual nosso projeto?
Dezembro: Em Crato, com a juventude, olhando para o passado, o presente e o futuro com alegria, sonhando a novidade.
Janeiro: Crato – Nossa Galileia! Crato – Lugar do encontro da Pastoral da Juventude com o Mestre!

Caminhem conosco! Aos poucos, demo-nos as mãos! Formemos um grande coletivo! Abraçamo-nos na sintonia do passo da Pastoral da Juventude! Sintonia e sincronia que formam a diversidade colorida da juventude Brasileira, de maneira especial, aquela mais pobre por quem nós da PJ queremos gastar a vida. No embalo do Sertão, com pés cheios de terra, comecemos a mirar.

Luis Duarte Vieira
Maicon André Malacarne

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Lourival deixou um presente para a juventude do Brasil. Você deseja colaborar para que chegue aos grupos e aos jovens?



Lourival estava trabalhando junto com outras pessoas da construção de uma Roda de Conversas sobre Políticas Públicas de Juventude. São quatro rodas e orientações de como organizar o conselho e conferências de juventude. Um material muito prático.

Nós que estamos envolvidos na publicação já estamos trabalhando na revisão e organização. Nosso desejo é prestar uma homenagem ao Lourival através da publicação deste material. Não temos dinheiro suficiente. O custo total para a impressão de 5 mil exemplares fica em R$ 40 mil reais. Nós já temos R$ 20 mil e precisamos de reunir os outros R$ 20 mil.

É um material muito precioso para a vida da juventude. E queremos, nesta homenagem, colaborar na construção de políticas públicas, este tempo tão frágil para a vida dos pobres e da organização popular.

Você deseja participar desta homenagem? Reúna com os amigos/as, faça a coleta do que podem contribuir e deposite em nossa campanha Sou Cajueiro   DOE AQUI SOU CAJUEIRO. Colabore nesta campanha! Nosso pouco vira muito, confiamos nisto, doe!

Todas as pessoas que fizerem sua doação nos envie o comprovante, ou o nome pessoal ou do grupo, para o registro e agradecimento para soucajueiro@cajueiro.org.br OU foto para o Whatsapp (62) 96457702.

Contamos com sua ajuda!



Formación virtual un camino que integra nuestro continente y colabora en la construcción de nuestra Casa Común



Iniciamos la formación de líderes en la modalidad virtual el día 25 de abril de 2016. Estamos con tres cursos en dos idiomas: portugués y español.

Este proyecto tiene como objetivo preparar líderes jóvenes y adultos para el acompañamiento a grupo de jóvenes. Pretende desarrollar una formación en proceso y atento a las dimensiones de la persona. Por eso, es una formación integral.

Los cursos que iniciamos en este primer semestre:

1.       En el camino del grupo de jóvenes - ¿Cómo iniciar un grupo de jóvenes? Este curso reúne 77 personas, siendo un grupo de 36 en personas en portugués acompañados por Joaara, de Belém, como facilitadora y otro grupo de 41 personas en español acompañados por la facilitadora Dalba Izos, de Panamá.

2.       En el camino del grupo de jóvenes - ¿Cómo trabajar la integración en el grupo de jóvenes? Este curso reúne 28 personas, siendo 22 personas en el curso en portugués, acompañados por Luis Duarte, de Goiás, como facilitador y 6 personas en el curso en español, acompañados por el facilitador Fernando Ramírez de México.

3.       En el grupo de jóvenes - ¿Cómo trabajar la participación social en el grupo de jóvenes? Reúne 37 personas, siendo 26 personas en el curso en portugués, teniendo como facilitador a Pedro, de Bahía y, 11 personas en el curso en español acompañados por la facilitadora Cristina Quiroa, de Guatemala.

Los tres cursos reúnen 142 personas de 12 países (Argentina, Brasil, Colombia, Costa Rica, Ecuador, El Salvador, Honduras, México, Nicaragua, Panamá, Paraguay y Venezuela). Siendo 84 personas del idioma portugués y 58 del idioma español. Están coordinando este proyecto: Anderson Deizepe, Carmem Lúcia Teixeira, Katiuska Serafin y Luis Duarte.

Este es un esfuerzo que envuelve una red de personas y grupos de todo el continente. Desde la Pastoral de la Juventud Latinoamericana/CELAM, la Pastoral de la Juventud Nacional (Brasil), el Centro Vida y Juventud de Brasilia/DF, la Red de Asesores/as y Cuidadores/as  de Manaus/Amazonas; el SPES – Instituto de Pastoral de la Juventud de Venezuela, SEJUVE/América Central, Misioneras de Jesús Crucificado, Maristas – Provincia del Sur/Amazonas, Hermanas de San José de Tarbes.

Nosotros/as del Centro de Juventud Cajueiro queremos fortalecer una acción en Red para que los procesos puedan ser asumidos comunitariamente. Esperamos que más grupos tengan interés de participar y se integren para que más personas puedan realizar la formación.

Estamos preparando para el segundo semestre cuatro cursos:

1.       En el camino de la Civilización del amor – que tiene como objetivo estudiar el marco de referencia de la Pastoral de la Juventud en el Continente. El curso será ofrecido también en portugués y español. Este curso es GRATUITO. Las inscripciones están abiertas. El curso inicia en agosto.

2.       En el camino del grupo de jóvenes - ¿Cómo trabajar la persona en el grupo de jóvenes? Este curso tiene como objetivo trabajar la persona y su proyecto de vida.

3.       En el camino del grupo de jóvenes - ¿Cómo trabajar la evangelización en el grupo de jóvenes? Este curso tiene como objetivo trabajar la fe y acentúa la lectura orante de la Biblia y el Oficio Divino de la Juventud como fuentes que alimentan la espiritualidad cristiana.

4.       En el camino del grupo de jóvenes - ¿Cómo trabajar la planificación en el grupo? Tiene como objetivo preparar líderes para la planificación. La propuesta es que la persona que participa prepara un proyecto.


Desde ya te invitamos para acompañar el proyecto de formación y motivar a jóvenes y adultos para participar de este camino de formación.  

Desea hacer su colaboración para el proyecto, entonces haga su donación CLICK AQUI
 SOYCAJUEIRO


Formação virtual um caminho que integra nosso continente e colabora na construção de nossa casa comum


Iniciamos a Formação de Lideranças na modalidade Virtual em 25 de abril de 2016. Estamos com três cursos em dois idiomas: português e espanhol.

Este projeto tem como objetivo preparar lideranças jovens e adultas para o acompanhamento ao grupo de jovens. Pretende desenvolver uma formação em processo e atento as dimensões da pessoa. Por isto, uma formação integral.

Os cursos que iniciamos neste primeiro semestre:

1.      Na Trilha do Grupo de Jovens – Como Iniciar o grupo de Jovens?   Este curso reúne 77 pessoas, sendo uma turma de 36 pessoas em Português, acompanhada por a Joaara, de Belém, como facilitadora; e outro grupo, de 41 pessoas em Espanhol acompanhados pela facilitadora   Dalba Izos, do Panamá.

2.      Na Trilha do Grupo de Jovens – Como trabalhar a integração no grupo de jovens? Este curso reúne 28 pessoas, sendo 22 pessoas no curso em Português, tendo o Luis Duarte, Goiás, como facilitador e 6 pessoas no curso em espanhol, tendo Fernando Ramirez do México, como facilitador.

3.      Na Trilha do Grupo de Jovens – Como trabalhar a participação Social no grupo de Jovens? Reúne 37 pessoas, sendo 26 pessoas no curso em português, tendo Pedro da Bahia como facilitador e 11 pessoas em espanhol tendo Cristina Quiroa – Guatemala como facilitadora.

Os três cursos reúnem 142 pessoas de 12 países (Argentina, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Venezuela).  Sendo 84 pessoas de língua Portuguesa e 58 pessoas em língua espanhola. Estão coordenando este projeto: Anderson Deizepe, Carmem Lucia Teixeira, Katiuska Serafin e Luis Duarte. 

Este é um esforço que envolve uma rede de pessoas e grupos de todo o continente. Dede a Pastoral da Juventude da América Latina/CELAM, a Pastoral da Juventude Nacional, O Centro Vida e Juventude de Brasília/DF, a Rede de Assessores e Cuidadores/as de Manaus/Amazonas, o SPES – Instituto de Pastoral da Juventude da Venezuela, SEJUVE/América Central, Missionárias de Jesus Crucificado, Maristas – Província do Sul/Amazonas, Irmãs de São José de Tarbes.

Nós do Centro de Juventude Cajueiro queremos fortalecer uma ação em Rede para que os processos possam ser assumidos comunitariamente.  Esperamos que mais grupos tenham interesse em participar e se integrem para que mais pessoas possam realizar a formação.

Estamos preparando para o segundo semestre quatro cursos:

1.      Na Trilha da Civilização do Amor – que tem como objetivo estudar o marco de referência da Pastoral da Juventude no Continente. O curso será oferecido também, em português e espanhol. Este curso é GRATUITO. Inscrições abertas. Inicia em agosto

2.      Na Trilha do Grupo de Jovens – Como trabalhar a pessoa no grupo de jovens? Este curso tem como objetivo trabalhar a pessoa e seu Projeto de Vida.

3.      Na Trilha do Grupo de Jovens – Como trabalhar a Evangelização no grupo de Jovens? Este curso tem como objetivo trabalhar a fé e, tem acento na Leitura Orante da Bíblia, No Ofício Divino da Juventude como fontes que alimentam a espiritualidade cristã.

4.      Na Trilha do Grupo de Jovens – Como trabalhar o planejamento no grupo? Tem como objetivo preparar lideranças para o planejamento. A proposta é que a pessoa participante prepare um projeto.

Desde já convidamos você para acompanhar o projeto de formação e, motivar jovens e adultos para participarem deste caminho de formação.

Você deseja apoiar este projeto? Então seja um doador para garantir a formação de lideranças nesta nossa américa latina  clique SOU CAJUEIRO




quinta-feira, 12 de maio de 2016

E o Lourival deixou herança? Carmem Lucia Teixeira




Já faz  dez dias, um tempo que Lourival partiu e ficou eterno. O desaparecimento de uma pessoa querida deixa um vazio e uma ausência que não tem palavras que podem traduzir. Fui provocada a pensar na herança que ele nos deixou.  Herança é sempre coisa complicada, porque  há interesses que nem sempre compreendemos. Há desejos que foram revelados ao longo de sua vida.

Tem tantos acontecimentos misteriosos. Minha primeira lembrança é do jovem de 17 anos. Em uma caminhada contra o latifúndio, um tempo tenso. Nesta ocasião, o seu grupo apresentou uma peça de teatro, cujo o texto era de Ariano Suassuna, que falava "segura o tacho, que a quentura vem de baixo". Depois ele veio para a equipe de coordenação da PJ da Arquidiocese de Goiânia, cujo assessor era Padre Albano Trinks, um amigo muito querido que partiu antes dos 60anos de câncer. E o Lourival visitou o túmulo na última viagem a Porto Alegre. Coincidência que no dia do aniversário da morte dele. Lori me mandou a foto da cruz com a data e perguntou, que significado tem isto?

Visitou nesta ocasião amigos queridos para ele como Hilário Dick, Fabiane, Edinho.... gente que ele tinha um grande espaço no coração do Lori. Essa viagem era para apresentar a Ciron a terra que ele amava. Aqui está uma das maiores heranças do Lourival cuidar dos amigos/as, visitar, mesmo que longe, mesmo que doente e depois de sessão de quimioterapia, ou seja, as outras pessoas tem prioridade e merece cuidado.

Tenho grande dificuldade de selecionar fatos que explicitam seus desejos que ficam para todos/as nós como herança. Destaco sua capacidade de organizar a história, era muito cuidadoso em guardar detalhes das atividades, e sempre recorria a caminho feito, para dar um passo a mais.

Coisa simples. Tardes de Formação é isto que precisamos agora para mover a juventude e acolher os jovens que chegam em Goiânia! Pronto e está inaugurado uma modalidade e depois, vamos sistematizar, recolher estar experiência e apresentar para que outras pessoas possam realizar.

Coisas grandiosas. Vamos traduzir a experiência do Seminário de Planejamento Participativo? Foram 10 anos de cuidado e estudo, então vamos produzir algo que seja um exercício multiplicador de formação? Então criamos a Escola de Educadores/as de Adolescentes e Jovens. Ela tem poder de capacitar gente que produz coisas novas em todo país.

Acompanhar os jovens em pastoral na perspectiva de formação integral. Tarefa das mais difíceis era não parar em questões internas da vida do jovem ou da Igreja. A formação exigia o acompanhamento nos espaços políticos, Lourival esteve sem medo nos conselhos estadual e nacional da criança e do adolescente, no conselho de juventude. E com que lucidez, e com crítica capaz de fazer avançar. Acompanhar os jovens de Rio Verde que desejam planejar a participação e intervenção na política. Não abandona, mesmo diante das contradições, cobra, colabora e acompanha a campanha e depois mandato. Não tinha medo de ocupar os espaços.

Cuidar da formação pessoal e comunitária. Não tinha condição nenhuma de entrar na Faculdade. Não tinha como pagar as mensalidades. Fez com sacrifícios diário, inclusive de alimentação, nada fez desistir do curso em Anicus/GO. Provocou em nós que testemunhamos a formatura em direito muitas emoções banhadas de risos. Era uma vitória que não se compara a nenhuma maratona. Cada projeto de formação criado para atender à juventude e educadores/as de juventude foi produzido com esmero até o curso de posjuventude que coordenou três turmas em Goiânia/GO.

Preparar pessoas sujeitos da sua história. Quantas vezes, buscou pessoas que estavam nas lideranças para capacitar e para avançar em seus projetos de vida. É incontável. Fizemos juntos tantas aventuras de convidar o povo para participar, só com a promessa de apoio e bolsas. No final deu dava certo, a confiança em Deus era tanta que o Senhor nunca deixou de atender as loucuras feitas.

O Cuidado com a família. Soube acolher a história e as lutas de cada pessoa da sua casa. Recordo sua avó. Como cuidou dela!!! Ela era nossa avó. Que gratidão e amor tinha com sua mãe, dona Abigair. Que cuidado e estava sempre pendente das suas necessidades e dos seus sonhos. E seus irmãos? Cuidou de Altair, seu irmão vítima do alcoolismo, sabia cuidar e acolher em suas debilidades e causava em nós, admiração por sua capacidade de amar. E cada um de seus irmãos, como vibrava com cada um, com o nascimento dos sobrinhos. Admirável a atenção com a Tia Helena e seus filhos.

Organizar tempo para celebrar com comida. Era um ritual as celebrações para o Lourival. Preparar comida gostosa! Ele herdou da mãe e reuniu várias pessoas para a comensalidade. Era engraçado, era exigente, era mal humorado.. era Lourival.

Um pesquisador que buscava novidade. Na especialização em juventude se dedicou com tanto no projeto que abriu as portas para o mestrado. Dedicou um tempo para entender a Utopia que movia a pastoral da juventude na transformação de pessoas que dela participava. E os projetos que preparou para o doutorado!! Queria muito entender a influência da Escola Militar na formação da juventude. Está aí um tema que temos que percorrer! Pode o subalterno falar?

O Centro de Juventude como espaço de formação, assessoria e pesquisa. Entendia que cuidar da juventude era cuidar do mundo. Por isto, neste tempo final dedicou-se em formar o povo da rua. O esforço em plantar a sementes e ver crescer o Cajueiro com atenção a formação de jovens da periferia nos projetos pequenos plantados nos sonhos e na coragem, atendimento aos pedidos de assessoria desde o governo, a universidade, grupos de jovens.... o cuidado era o mesmo. E a pesquisa da condição juvenil precisa ser feita em parceria com as universidades.

A Campanha a Juventude quer Viver. Cuidar da vida da juventude denunciar qualquer violação, envolver os/as jovens nesta defesa para que estes sejam sujeitos. Não fazer para os jovens, mas com os jovens.

Observatório Juventudes na Contemporaneidade. Criar, coordenar, cuidar deste espaço que junta pessoas que desejam realizar um serviço aos jovens. Foi junto com o Flávio, os primeiros coordenadores. O Centro de Juventude Cajueiro propositor junto com a Universidade Federal de Goiás, na Faculdade de Ciências Sociais.

As rodas de Conversas como instrumento de escuta da juventude. Escutar à juventude, ouvir os seus clamores e a partir daí, apoiar seus sonhos. Por isto temas, o que é ser jovem? Políticas Públicas de Juventude, temas como família, educação, religião...

Acompanhar os projetos de vida. Ele sempre era atrevido para cobrar os projetos de vida que envolvia toda a vida! Como exercitou o respeito a diversidade da pessoa! Como gostava de cuidar de todos os aspectos da vida.

Lourival partiu antes de completar 50 anos. Certa ocasião rimos muito porque ele dizia de uma pessoa com 50 anos, que era idosa. Acho que ele não queria ficar idoso. E suas última palavras, como um grande testamento foi: "O projeto, a formação, o processo, a capacitação dos jovens". Ele deixa para nós e cada um/a vamos cuidar com zelo do Cajueiro, uma iniciativa que revela a coragem e a dedicação de Lourival e de tantas outras pessoas.














segunda-feira, 9 de maio de 2016

De carroceiro a pesquisador: Lourival me representa!!! - Miriam Fábia Alves




01 de maio de 2016. Domingo dia do/a Trabalhador/a. Meu amigo Lori foi morar e espalhar sua criatividade, força e coragem em outras dimensões.

E nós que por aqui ficamos? O que fazer com esse vazio que nos inundou? Tenho me perguntado isso todos os dias e pensado no Lourival, ou seria melhor nos Lourivais, representado nas mais belas homenagens escritas por gente daqui e de tantos outros lugares na América Latina, Europa, África. 

Um ser de luz, de coragem, de decisão, de indignação, de generosidade, de planejamento, de vida doada à juventude! Esse foi o meu amigo amado. Minha memória se enche de muitas lembranças que revelam essas facetas, mas dentre elas se destaca a sua indignação e sofrimento em relação ao fim do projeto da Casa da Juventude. O fim de um projeto em defesa da vida dos jovens pobres desse país... 
 como não morrer de dor e sofrimento? Se pensam que tudo estava terminado... não se enganem... desse momento de morte surgiu o Cajueiro. E adivinhem onde estava o Lourival... Com o grupo que se juntou para criar o Cajueiro: lugar de resistência e de luta em defesa da vida dos jovens. Esse era o 

Lourival... pouca coisa lhe parecia impossível... 

Na pesquisa que fizemos juntos nos últimos anos, atividade em parceria com colegas das universidades e do Cajueiro, Lourival era metódico, rigoroso, um artesão do conhecimento... Quanto eu aprendi com ele... Quanto a vida de Lourival de aproxima de muitos jovens pobres que hoje são pesquisadores: de carroceiro a pesquisador!!! Os primeiros de muitas gerações a ingressarem na universidade... uma luta constante para garantir o direito à educação a tod@s... 


Então o que fazer agora? Nesse momento de dor utilizemos o “método” Lourival: manter a capacidade de indignar-se diante das injustiças, reaprender a lutar em outras bases, manter os princípios e as bandeiras de lutas, fazer com criatividade, manter viva a memória...
Vá em paz amigo. Sua memória se faz viva entre nós! 


Miriam Fábia – Domingo 08 de maio de 2016
“mas quem cantava chorou ao ver o seu amigo partir,
mas quem ficou, no pensamento voou,
o seu canto que o outro lembrou” (Milton Nascimento)


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Desde domingo... Pedro Caixeta




Domingo pela manhã, não consegui rezar. O hábito de ao acordar já pegar o celular, me fez ainda deitado, saber da notícia que relutava em imaginar...

Lourival, querido. Demoro escrever aqui por que tem me doído muito mexer nas lembranças... tenho proferido racionalizar. Isso me afasta a dor.

Sua imagem para mim foi, é e será sempre de um guerreiro fiel, forte!!! Não conseguia te imaginar debilitado, assim... nem se fala! Mas você é daquelas pessoas que transcende o espaço-tempo, você transcende!!!

Dar conta da sua ausência física mexe muito comigo, as lágrimas ainda insistem em escorrer pelos olhos, e acho que ainda vai ser assim por um bom tempo. Eu comigo mesmo, eu e você. Já te disse uma vez que tem muito de você em mim, brincava que tive overdose de Lourival: acompanhando meu instrumento de preparação da Escola de Educadores/as, na assessoria da CRPJ RCO, na coordenação da Escola Bíblica para Jovens, na assessoria nacional da PJ, na coordenação da pós graduação em Adolescência e Juventude no mundo contemporâneo...

Mas não foi só nisso, foi na vida... foi no fazer e comemorar aniversários juntos, foi no conversar sobre a vida e sobre os sonhos, sobre as dificuldades, foi nas broncas de quem ama e quer ser com a gente fraterno e sincero...

Desde que soube, lembrava desta imagem sua... que agora resgato aqui... você será sempre meu coringa!!! Quando crescer quero ser como você... Disto tudo aqui, meu desejo é que humildemente eu possa contribuir na sua Ressurreição... Que eu tenha a juventude por causa, como você teve, o Reino como utopia, o desejo de saber, a força para lutar e o mundo para deixar sua marca....

Desde domingo dizia, que agora você se juntou com Gisley. Meus amigos, de onde vocês estiverem, olhem por mim, olhem por nós... nos inspirem e ajudai-nos... Eu já escolhi com quem me apegar... Mande lembranças para tantos outros camaradas que por aí estão...

Gratidão...

Uma palavra de amorisidade da PJ do Regional Centro Oeste na Páscoa de Lourival





#‎PascoaLourival‬

Olá povo cerratense, do cajú, dos ipês, do pequí... é com muitos sentimentos, ainda misturados que nós do Regional Centro Oeste viemos fazer parte dessa grande partilha, memória e lembranças da #PascoaLourival

Então...O que dizer de uma referência? A primeira coisa que nos vem a mente, neste momento, é uma música, e como Lourival gostava tanto de música, porque não começar a dizer dele com uma?
"Debulhar o trigo recolher cada bago do trigo, forjar do trigo o milagre do pão e se fartar de pão...Decepar a cana, recolher a garapa da cana, tirar da cana a doçura do mel,se lambuzar de mel...Afagar a terra, conhecer os desejos da terra, cio da terra propicia estação e fecundar o chão..."

Lori foi um homem que deixou em nós a vontade de plantar, de conhecer o milagre, os mistérios da vida, que por sua dedicação e fé na juventude nos instiga ao trabalho árduo de construir um outro mundo possível... Que pela sua criatividade e encanto nos mostrou que neste trabalho árduo encontramos a doçura do mel nas vivências, nas festanças da vida, na arte, nas pessoas que também acreditam nos nossos sonhos, assim, nos lambuzamos de alegria de amor, um amor que nos une de forma tão singela, um amor cuidante... Lori homem do nosso cerrado, sabia que cuidar da terra era primordial, conheceu e viveu os anseios da juventude, se capacitou, estudou, superou, lutou,acreditou, sentiu, amou... Esteve conosco na Pastoral da Juventude em vários momentos de capacitação, formação de lideranças, nos materiais escritos, nos projetos da CAJU, no CAJUEIRO, no Regional Centro Oeste...

Cajueiro que só nasceu porque essa gente cerradeira, pejoteira, cajueira não é de desistir de sonhar e fazer acontecer. Lá foi esse homem sonhador, com amigos e amigas, construir um novo projeto que continuasse garantindo vida digna para a juventude, um projeto que ajuda a juventude a se reconhecer como protagonista de sua vida. Com este projeto o CAJUEIRO, construído com mãos amigas, Lourival fecundou o chão, olhou pro horizonte, viveu a utopia...e na certeza de que este chão é terra boa, os frutos virāo, continuarão se espalhando com os/as jovens cerradeiros/as e por onde mais seu nome ecoar nessa América Latina como prova de testemunho do reino...

Quanto a esse Regional, que não foi e nem será o mesmo depois de sua presença por aqui, gratidão Lourival, por afagar as terras desse regional, conhecer os desejos, perceber o momento certo de plantio e fecundar o nosso chão de amor. Não se preocupe se uma lágrima rolar nos momentos de saudades de você, “é que a gente corre o risco de deixar cair algumas lagrimas quando se deixa cativar” e você nos cativou, nos cuidou, o que fica é o amor que nos deixa em comunhão. E tem ainda uma outra música que a gente gosta tanto e diz tanto de nós, que diz da sua mística e nos ajuda a fazer memória, na certeza da Páscoa e do reencontro...

“o espírito é vento incessante que nada a de prender, ele sopra até no absurdo que a gente não quer ver, muito tempo não dura a verdade, nessas margens estreitas de mais, Deus criou o infinito pra vida ser sempre mais”...

Lourival, até que nos tornemos a nos encontrar, Deus te guarde no calor de seu abraço.
Fique em paz.

"olha pro céu meu amor, vê como ele está lindo"

https://youtu.be/G0QzL01oRu0

O cenário que se desenha hoje - Pedro A. Ribeiro de Oliveira*


 – IHU, 26 de abril de 2106**
            Exponho meu pensamento de modo afirmativo, mas deixo claro que a tese que o perpassa – a derrota do projeto nacional-desenvolvimentista brasileiro – é somente uma hipótese. Hipótese pessimista, mas capaz de abrir uma perspectiva otimista para a ação, como recomendava o mestre Gramsci.
            Temos que decifrar o que está acontecendo por detrás dos jogos de cena onde aparecem os agentes visíveis (políticos, policiais, juízes, comunicadores, líderes sociais, agentes religiosos, etc), porque eles e elas estão a serviço de alguma classe social. E o que conta na estrutura social são os projetos e a visão que cada classe procura impor como se fossem de toda a sociedade. Dessa análise devem resultar pistas adequadas para levar adiante um projeto para o mundo, porque não há neutralidade possível nesse jogo/luta pelo poder. Esta análise só tem sentido se for útil às classes dominadas e grupos oprimidos.
            Meu ponto de partida é a consideração da crise mundial do capitalismo, porque o Brasil está na periferia do sistema capitalista mundial e, como sempre acontece, é sobre a periferia que recai o ônus maior da crise mundial. A crise de 2008 não terminou. A financeirização do capital é sintoma de crise de longa duração, como mostra a história de 5 séculos de capitalismo. Durante todo esse tempo o capitalismo só consegue superar suas crises de superprodução por meio da “destruição criativa” = guerra de onde emergirá o polo dinâmico do novo ciclo de acumulação. Do norte da Itália (s. 15) para Amsterdã (s. 16-17), depois Londres (18-19), atualmente N. Iorque e no futuro talvez Pequim. Hoje existe nova forma de guerra: a “guerra não-convencional” que pode destruir um país sem recorrer à força das armas, porque usa instrumentos políticos, policiais e judiciais amparados por intensa desinformação midiática (TVs, rádios, jornais e principalmente redes sociais operadas por agentes treinados para a provocação). É só lembrar os que os EUA fizeram no Afeganistão, Iraque, Líbia, Egito e Síria, bem como os golpes dados em Honduras e Paraguai. Isso, quando não conseguem vencer a eleição e colocar seu agente no governo (Macri, na Argentina). A política externa de Lula e Dilma, de aproximar-se da China e favorecer a integração sul-americana certamente contraria os interesses geopolíticos dos EUA.
            O objetivo dessa operação de “guerra não-convencional” é quebrar a espinha dorsal do capitalismo brasileiro (BNDES, bancos e empresas estatais, grandes empreiteiras) e passar seu controle às megaempresas mundiais. As classes dominantes do Brasil – não mais de 100.000 famílias – aceitam esse projeto porque são, desde a colonização portuguesa, o sócio minoritário do capital externo. Embora elas tenham sido beneficiadas pelo modelo nacional-desenvolvimentista financiado pelo Estado, agora renunciam a esse modelo e submetem-se docilmente ao neoliberalismo imposto pelos grandes conglomerados corporativos transnacionais que mandam no mundo. A política de equilíbrio fiscal por eles imposta reduz drasticamente a capacidade de intervenção do Estado na economia, deixando que ela seja regulada apenas pelo mercado. O 2º governo Dilma curvou-se a essa política de equilíbrio fiscal, mas conseguiu manter políticas sociais que protegem as classes economicamente desprotegidas. Agora as classes dominantes mostram sua decisão de acabar até com essa pequena proteção do Estado aos pobres.
            Nesse quadro mais amplo fica claro o papel desempenhado (intencionalmente ou não) por Temer, Cunha, Bolsonaro, Moro, Gilmar Mendes, Serra, FHC e outros atores que tomaram a frente do processo de aniquilamento do PT e do esvaziamento de suas lideranças. Trata-se de colocar o País de joelhos diante das megaempresas que virão completar o processo de colonização da nossa economia, com a aprovação das classes dominantes. O problema é grave porque os governos Lula e Dilma jogaram toda sua força na política nos programas que tiraram quase 50 milhões de pessoas da miséria, expandiram a demanda, estimularam investimentos e aumentaram muito o nível de emprego, mas não foram acompanhadas pelo aumento da organização política popular nem pela tributação das classes dominantes, que continuam a concentrar a renda e a riqueza. Hoje as classes populares têm menos meios de expressão e de representação de seus interesses no espaço público do que tiveram durante a década de 1980. Já as classes dominantes romperam unilateralmente o pacto social que está na base da Constituição de 1988, esvaziando-a de direitos sociais conquistados. O atual golpe de 2015-16 vem completar esse processo de cassação de direitos de cidadania para as classes subalternas. As grandes manifestações de 2013 deixaram isso evidente: amplos setores incluídos no mercado de consumo, mas excluídos da cidadania, como a juventude, foram às ruas protestar. Como seu protesto não foi atendido, a insatisfação das novas gerações tem crescido, como mostram as ocupações de escolas públicas. Novos e antigos movimentos – os Sem-Teto, Povos indígenas, MST, movimentos contra barragens, ambientais, LGBT e outros – expressam essa insatisfação social que busca uma solução que não passa pelo canal das eleições.
            Por tudo isso, é importante resistir ao golpe. Estão sendo preparadas manifestações populares no 1º de maio e quem defende a democracia não poderá faltar. Mas devemos pensar a possibilidade de êxito do golpe e a consequente conquista do Estado brasileiro por grupos alinhados com as megaempresas. Seria imprudente jogar todas as forças na resistência ao golpe, pois correríamos o risco de sofrer uma derrota atrás da outra até o completo aniquilamento. Há que se pensar uma estratégia de retirada que preserve pelo menos parte de nossas forças para lutar contra a devastação social, econômica, moral e ambiental que se anuncia. Com o realismo de Darci Ribeiro – que no final da vida disse “perdi muitas batalhas, mas nunca quis me colocar ao lado dos vencedores” – deveremos reconhecer a derrota política das classes populares para traçar uma estratégia inteiramente nova.
            Para isso precisamos levar em conta um fator até hoje pouco considerado em nossas análises de conjuntura social, política e econômica: o fator ambiental. Tudo indica que o ano de 2014 marca o início do período de rápido aquecimento global. A reunião mundial da COP-21, em Paris, reconheceu haver risco de agravar-se o aquecimento, mas ficou nas boas intenções. (Se o aquecimento global fosse levado a sério as corridas de automóveis já estariam proibidas). Provavelmente antes de 2050 enfrentaremos uma situação calamitosa: num verão quente, haverá escassez de água, de eletricidade e de alimentos. O que acontecerá nas médias e grandes cidades? O Estado já desmantelado não terá meios para controlar o mercado e impor um sistema de distribuição de bens escassos. Provavelmente sua ação se limitará a reprimir os protestos populares. O que esperar, senão o caos social?
Ainda não vislumbramos uma estratégia eficaz para enfrentar e superar essa crise social e ambiental que se anuncia em âmbito planetário. A lógica do capital, apoiada na tecnociência, despreza os limites ambientais e se considera invencível, como se a Terra também reconhecesse o valor do dinheiro. Essa lógica fará o mercado capitalista (talvez conduzido pela China) devorar todos os bens do Planeta, transformando-os em objeto de compra e venda, até o esgotamento dos recursos que por tantos milênios favoreceram o desenvolvimento da vida. Exausta, a Terra deixará de ser nossa casa comum e vai tornar-se um planeta inóspito para a espécie humana. É ainda possível impedir que isso ocorra?
Já está em curso essa busca de um outro modo de produção e consumo, mas é necessário acelerar seu ritmo e dar-lhe alcance planetário para que ela seja capaz de evitar a catástrofe. Mais importante do que saber se ainda há tempo para reverter o processo, é fundar desde já as bases de uma sociedade alternativa. Se ela se consolidar a tempo de salvar a humanidade, melhor; mas se o tempo não for suficiente para isso, os sobreviventes terão pelo menos as bases sobre as quais construir uma forma de sociabilidade respeitosa da Terra, onde a espécie homo sapiens viva em paz consigo mesma e com as demais espécies. O pior, de fato, seria a inação: por descrença na possibilidade de conversão da humanidade, legar à futura geração um Planeta devastado e com parcas condições de vida.
Penso que hoje é imperioso desenvolver a espiritualidade política libertadora como a forma de espiritualidade cristã (e também de outras tradições religiosas) mais necessária para o mundo. Não sei avaliar até que ponto as Igrejas cristãs serão capazes de nos ajudar a vivenciar essa forma de espiritualidade, porque parecem só se ocupar de felicidade depois da morte. Mas se, com Pedro Casaldáliga, afirmamos que “queremos terra na Terra, já temos terra no Céu”, temos que buscar uma espiritualidade terrenal, uma espiritualidade que anime as lutas pela vida da Terra como casa comum que abriga a humanidade e todas as espécies vivas. Os Direitos da Mãe Terra e o Direito dos Animais não podem ser descartados como ocorre hoje. A espiritualidade política deve inspirar uma outra visão de mundo, onde a humanidade se integre na grande comunidade de vida do Planeta. Este é, em síntese, o propósito do Bem-viver: mais do que utopia, é verdadeira Sabedoria de Vida.
**http://www.ihu.unisinos.br/noticias/554129-o-cenario-que-se-desenha-hoje


Elementos para uma análise de conjuntura política

 Maio 2016

I.          Contexto Histórico

1.      Depois de derrotarmos o neoliberalismo, e passarmos dez anos de neodesenvolvimentismo, houve um esgotamento desse modelo.
2.      Há uma crise histórica e profunda de natureza: Econômica, Política, Social, Ambiental e de valores.
3.      Há uma crise do modo capitalista internacional – eles não têm saída a curto prazo. E a economia brasileira, periférica, subordinada a eles, é utilizada para aumentar a exploração dos trabalhadores e espoliação das riquezas naturais.
4.      As saídas serão prolongadas e conflitivas, pois dependem de articulação de um novo projeto a ser articulado pelas forças sociais.
5.      O capital internacional e nacional vão disputar todas as possibilidades de acumular capital no Brasil. E suas prioridades serão apropriar-se do petróleo (representa uma renda extraordinária de 200 bi de reais por ano); minérios; previdência social (mercantilizá-la para se apoderar da poupança dos trabalhadores); energia elétrica (pois várias hidrelétricas poderão ser privatizadas com renda extraordinária) e ainda privatização de diversas empresas e bancos públicos transformando-as em sociedades anônimas e por último privatizar serviços públicos que podem dar lucro na educação: saúde,etc).
6.      Para que o capital retome suas taxas de lucro e volte a acumular, só tem o caminho de diminuir o custo do trabalho, ou seja, retirar direitos dos trabalhadores, diminuir salários, etc.
7.      A médio prazo, a classe trabalhadora só poderá conter a volta do neoliberalismo e  construir seu próprio projeto com amplas mobilizações de massa e com o reascenso do movimento de massas em geral.

II.    O enfrentamento atual na luta de classes

1.       A Luta de Classes se acirrou na sociedade
a) Há disputa política e ideológica em cada espaço.
b) Acabou a posição de centro e com ele a política de conciliação de classes, que o PT/PcdoB e o governo aplicaram nos últimos anos.
c) A extrema direita ganhou espaços de influência ideológica na atual conjuntura, seja nas manifestações e nas redes (Bolsonaro, etc.), porém tem influência maior entre os mais ricos e não em toda sociedade.
d) Nas últimas semanas brotaram inúmeros atos, manifestos de setores influentes da sociedade, como energias progressistas, que estão enfrentando a hegemonia da Globo. E a votação do dia 17 de abril despertou entre a maioria da sociedade um sentimento de indignação contra o golpe legislativo-judiciário.
e) O futuro governo Temer-Cunha é um enigma, pois por mais que tenha conseguido aglutinar o poder econômico, a mídia e os parlamentares, tem apenas 8% de apoio na sociedade. Vai aplicar um programa neoliberal. Reunificou todas as forças partidárias conservadoras, reeditando o velho centrão que vem desde a constituinte. Mas ninguém sabe como serão as reações da população, que eles não controlam.


2.       Objetivos da direita/dos capitalistas
a) Recolocar o projeto neoliberal e subordinar nossa economia aos EUA. (Isso significa recompor as taxas de lucros, reduzir direitos dos trabalhadores, se apropriar de recursos públicos, privatizar mais empresas publicas, etc. Ou seja, colocar a exploração do trabalho em novo patamar para eles poderem sair da crise e voltarem a acumular. Para isso, será necessário:
b) Derrotar o governo Dilma.
c) Impedir a possibilidade de ter Lula como candidato em 2018, (pela via da desmoralização, ou mesmo transformá-lo em ficha suja, por alguma prisão fajuta)
d) Derrotar o PT e a Esquerda como proposta política alternativa de sociedade frente à crise do capitalismo.
e) E nesse contexto ir implementando as medidas neoliberais na sociedade, via Congresso, Judiciário, mídia.  Criar uma nova hegemonia ideológica na sociedade.

3.       A Direita está dividida na sua direção política entre os seguintes pólos, que podem se aglutinar ou disputarem entre si:
a) Frente Partidária - PMDB/PSDB/DEM, mas os partidos não tem representatividade na sociedade, apenas controlam as máquinas institucionais. E todos eles estão envolvidos também na corrupção e na operação lava-jato.
b) O Poder econômico – das empresas (têm também varias frações entre eles, alguns defendem o neoliberalismo e o golpe, outros sonham com neodesenvolvimentismo e outros não sabem para onde ir).
c) Núcleo ideológico: MPF + PF + Moro + Globo (agem por motivação político-ideológica e sem articulação com as demais frentes).
Nos próximos embates, podem emergir muitas contradições entre as três frentes de comando político deles, que precisamos explorar.

4.       Desfechos possíveis
a) As divisões nas articulações da direita podem levar ainda a diferentes desfechos.   Mesmo com a retirada da Presidenta Dilma, teremos 120 dias de muita disputa e ninguém sabe o que vai acontecer até as eleições de 2018.
b) Eles não podem jogar a operação lava-jato debaixo do tapete. E ela pode impugnar mais de cem parlamentares e vários dirigentes expressivos da direita e inviabilizar diversas empresas.
c) É possível que haja uma desmoralização geral da política. E se houver mobilizações e reascenso do movimento de massas, os temas da reforma política, da Assembleia Constituinte e da realização de novas eleições gerais, podem ganhar força política na sociedade.
d) Há duvidas se o governo Temer terá coragem de criminalizar os movimentos  populares, começando pelo MST. Pois será também um governo de crise permanente até as eleições de 2018, já que é um governo ilegítimo. O mais provável é que mescle medidas econômicas neoliberais, como pequenos agrados aos mais pobres.
e) E em relação aos movimentos organizados da classe trabalhadora, a criminalização virá pela mídia, pelo legislativo (com CPIs do Incra, da UNE da CUT)  e liberando as forças direitistas nos estados para realizarem a repressão, numa mescla da PM com os setores truculentos da burguesia e seus capangas (como já deram sinais no Paraná).

III- DESAFIOS e Necessidades da classe trabalhadorapara enfrentar a luta de classes :

1.        Debater na FBP (Frente Brasil popular) e com todos setores da classe e  aliados a necessidade de avançar nas paralisações, greves e mobilizações para enfrentar o capital. E, explicar para o povo a natureza do golpe e porque eles precisam a volta ao neoliberalismo.
2.        Enfrentar e denunciar a rede Globo, que é hoje o centro da direção político-ideológica da direita.
3.  A classe trabalhadora/FBP precisa ter uma pauta mais clara, um Plano de Emergência para além da defesa da legalidade do Governo, para dialogar com as massas, explicar a disputa de projetos entre: a volta do neoliberalismo ou avançar mais além do neodesenvolvimentismo.  Precisamos construir uma CARTA DO POVO BRASILEIRO para a sociedade, com dez, doze pontos bem claros.
4.  Melhorar as formas de se comunicar com as massas. Denunciando a corrupção de todos os políticos e mostrando a necessidade de uma reforma política, exigindo mudanças na política econômica e nas políticas publicas para melhorar as condições de vida da população. Defender a soberania nacional, ou seja, que as riquezas naturais (petróleo, minérios, energia) sejam para resolver os problemas do povo e não apenas para lucro máximo das empresas.
5.        Construir novos métodos e novas formas de condução e de fazer política.
Sem hegemonismos, protagonismos, vanguardismos, com democracia participativa, etc.
6.             Construir um Projeto Popular para o Brasil, como programa estratégico que contribua na construção do socialismo.
a) Formar um grupo com representante de diversos setores, como intelectuais orgânicos, dirigentes para sistematizar o acúmulo que existe na classe e na sociedade.
b) Praticar a Pedagogia de massas, usando o projeto para construir com a base social, corrigi-lo e motivar as massas a lutarem.
7.             Retomar a formação política e a consciência soccial para avaliar a Luta de Classes corretamente.





quarta-feira, 4 de maio de 2016

Lutou pelo bom, pelo belo e pelo justo - William Bonfim


Temos difíceis. Tempos de luto pessoal e coletivo. Domingo, 1º de maio de 2016, recebi nas primeiras horas a notícia da morte física do Lourival Rodrigues da Silva, 49 anos. Este homem/amigo é parte da minha estória, da estória de tantos outros/as pessoas e da história de um país. Sem modéstia. Nas ruas, manifestações no Dia do Trabalhador denunciaram a falácia do processo de impeachement de uma presidente - democraticamente eleita pelo povo brasileiro - conduzido por homens de conduta questionável. Tempos de morte de um projeto de nação, cujo um dos eixos centrais foram a inclusão social e a distribuição de renda, sonhado e construído por milhares de mãos.

Tempo em que o fascimo dá as caras no Congresso Nacional, nos púlpitos, nas redes sociais e até mesmo na atitude de pessoas próximas. Tempo em que o conservadorismo ganha expressão no comportamento de pessoas aparentemente “esclarecidas”. Tempo em que a disputa pelo poder valida as estratégias mais rasteiras e mesquinhas: roubar, matar, fazer o outro menor, não enxergar o bem coletivo. Tempo no qual isto é aceito e justificado sob a proteção da “legalidade”, com o aval de instituições que deveriam zelar pela ética e pelo bem comum. Tempo em que as igrejas, que deveriam promover a paz, estão preocupadas em fazer valer seus projetos de poder.

Como, em meio a tudo isto, não lembrar de você Louri que foi, simultaneamente, trilhando e sendo trilhado por um itinerário que anuncia valores de amizade, de afetos e partilha, de acolhida das diferenças, de superação de desafios, de utopia de um mundo melhor, sem divisões e com novas relações, de estética e beleza. Uma trilha na qual não há perdedores e nem vencedores, mas irmãos e irmãs, caminhantes do bem viver. Um caminho onde a mesa da “comensalidade”, do comer juntos, do partilhar a comida e o pão da vida, é o lugar central e sagrado, onde a amizade se refaz dos cansaços da estrada e se realimenta de estórias e esperanças e os projetos se costuram e enfeitam de beleza, estratégias e concretude...

Desde a sua carroça, primeiro instrumento de trabalho nas ruas do setor Fimsocial, bairro pobre da periferia de Goiânia, projetou e empreendeu sonhos e caminhos, individuais e coletivos. Você, junto a tantos/as buscadores da paz, deu bases e ajudou a edificar a Pastoral da Juventude de São Luis de Montes Belos, de Goiânia, do Centro Oeste, do Brasil e da América Latina. Você deu fundamento ao que conhecemos por Casa da Juventude Pe. Burnier. Você sistematizou e publicou tantas experiências que vivenciamos. Você deu vida a uma pós-graduação e pesquisas sobre a realidade juvenil... Você empreendeu lutas no campo das políticas públicas, pelos direitos das crianças, adolescentes e da juventude. Você plantou e colheu, em vida, o Cajueiro. Fomos com você e com tantos e tantas irmãos/as colaborando, de diferentes formas e em diferentes lugares, na costura deste projeto.

Você não se furtou a comprar uma boa briga pelo que considerava ser justo. Nunca fugiu a nenhum desafio. Enfrentava-os como se enfrenta a um touro bravo, encarando-o frente a frente, fitando-o profundamente no olho, segurando-o pelo chifre, superando-o com a doação do seu melhor conhecimento, capacidade de trabalho e entregas de resultados efetivos. Você soube conjugar o verbo amar, o trabalho coletivo e cuidado essencial das relações, da amizade... Tinha o dom de nos questionar sempre e nos tirar sempre da nossa “zona de conforto”. De nos fazer pensar sobre o sentido de nossas vidas e nosso projetos. Como disse a Shirlaine Valeriano, em seu velório: “O Louri foi o ser que mais me compreendeu”. E certamente, como a mim, também a tantos/as outros/as.
Tua passagem me faz pensar e refletir sobre o câncer. Na sociedade na qual estamos mergulhados, como bem lembrou outra amiga Eliane Martins, do Rio Grande do Sul, estamos todos na fila desta doença. Mais cedo ou mais tarde nos defrontaremos com câncer, nosso ou de amigos e familiares. Afinal, o que está errado é este modo de vida forjado pelo capitalismo, que devemos combater e denunciar: alimentação inadequada, cheia de venenos e agrotóxicos, estresse provocado por trabalho desumanizante, falta de tempo para cultivar o que é essencial e processar as emoções, medos e angústias. Me fez também pensar nas mágoas que vamos guardando e que possuem uma imensa capacidade tóxica de fazer mal ao nosso corpo e à nossa saúde. Me fez pensar na necessidade do perdão. O perdão ensinado por Jesus Cristo que pede que perdoemos até mesmo os nossos inimigos.

Um homem, uma mulher não se tecem sozinhos. A esperança também não. Uma manhã precisa de vários galos para ser anunciada, como bem nos lembrou o poeta João Cabral de Melo Neto. Vivemos um luto coletivo de um projeto de sociedade e da perda de um grande amigo. Que tenhamos a capacidade de nos perdoar, de perdoar e de ser perdoados. Que cuidemos uns dos outros, repensemos nossa forma de viver e alimentar, cuidemos da nossa casa comum. Entrelacemos redes de solidariedade e afeto. Compartilhemos o pão, as dores e alegrias. Avancemos, com gestos concretos, para a utopia do bem viver.

À sombra de uma árvore, à luz de um belo entardecer, aos pés do Santuário do Divino Pai Eterno e rodeado de gente querida seu corpo físico, Louri, desceu ao barro. Mas sua vida e exemplos transcendem o tempo e o espaço. Amigos e inimigos, afetos e desafetos, de perto e de longe, vieram-lhe render uma última homenagem. Prá mim sua grandeza se reflete nisto. E afinal é isto que importa. O que você amou. Os que o amaram. Tudo o mais são penduricalhos de vidas que não conseguem enxergar além de si mesmas, que se fiam na perspectiva egoísta e na falsa ideia de que se bastam e que podem prescindir de lutar pelo que é belo, bom e justo, como você sempre fez.

Willian Bonfim