terça-feira, 11 de novembro de 2014

Cajueiro - Centro de formação de Juventude realiza seu Fórum de Avaliação e Planejamento


O Centro de Juventude Cajueiro realizará no dia 29 de novembro o seu Fórum de avaliação e planejamento. Nestes dois anos de atividades várias pessoas participaram de atividades: assessorias realizadas em vários lugares do Brasil, cursos virtuais que envolveu vários países do continente, atividades de formação presencial, como Na Trilha da Universidade, ou da pesquisa com seus seminários, Observatório Juventudes na Contemporaneidade, rodas de conversas, etc. Também, muitas pessoas colaboraram com a comunicação - organização da página web, imagens... Outras, como doadoras, no projeto "Sou Cajueiro".

Sabemos que é impossível para muitas pessoas estarem aqui em Goiânia, nesta data, porém, podemos participar de outras maneiras avaliando e sugerindo ações. Colaborando para que esta árvore possa crescer e se frutificar, ou semear outras sementes e fazer nascer uma floresta.

Você pode participar CLIQUE AQUI E AVALIE E ENVIE SUAS SUGESTÕES vamos cuidar bem deste broto para que dê flores e frutos.

Você pode enviar sua mensagem para centrojuventude@cajueiro.org.br

Estamos na espera da sua participação.

Equipe de coordenação do Cajueiro

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

SENSIBILIDADE - Hilário Dick, sj


 
 

Não tenho vergonha de confessar que estou sensível, muito sensível.
 
As causas podem ser a idade que vivo (no caminho dos 78 anos), a forma como vi brasileiros se comportarem nas eleições deste ano (1º e 2º turnos), o suicídio de adolescentes perto do meu nariz, o tratamento brutal e selvagem que adolescentes recebem em muitos lugares, a conjuntura da morte de um colega meu, desde os anos de 1950, certa maneira como se deseja viver a afetividade por parte de meninos e meninas, moços e moças, a falta de encantamento pela vida da sociedade em geral, a incapacidade que os cristãos estão tendo de seduzirem para a vida e a justiça, a grosseria dos que não querem compreender que os pobres não são vagabundos, a falta de alegria que uma parte da sociedade sente em ver muitos pobres saírem da miséria e poderia prosseguir muito e por muito tempo esta ladainha tristonha das motivações de uma sensibilidade que vivo. 
 
 
Acho que não minto se digo que tudo isso é indignação. Não me engano, contudo, porque dessa indignação brota igualmente muita poesia. Aliás, apesar de a profecia levar, muitas vezes, à morte, não há profecia que não seja poética.

O discurso que nos mobiliza para construir a Paz

video
"O grande ditador" (The great dictator), 1940 de Charles Chaplin com legendas em português.

Estamos em tempos de retomar este trecho do discurso do Filme do Chaplin em todas as nossas atividades.
Construir a paz!
Não ao ódio!
Sim à vida!
A juventude quer viver!
Não aos massacres de tantos jovens... México, Brasil, América Latina.
Basta!!!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Não há comemoração do mês da consciência negra com a matança dos jovens negros e negras!




Nós jovens negras e negros, autônomos e/ou organizad@s nos movimentos e organizações sociais, exigimos a imediata intervenção das instituições federais e do estado do Pará no intuito de cessar a matança em curso de jovens negros/as nas periferias de Belém e cidades da região metropolitana.

Exigimos a apuração imediata dos homicídios ocorridos desde a madrugada do dia 05 de novembro em retaliação do assassinato de um policial militar da ROTAM/PA que desencadeou até o momento o extermínio de mais de 40 pessoas em sua maioria jovens negros. É público e noticiado amplamente nos jornais e redes sociais que desde a morte do referido policial, seus colegas estão convocando toda a corporação a “ir as ruas dar as respostas” e isso tem promovido um massacre que está exterminando negros e negras como se fossem ratos neste estado.

Diante desta postura genocida, as juventudes negras brasileira conclamam que o Estado tenha uma atuação imediata para punir os culpados e responsabilizar as devidas instituições pela ação e omissão que permitiu a concretização deste massacre em pleno mês da consciência negra.

Neste momento reafirmamos a importância de:
Que a Presidenta da Republica se pronuncie imediatamente, tomando as devidas providências, já que a mesma se comprometeu com a juventude negra no seu segundo mandato;
Aprovação imediata da PL 4471/12, pelo o fim dos autos de resistência;
Desmilitarização da Policia;
Construção de uma política nacional de segurança publica pautada na defesa da vida;
O fortalecimento do Plano Juventude Viva como uma política publica de Estado para o enfrentamento à violência letal contra a juventude negra, e;
O combate ao racismo em todas as instituições.

Assinam:
Fórum Nacional da Juventude Negra - FONAJUNE
Fórum de Enfrentamento ao Extermínio da Juventude/RS
Fórum Estadual de Juventude Negra do Espírito Santo
Conselho Estadual de Juventude do Espírito Santo
Grupo de União e Consciência Negra da Bahia
Rede de Religiões de Matriz Africana do Subúrbio de Salvador - RREMAS
Rede Nacional de Negras e Negros LGBT
Coletivo Tela Firme
Organização de Mulheres Negras Ativas
Coletivo Casa de Pretas
Bloco das Pretas
Ilê Asé Torrrun Gunan
Grupo de Cultura Afro Kisile
Centro de Defesa de Direitos Humanos – Serra/ES
Coletivo Negrada
Fórum de Juventude Negra do Pará
Artgay Jovem do Pará
Coletivo de Mulheres Negras Aqualtune
JCONEN
Movimento Enraizados
Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro
Fórum Social de Manguinhos
Organon – UFES
Levante Popular da Juventude
Rede de Articuladores e Articuladoras do Plano Juventude Viva
Fórum Permanente do Hip Hop Gaúcho / RS
Nação Hip Hop Brasil / ES
Rede Mocambos / PA
Hip Hop Mulher
Núcleo Donas da Arte – RJ
Laboratório de Ideias que Mudam o Mundo
ATD Quarto Mundo Brasil
Circulo Palmarino
Instituto Gangazumba
Comunidade Jongo Dito Ribeiro
Articulação da Cultura Popular e Afroalagoana
Instituto Quintal Cultural
Casa de Cultura Tainã
UJB – União da Juventude Brasileira
IPEJ – Instituto de Promoção e Estudos das Juventudes
APN´s / ES
Federação de Capoeira de Alagoas
Frente Nacional de Mulheres do Hip Hop
Teia de Agroecologia dos Povos da Cabruca e da Mata Atlantica
Agência Livre para a Cidadania, Informação e Educação (Projeto Jornal Boca de Rua)/ RS
Posse Atitude Periferica / AL
INEG – Instituto do Negro Alagoano
Movimento Nacional de Direitos Humanos
Comissão de Direitos Humanos da OAB / ES
Fórum de Juventude Negra da Paraíba
Movimento Basta de Homicídios nas Periferias / AL
Coletivos de Estudantes Negros da UFMG
Nucleo Conexões de Saberes da UFMG
Fórum Baiano de Juventude Negra
Articulação Política de Juventude Negra
Coletivo de Assessoria Cirandas
Fração Pública MNU de Lutas
Autônomo e independente BR
UNEAFRO
Quilombo Urbano Negro de BH
Fórum das Juventudes da Grande BH
Cajueiro - Centro de Formação, Assessoria e Pesquisa em Juventude
Pastoral da Juventude do Meio Popular
RECID / PA
Comissão de Igualdade Racial da OAB /ES
MNC – Mulheres Negras Capixabas
Fórum de Juventude Negra do Maranhão
Centro Cultural Alagbedê
Centro de Cultura e Estudos Etinicos – ANAJÔ / APNs – AL
FASE
CAMTRA – Casa da Mulher Trabalhadora – RJ
Coletivo Nacional de Entidades Negras - CEN
Observatório Capixaba de Juventude
Conselho Nacional LGBT
Observatório Infanto-juvenil em Contextos de Violência – UFRN
Panteras Mangue Break- Maceió - AL
Comunidade de Terreiros Ilê Asè Ossain Agé / Santa Maria – RS
Ocupa Borel
Redes de Instituições do Borel – Rj
Comunidade Apostólica de Gileade – RJ
Viração
Pastoral da Juventude Nacional
DIGNITATIS – PB
Assessoria Técnica Popular
Dom da Terra Afro LGBT
KOFILABA – Koletivo Filhos do Abassá
MNU - BA
Frente Quilombola / RS
Rede Mandacarú RN
Rede de Juventude de Terreiros de Pernambuco
Coletivo Caboclo Munique Lopes – COCAMOLO
Casa da Juventude de Marabá
Espaço Comunidade
Centro de Defesa dos Direitos Humanos Nenzinha Machado
Comitê Estadual de Educação e Direitos Humanos do Piauí
Pontão do ECO – UFRJ
Ocupa Alemão
Anastácia Contemporânea
Grupo Arco-Iris
Nossa conduta
Coletivo Papo Reto
Federação Amapaense de Hip Hop
Movimento Afro Jovem do Amapá
Fórum de Juventude Negra do Amapá
Programa Luamin
Comissão de Política Criminal e Penitenciária da OAB-ES
Som de Preta - RJ
Casa de Boneco de Itacará - BA
NEJA - Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Educação de Jovens e Adultos - UFMG
FOMEJA - Fórum Mineiro de Juventude Negra

Nota: No Maranhão adolescentes sofrem com violência e tortura policial



A RENADE – Rede Nacional de Defesa do Adolescente em Conflito com a Lei, articulação nacional formada por centros de defesa, adolescentes, famílias e defensoria públicas, iniciou em setembro deste ano a produção de um relatório nacional sobre unidades socioeducativas de privação de liberdade em 13 estados do país.
 
A capital maranhense, São Luís, foi a segunda capital visitada pela missão Renade, nos dias 23 e 24 de outubro. Além de encontrar nas unidades visitadas situações desumanas, semelhante às outras unidades, como insalubridade, falta de acesso à educação, lazer, esporte, saúde e má alimentação, causou estarrecimento os casos relatados pelos adolescentes de violência e tortura policial no momento de abordagem e apreensão.
 
Muitos adolescentes contaram que policiais após baterem neles e os humilharem, conseguindo rendê-los e colocá-los no chão, empunharam suas armas e – com os adolescentes já rendidos – atiraram em regiões estratégicas para não levar a óbito, mas com potencial de ferir gravemente, trazendo-lhes sequelas pelo resto de suas vidas muitas vezes. Assim, eles atiram nas mãos, braços, pés, pernas, ombro dos adolescentes (encontramos todas estas situações presentes, através de perfurações nos corpos dos adolescentes). 
 
Percebe-se pela violência narrada, pelos adolescentes, que os agentes policiais estão empregando uma possível forma de justiçamento. Neste sentido, os policiais militares, nos parecem que julgam, sentenciam e aplicam pena ilegal e arbitrária, tudo feito dentre os poucos minutos que duram a abordagem, e sequencialmente conduzem os adolescentes às delegacias, acusando-os de resistência à prisão e as vezes de tentativa de homicídio, que na maioria das vezes não ocorre, mas isto conduz os adolescentes a um outro processo de apuração e julgamento, desta vez lícito mas fundado e sustentado por provas, incluindo-se depoimentos, completamente inidôneos e fraudulentos.
 
Assim, forjam-se versões para se consignar nos processos, cometendo deliberadamente fraude processual e falso testemunho por parte dos policiais. Algo que indubitavelmente deve ser de sobremaneira considerado pelas autoridades ministeriais e judiciais do Estado ao apurar ato infracional, sendo que a automática crença de que a “fala do adolescente é falsa” e que a o “testemunho do policial é credível e tem fé pública” tem que ser cotidianamente refutada diante do inominável cenário maranhense.

Famílias
 
Ao participar de reuniões com famílias de adolescentes que estão no sistema socioeducativo maranhense, constatamos os mesmos relatos de violência, tortura e truculência policial, porém desta vez, com as famílias.
 
Nesta reunião, foi trazido um pouco da experiência de vida relatada pelas mulheres presentes, as quais revelaram que não somente os adolescentes, mas como mães, avós, filhos, filhas e netos, a depender da sua localidade de moradia – e da cor de sua pele, especialmente se residirem em locais marcados pela pobreza, sofrem diariamente com a violência policial.
 
Pessoas que apesar de trabalharem honesta e arduamente também sofrem desta mesma violência policial, demonstrando que a ação truculenta da polícia não se volta – também ilegalmente – apenas aqueles que cometem ilícitos penais, mas está direcionada a toda população de dada localidade, reconhecidamente pobres e onde também ocorre o comércio de drogas ilegal, ainda que por uma parcela bem menor da população do que pressupõe e julga a Polícia Militar maranhense.
 
Por estas mulheres, foram narradas situações que ameaçam e aviltam frontalmente qualquer Estado de Direito, passando pelo testemunhar policiais recebendo dinheiro dos traficantes locais para assegurar que eles possam trabalhar sem serem atrapalhados em seu comércio, invasão aos domicílios das pessoas – sem mandado judicial, abuso de poder, humilhação verbal, violência física e morte.
 
Frisa-se que essencialmente neste último caso, os indícios e provas de homicídios cometidos por policiais militares acabam sumindo junto com a vida de seus filhos, sendo que esta situação leva a algumas destas mães e famílias a fazer a investigação independente e paralelamente ao Estado, já que para a polícia a morte de seus filhos é de autoria desconhecida.
 
As pessoas violadas em seus direitos fundamentais, violentadas em sua integridade moral ou física, e, principalmente, aquelas que tiveram a vida de seus filhos adolescentes e jovens extinta pela ação de policiais militares no Maranhão, não confiam nas instituições estatais maranhenses para relatarem, visando-se conduzir um processo de apuração dos fatos, pois além dos policiais entrarem e saírem de suas casas a hora que bem entenderem (sendo narrado que os policiais estouram o cadeado e arrombam as portas das casas), estes também sabem quem são essas pessoas e seus locais de moradia, sendo que fardados ou encapuzados causam temor completamente fundado aqueles que zelam por suas vidas e de seus familiares.

A ação truculenta e violadora dos policiais militares que atuam, principalmente, nas periferias de São Luís, apontam para a necessidade de controlar seriamente a ação destes agentes no Estado do Maranhão. A Polícia Militar do Estado do Maranhão parece ter fugido de qualquer espécie de controle razoável de suas forças. Nas periferias da cidade, a Constituição, Lei, Estado de Direito, ao que verificamos, não vem tendo sentido algum, sendo simplesmente desconsiderados pelos policiais e não assegurados às pessoas moradoras das comunidades empobrecidas, sejam elas crianças, adolescentes ou adultas.
 
Por fim, exige-se, atuação firme e ágil do Sistema de Justiça e, principalmente, do Ministério Público no levantamento, apuração e responsabilização dos agentes policiais autores de ações criminosas, especialmente a prática de lesão corporal e violência letal cometidas contra adolescentes e suas famílias. Exige-se ainda que o Estado promova ações imediatas que institua uma polícia que zele e contribua para a garantia dos direitos humanos, repudiando veementemente ações violadoras de direitos fundamentais, corrupta, violenta e criminosa. Não se pode continuar a sustentar a negação da condição humana das pessoas pobres, negras e moradoras das periferias do Maranhão, especialmente de sua capital, São Luiz.

domingo, 2 de novembro de 2014

Nota de Repúdio contra a prisão do cacique Elton Suruí






Queremos expressar toda a nossa indignação e repúdio através desta nota perante a prisão do líder indígena Welton Suruí, cacique da Aldeia Itahy, do Povo Aikewar, conhecidos popularmente como Suruí, que foi preso no dia 29.10.2014, pela Polícia Federal na sede da Coordenação Técnica da FUNAI, em Marabá, por ordem do juiz da 2º Vara Federal de Marabá, Dr. Heitor Moura Gomes, o qual alega contra o cacique uma série de crimes, quando nem mesmo os inquéritos da Polícia Federal estão conclusos e devidamente embasados para tal. Para nós, essa prisão é reflexo de um duro e covarde processo de perseguição política, criminalização dos indígenas e das lutas sociais que o Governo Federal, através de seus órgãos repressores, vem promovendo contra todas as lideranças e suas respectivas comunidades indígenas que estão há tempos numa luta permanente para que seus direitos fundamentais sejam garantidos e respeitados, como acesso à saúde específica e de qualidade, conforme determina à própria lei. 

Quem conhece sabe que o jovem líder indígena é um homem trabalhador, pai de três filhos, honesto, lutador, defensor dos direitos do seu povo, além de muito conhecido e respeitado na sua região. É profundamente comprometido com o bem comum e a segurança da sua comunidade. Welton Suruí é uma liderança indígena que sempre primou pelo diálogo entre os órgãos do estado e todas as comunidades atingidas pela implantação dos grandes projetos nessa parte da Amazônia, sobretudo, promovendo um sério debate em torno do direito da consulta prévia, livre e informada dos povos indígenas com relação à implantação arbitrária e desrespeitosa de empreendimentos de mineração no entorno dos territórios indígenas. É verdadeiramente um jovem com espírito coletivo, que está sempre solidário com a luta dos seus parentes em qualquer parte do Brasil. Em outras palavras, queremos dizer que o companheiro Welton Suruí, definitivamente não representa nenhum perigo para a sociedade, conforme alega seus acusadores. 

O fato mesmo é que o companheiro Wélton está sendo perseguido e processado simplesmente por está à frente do seu povo defendendo os direitos da sua comunidade, negados e negligenciados historicamente pelo Estado Brasileiro, onde nem a Justiça Federal, a Polícia Federal e o MPF fazem absolutamente nada para punir o Serviço Especial de Saúde Indígena (SESAI) pelos crimes de negligência, descaso e abandono no que se refere ao atendimento de saúde para a comunidade do jovem líder. Enquanto os desmandos e falcatruas de certos diretores da SESAI continuam, torna-se perceptível que os verdadeiros problemas e reivindicações dos povos indígenas são omitidos enquanto que a criminalização é imposta como uma forma de intimidação.

Há anos que a comunidade Suruí da Aldeia Itahy reivindica junto à SESAI e aos demais órgãos de justiça à construção de um posto de saúde, a contratação de um técnico de enfermagem, o envio de medicamentos, bem como outros serviços de saúde e, só recebem promessas e informações que procedimentos administrativos e jurídicos foram abertos para apurar os casos.

Enquanto isso, quem sofre com a falta desse serviço são os membros da comunidade Suruí, não as autoridades competentes e, muito menos, os servidores e dirigentes da Sesai na região.  

Portanto, ressaltamos que o companheiro Welton definitivamente não é culpado dos supostos crimes que a SESAI alega que ele cometeu, mas sim, vítima de um perverso processo de omissão, negligencia e descaso do Governo Brasileiro para com os direitos dos povos indígenas do Brasil. É claro para todos que a política de atendimento à saúde indígena é precária e continua matando centenas de crianças no Brasil a fora e mais uma vez, e o Estado não toma providência alguma para mudar essa realidade.

Sendo assim, gostaríamos de chamar a atenção da sociedade, afirmando que, a prisão e os processos jurídicos contra o Welton Suruí repetem práticas que acontecem por todo país, que perpassa pela Criminalização dos Povos Indígenas e a Criminalização de todos aqueles que lutam e defendem os direitos do povo. Por isso, REPUDIAMOS novamente a decisão do juiz da 2º Vara Federal de Marabá, o Excelentíssimo Drº Heitor Moura Gomes,  exigimos que a justiça seja feita e, os verdadeiros responsáveis sejam punidos e processados.


Assinam abaixo esta nota seguintes organizações:
Cajueiro - Centro de Formação, Assessoria e Pesquisa em Juventude
Comissão Pastoral da Terra – Regional Norte 2
Comunidades Eclesiais de Base – CEB’s
Conselho Indigenista Missionário – Regional Norte 2
Consulta Popular - Pará
Coordenação do Curso Técnico em Agroecologia Integrado ao Ensino Médio dos Povos Indígenas do Sudeste Paraense – do Campus Rural de Marabá CRMB/IFPA
Diretório Acadêmicos dos Estudantes da UEPA/Marabá – DA/UEPA Marabá
Diretório Central do Estudante da UNIFESSPA – DCE/Unifesspa
Estudantes do Curso Técnico em Agroecologia Integrado ao Ensino Médio dos Povos Indígenas do Sudeste Paraense – do Campus Rural de Marabá CRMB/IFPA
Fórum Regional de Educação do Campo
Levante Popular da Juventude - LPJ
Movimento Debate e Ação
Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra - MST
Movimento Nacional pela Soberania Popular frente à Mineração – MAM
Movimento dos Atingidos por Barragem – MAB
Pastoral da Juventude – Regional Norte 2
Pastorais Sociais - Diocese de Marabá
Sindicato dos Professores da UNIFESSPA – SINDIUNIFESSPA


ASSINAM ESTA NOTA OS POVOS INDÍGENAS:
Kaxarari
Karitiana
Suruí
Oro Waram,
Purubora
Aikanã
Oro Waran Xijein
Guarani Kaiowá
Terena
Kinikinawa
Kayabi
Irantxe
Myky
Ikpeng
Tapirapé
Karajá
Guarani
Kaingang
Yanomami
Apurinã
Munduruku
Tembé
Tapuia
Krahô-Kanela
Xerente
Apinajé
Krahô
Karajá Xambioá
Kampa
Kulina,
Pataxó Hã-Hã-Hãe,
Tupinambá Pataxó
Xakriabá
Kaxixó
Apañjekra Canela
Guajajara e Awa Guajá
Nikini
Gavião
Krikati
Boro

Vida com cheiro de eternidade





Dia de Finados para muitos de nós, é um dia de tristes recordações, pois nos faz relembrar nossos parentes e amigos que já faleceram.

Para você que tem, e que cultiva esse pensamento, gostaria de propor-lhe uma reflexão. Vejamos. Todos nós vamos morrer! Isso não é uma fatalidade. Morrer faz parte da dinâmica da vida. Morremos não porque alguém nos pode matar, mas porque a vida mesma hospeda a morte em sua estrutura.

Todos nascemos, nos desenvolvemos e um dia vamos morrer. Talvez nosso drama maior seja porque “queremos ser a medida de nós mesmos”, queremos falar de eternidade a partir de nossos critérios e valores, e não a partir da vontade e da ação de Deus. Outra coisa: falamos que acreditamos em ressurreição para a vida eterna. Mas quando passamos por essa experiência, em nossa vida ou na vida de uma pessoa que amamos, parece que a nossa fé se esvai. Tudo cai por terra. Entramos numa crise existencial.

O que nos falta, então? Aqui faço uma constatação: precisamos tomar consciência dos processos de lutos que passamos em diversos momentos de nossas vidas e ir fazendo os “ritos de passagem”.
Como se dão os processos de luto em nossas vidas? Dois exemplos: 1) quando fazemos uma opção de vida. Toda opção é excludente. Assim, quando faço opção por uma coisa, preciso deixar outras. E essa renúncia precisa ser consciente. Não poderá ser vista como perda, mas como capacidade que temos para optar por algo que nos parece vital, essencial em nossa vida. 2) quando morre um ente querido. Acima do nosso querer e do nosso poder, está nossa condição mortal. Diante do corpo, sem vida, preciso saber dizer adeus, tanto a nível emocional, quanto intelectual. Se nego, ficarei doente e perderei o encanto pela vida. Aqui é preciso recordar, e afirmar para nós mesmos, que nossa grande lida cotidiana é pela vida. Ou alguém arriscaria afirmar o contrário?

Alguns passos que poderão nos ajudar a nos relacionar com as “perdas”: reconhecer e aceitar a verdade do fato; expressar com equilíbrio nossos sentimentos (assim, reconheço minha condição humana...); elaborar um ritual de despedida. Aqui é importante ressaltar que cada pessoa precisa, a seu ritmo, elaborar esse ritual.

Na minha experiência de vida, diante das experiências de morte, tenho feito o seguinte ritual de despedida:

Ninguém é propriedade de ninguém. Tudo é de Deus. E é Ele quem conduz a história, a minha história. Procuro também, na certeza de não ser um ato egoísta, tomar consciência do projeto de Deus para a minha vida. Não tenho o direito de colocar entraves nessa ação de Deus. Faço ainda um esforço para enxergar todas as pessoas que estão ao meu redor e das que fazem parte da minha vida. O que ainda precisamos realizar juntos nesse mundo? Outro passo importantíssimo que muito me tem ajudado é saber que sou memória daquele ente querido que se foi. Sou eu que agora ajudo a presentificar, pelo amor, a vida daquela pessoa. Através de mim ela continuará viva.

Esses são apenas alguns passos que me tem ajudado, e talvez poderão ajudar a você.

A partir dessa reflexão, resta ainda reafirmar que um grande passo que poderemos dar é nunca ver a morte como um fracasso biológico ou um drama pessoal, nem acentuar o fim da vida. Importa enfatizar o que se abre para o futuro. Assim, a morte não configura uma tragédia, mas a possibilidade nova de uma vida mais densa e realmente plena.

Que a fé na ressurreição nos ajude a viver!

Célio Amaro - padre passionista, membro do Centro de Juventude Cajueiro, do CEBI.

sábado, 1 de novembro de 2014

Denúncia dos crimes no Brasil na Comissão Interamericana de Direitos Humanos


 Aqui disponibilizamos o vídeo do depoimento feito na OEA sobre os crimes cometidos no Brasil e com violação dos Direitos.
 Estas denúncias nos colocam nós e nossas famílias no desejo internacional de denunciar os crimes cometidos no Brasil e que não teve justiça.
Ditadura Militar um crime contra a humanidade. E as dificuldades da justiça.

 
Link com o depoimento na Comissão Internacional - Ditadura Militar

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Denúncias de violência policial e desaparecimento forçado em Goiás serão tema de audiência na OEA dia 31



Será realizada no dia 31 de outubro uma audiência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, nos Estados Unidos. O tema: o desaparecimento forçado de 36 pessoas em Goiás entre os anos de 2000 e 2011 e a violência policial no Estado. A audiência tratará das dezenas de casos de desaparecimentos de pessoas com possível envolvimento de policiais que foram investigados pela Comissão Especial de Defesa da Cidadania, criada por decreto do governo estadual, em 2011.

Acompanham a audiência da OEA, em Washington, o titular do Ofício de Direitos Humanos e Tutela Coletiva e Defensor Público-Chefe da Defensoria Pública da União em Goiás, Adriano Cristian Souza Carneiro; o advogado Allan Hahnemann Ferreira; o secretário-geral de Articulação Institucional da Defensoria Pública da União, Bruno Vinícius Batista Arruda; o assessor parlamentar do deputado Mauro Rubem, Marcus Fidelis Ferreira Castro; e o deputado estadual de Goiás Mauro Rubem de Menezes Jonas, que é presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás.

Serão 55 sessões neste período. Além da que trata de Goiás, apenas outras duas serão sobre o Brasil, sendo uma sobre “o acesso à justiça nos caso de graves violações de direitos humanos no Brasil” e a outra sobre “a situação dos direitos humanos das mulheres em emergências hospitalares no Brasil”.

A audiência será transmitida em tempo real pela internet. Familiares de vítimas, defensores dos direitos humanos e outros interessados poderão assistir no Centro Cultural Cara Vídeo (fone: 62-3225-8095), que fará a exibição simultânea da transmissão pela página da CIDH, no link http://www.oas.org/es/cidh/default.asp. No horário brasileiro de verão, a audiência será entre 12:15 e 13:15 do dia 31 de outubro. As instruções para assistir on-line estão no sitehttp://www.oas.org/es/cidh/prensa/coberturas.asp.

O tema dos desaparecimentos forçados ganhou grande projeção durante os protestos de junho de 2013, devido ao Caso Amarildo. Embora em Goiás haja menos desaparecidos que em outros Estados, a situação local é única e singular pela existência do relatório da Comissão, um documento oficial, e as decisões aplicadas ao caso poderão ser ampliadas para todo o país.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) enviou correspondência, no fim de setembro, endereçada à Associação Cerrado e ao Ofício em Direitos Humanos e Tutela Coletiva da Defensoria Pública da União em Goiás comunicando que atendendo ao pedido apresentado por aquelas entidades em 13 de agosto deste ano, seria realizada, no dia 31 de outubro, sessão temática para tratar das “denúncias de violência policial e desaparecimento forçado no Estado de Goiás no Brasil”.


Conteúdo do pedido

No pedido de audiência, apresentado à CIDH, há a justificativa de que o Estado de Goiás apresenta uma condição única no país: em 2011 foi criada por decreto do governo local a Comissão de Defesa da Cidadania, integrada por agentes das forças policiais, Ministério Público, legislativo e sociedade civil para analisar os 36 casos registrados desde o início da década de 2000. A Comissão produziu um relatório detalhado, com propostas de medidas a serem adotadas para a solução nos casos estudados e assistência às famílias das vítimas bem como para a prevenção de ocorrências futuras.

No entanto, apesar do minucioso relatório entregue ao então Secretário de Segurança Pública de Goiás, nada de efetivo foi feito desde então, passados já três anos. Nenhum caso foi solucionado, nenhum corpo foi localizado e as famílias continuam desassistidas. A apresentação do caso numa sessão temática da CIDH é uma última tentativa para se buscar a efetivação das medidas recomendadas no relatório ao governo local, oferecendo assistência às famílias desamparadas e buscando o esclarecimento dos crimes.

A apresentação do tema terá relevância para todo o país, com as decisões daí resultantes podendo ter aplicação nacional. É destacado no texto que a gravidade da situação de violações de direitos no Estado de Goiás é tamanha que está em tramitação no Superior Tribunal de Justiça (STJ) o Incidente de Deslocamento de Competência nº 3 (IDC-3), ajuizado pelo procurador-geral da República (PGR), para a federalização de investigações, processamento e julgamento de crimes ocorridos no Estado.

A ação foi ajuizada em maio de 2013, após um pedido formulado ao PGR pelo Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH). O pedido foi formalizado depois que o CDDPH fez uma sessão extraordinária em Goiânia, em setembro de 2012, em resposta à apresentação do relatório Insegurança Pública em Goiás: Anacronismo e Caos, pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Goiás, deputado Mauro Rubem, junto ao Movimento Nacional de Direitos Humanos, em sessão realizada em 21 de agosto de 2012. O relatório traz uma série de crimes envolvendo a suspeita de participação de agentes policiais e a incapacidade das autoridades locais em punir os responsáveis e coibir novas ocorrências. Constam do relatório casos de desaparecimentos forçados, execuções sumárias e o emblemático caso de violência no despejo de milhares de pessoas no episódio que teve repercussão mundial, conhecido como Parque Oeste ou Sonho Real. Aos casos listados no relatório, o CDDPH acrescentou dezenas de execuções de moradores de rua em Goiânia, iniciadas em agosto de 2012.

A título de exemplo dos casos investigados pela Comissão de Defesa da Cidadania, foi enviada documentação sobre os desaparecimentos do soldado PM Rones Dias; do garoto Murilo Soares Rodrigues e de Marcos Lourenço de Carvalho.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

''Quando eu falo de terra, teto e trabalho, dizem que o papa é comunista''.



Entre os dias 27 e 29 de outubro, ocorreu o Encontro Mundial dos Movimentos Populares, promovido pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz, em colaboração com a Pontifícia Academia das Ciências Sociais. Nesta terça-feira, o Papa Francisco proferiu o seu discurso aos participantes do encontro.

Discurso do Santo Padre Francisco aos participantes do Encontro Mundial de Movimentos Populares

Bom dia de novo. Eu estou contente por estar no meio de vocês. Aliás, vou lhes fazer uma confidência: é a primeira vez que eu desço aqui [na Aula Velha do Sínodo], nunca tinha vindo.
Como lhes dizia, tenho muita alegria e lhes dou calorosas boas-vindas. Obrigado por terem aceitado este convite para debater tantos graves problemas sociais que afligem o mundo hoje, vocês, que sofrem em carne própria a desigualdade e a exclusão. Obrigado ao cardeal Turkson pela sua acolhida. Obrigado, Eminência, pelo seu trabalho e pelas suas palavras.
Este encontro de Movimentos Populares é um sinal, é um grande sinal: vocês vieram colocar na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada. Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela!
Não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos. Também não estão esperando de braços cruzados a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de maneira que vão em uma direção ou de anestesiar ou de domesticar. Isso é meio perigoso. Vocês sentem que os pobres já não esperam e querem ser protagonistas, se organizam, estudam, trabalham, reivindicam e, sobretudo, praticam essa solidariedade tão especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres, e que a nossa civilização parece ter esquecido ou, ao menos, tem muita vontade de esquecer.
Solidariedade é uma palavra que nem sempre cai bem. Eu diria que, algumas vezes, a transformamos em um palavrão, não se pode dizer; mas é uma palavra muito mais do que alguns atos de generosidade esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade de vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. Também é lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de moradia, a negação dos direitos sociais e trabalhistas. É enfrentar os destrutivos efeitos do Império do dinheiro: os deslocamentos forçados, as migrações dolorosas, o tráfico de pessoas, a droga, a guerra, a violência e todas essas realidades que muitos de vocês sofrem e que todos somos chamados a transformar. A solidariedade, entendida em seu sentido mais profundo, é um modo de fazer história, e é isso que os movimentos populares fazem.
Este encontro nosso não responde a uma ideologia. Vocês não trabalham com ideias, trabalham com realidades como as que eu mencionei e muitas outras que me contaram... têm os pés no barro, e as mãos, na carne. Têm cheiro de bairro, de povo, de luta! Queremos que se ouça a sua voz, que, em geral, se escuta pouco. Talvez porque incomoda, talvez porque o seu grito incomoda, talvez porque se tem medo da mudança que vocês reivindicam, mas, sem a sua presença, sem ir realmente às periferias, as boas propostas e projetos que frequentemente ouvimos nas conferências internacionais ficam no reino da ideia, é meu projeto.
Não é possível abordar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que unicamente tranquilizem e convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos. Como é triste ver quando, por trás de supostas obras altruístas, se reduz o outro à passividade, se nega ele ou, pior, se escondem negócios e ambições pessoais: Jesus lhes chamaria de hipócritas. Como é lindo, ao contrário, quando vemos em movimento os Povos, sobretudo os seus membros mais pobres e os jovens. Então, sim, se sente o vento da promessa que aviva a esperança de um mundo melhor. Que esse vento se transforme em vendaval de esperança. Esse é o meu desejo.
Este encontro nosso responde a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais longe da maioria: terrateto e trabalho. É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é comunista.

Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a doutrina social da Igreja. Vou me deter um pouco sobre cada um deles, porque vocês os escolheram como tema para este encontro.

Terra. No início da criação, Deus criou o homem, guardião da sua obra, encarregando-o de cultivá-la e protegê-la. Vejo que aqui há dezenas de camponeses e camponesas, e quero felicitá-los por cuidar da terra, por cultivá-la e por fazer isso em comunidade. Preocupa-me a erradicação de tantos irmãos camponeses que sobrem o desenraizamento, e não por guerras ou desastres naturais. A apropriação de terras, o desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal. Essa dolorosa separação, que não é só física, mas também existencial e espiritual, porque há uma relação com a terra que está pondo a comunidade rural e seu modo de vida peculiar em notória decadência e até em risco de extinção.

A outra dimensão do processo já global é a fome. Quando a especulação financeira condiciona o preço dos alimentos, tratando-os como qualquer mercadoria, milhões de pessoas sofrem e morrem de fome. Por outro lado, descartam-se toneladas de alimentos. Isso é um verdadeiro escândalo. A fome é criminosa, a alimentação é um direito inalienável. Eu sei que alguns de vocês reivindicam uma reforma agrária para solucionar alguns desses problemas, e deixem-me dizer-lhes que, em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, "a reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral" (CDSI, 300).

Não sou só eu que digo isso. Está no Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Por favor, continuem com a luta pela dignidade da família rural, pela água, pela vida e para que todos possam se beneficiar dos frutos da terra.

Em segundo lugar, teto. Eu disse e repito: uma casa para cada família. Nunca se deve esquecer de que Jesus nasceu em um estábulo porque na hospedagem não havia lugar, que a sua família teve que abandonar o seu lar e fugir para o Egito, perseguida por Herodes. Hoje há tantas famílias sem moradia, ou porque nunca a tiveram, ou porque a perderam por diferentes motivos. Família e moradia andam de mãos dadas. Mas, além disso, um teto, para que seja um lar, tem uma dimensão comunitária: e é o bairro... e é precisamente no bairro onde se começa a construir essa grande família da humanidade, a partir do mais imediato, a partir da convivência com os vizinhos.
Hoje, vivemos em imensas cidades que se mostram modernas, orgulhosas e até vaidosas. Cidades que oferecem inúmeros prazeres e bem-estar para uma minoria feliz... mas se nega o teto a milhares de vizinhos e irmãos nossos, inclusive crianças, e eles são chamados, elegantemente, de "pessoas em situação de rua". É curioso como no mundo das injustiças abundam os eufemismos. Não se dizem as palavras com a contundência, e busca-se a realidade no eufemismo. Uma pessoa, uma pessoa segregada, uma pessoa apartada, uma pessoa que está sofrendo a miséria, a fome, é uma pessoa em situação de rua: palavra elegante, não? Vocês, busquem sempre, talvez me equivoque em algum, mas, em geral, por trás de um eufemismo há um crime.
Vivemos em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários... mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias. Como dói escutar que os assentamentos pobres são marginalizados ou, pior, quer-se erradicá-los! São cruéis as imagens dos despejos forçados, dos tratores derrubando casinhas, imagens tão parecidas às da guerra. E isso se vê hoje.
Vocês sabem que, nos bairros populares, onde muitos de vocês vivem, subsistem valores já esquecidos nos centros enriquecidos. Os assentamentos estão abençoados com uma rica cultura popular: ali, o espaço público não é um mero lugar de trânsito, mas uma extensão do próprio lar, um lugar para gerar vínculos com os vizinhos. Como são belas as cidades que superam a desconfiança doentia e integram os diferentes e que fazem dessa integração um novo fator de desenvolvimento. Como são lindas as cidades que, ainda no seu desenho arquitetônico, estão cheias de espaços que conectam, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro.
Por isso, nem erradicação, nem marginalização: é preciso seguir na linha da integração urbana. Essa palavra deve substituir completamente a palavra erradicação, desde já, mas também esses projetos que pretendem envernizar os bairros populares, ajeitar as periferias e maquiar as feridas sociais, em vez de curá-las, promovendo uma integração autêntica e respeitosa. É uma espécie de direito arquitetura de maquiagem, não? E vai por esse lado. Sigamos trabalhando para que todas as famílias tenham uma moradia e para que todos os bairros tenham uma infraestrutura adequada (esgoto, luz, gás, asfalto e continuo: escolas, hospitais ou salas de primeiros socorros, clube de esportes e todas as coisas que criam vínculos e que unem, acesso à saúde – já disse – e à educação e à segurança.

Terceiro, trabalho. Não existe pior pobreza material – urge-me enfatizar isto –, não existe pior pobreza material do que a que não permite ganhar o pão e priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos trabalhistas não são inevitáveis, são o resultado de uma prévia opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem, se o lucro é econômico, sobre a humanidade ou sobre o homem, são efeitos de uma cultura do descarte que considera o ser humano em si mesmo como um bem de consumo, que pode ser usado e depois jogado fora.

Hoje, ao fenômeno da exploração e da opressão, soma-se uma nova dimensão, um matiz gráfico e duro da injustiça social; os que não podem ser integrados, os excluídos são resíduos, "sobrantes". Essa é a cultura do descarte, e sobre isso gostaria de ampliar algo que não tenho por escrito, mas que lembrei agora. Isso acontece quando, no centro de um sistema econômico, está o deus dinheiro e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de todo sistema social ou econômico, tem que estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o denominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e vem o deus dinheiro, acontecesse essa inversão de valores.
E, para explicitar, lembro um ensinamento de cerca do ano 1200. Um rabino judeu explicava aos seus fiéis a história da torre de Babel e, então, contava como, para construir essa torre de Babel, era preciso fazer muito esforço, era preciso fazer os tijolos; para fazer os tijolos, era preciso fazer o barro e trazer a palha, e amassar o barro com a palha; depois, cortá-lo em quadrados; depois, secá-lo; depois, cozinhá-lo; e, quando já estavam cozidos e frios, subi-los, para ir construindo a torre.

Se um tijolo caía – o tijolo era muito caro –, com todo esse trabalho, se um tijolo caía, era quase uma tragédia nacional. Aquele que o deixara cair era castigado ou suspenso, ou não sei o que lhe faziam. E se um operário caía não acontecia nada. Isso é quando a pessoa está a serviço do deus dinheiro, e isso era contado por um rabino judeu no ano 1200, explicando essas coisas horríveis.

E, a respeito do descarte, também temos que estar um pouco atentos ao que acontece na nossa sociedade. Estou repetindo coisas que disse e que estão na Evangelii gaudium. Hoje em dia, descartam-se as crianças porque a taxa de natalidade em muitos países da terra diminuiu, ou se descartam as crianças porque não se ter alimentação, ou porque são mortas antes de nascerem, descarte de crianças.

Descartam-se os idosos, porque, bom, não servem, não produzem. Nem crianças nem idosos produzem. Então, sistemas mais ou menos sofisticados vão os abandonando lentamente. E agora como é necessário, nesta crise, recuperar um certo equilíbrio. Estamos assistindo a um terceiro descarte muito doloroso, o descarte dos jovens. Milhões de jovens. Eu não quero dizer o dado, porque não o sei exatamente, e a que eu li parece um pouco exagerado, mas milhões de jovens descartados do trabalho, desempregados.

Nos países da Europa – e estas são estatísticas muito claras –, aqui na Itália, passou um pouquinho dos 40% de jovens desempregados. Sabem o que significa 40% de jovens? Toda uma geração, anular toda uma geração para manter o equilíbrio. Em outro país da Europa, está passando os 50% e, nesse mesmo país dos 50%, no sul são 60%. São dados claros, ou seja, do descarte. Descarte de crianças, descarte de idosos, que não produzem, e temos que sacrificar uma geração de jovens, descarte de jovens, para poder manter e reequilibrar um sistema em cujo centro está o deus dinheiro, e não a pessoa humana.

Apesar disso, a essa cultura de descarte, a essa cultura dos sobrantes, muitos de vocês, trabalhadores excluídos, sobrantes para esse sistema, foram inventando o seu próprio trabalho com tudo aquilo que parecia não poder dar mais de si mesmo... mas vocês, com a sua artesanalidade que Deus lhes deu, com a sua busca, com a sua solidariedade, com o seu trabalho comunitário, com a sua economia popular, conseguiram e estão conseguindo... E, deixem-me dizer isto, isso, além de trabalho, é poesia. Obrigado.

Desde já, todo trabalhador, esteja ou não no sistema formal do trabalho assalariado, tem direito a uma remuneração digna, à segurança social e a uma cobertura de aposentadoria. Aqui há papeleiros, recicladores, vendedores ambulantes, costureiros, artesãos, pescadores, camponeses, construtores, mineiros, operários de empresas recuperadas, todos os tipos de cooperativados e trabalhadores de ofícios populares que estão excluídos dos direitos trabalhistas, aos quais é negada a possibilidade de se sindicalizar, que não têm uma renda adequada e estável. Hoje, quero unir a minha voz à sua e acompanhá-los na sua luta.
Neste encontro, também falaram da Paz e da Ecologia. É lógico: não pode haver terra, não pode haver teto, não pode haver trabalho se não temos paz e se destruímos o planeta. São temas tão importantes que os Povos e suas organizações de base não podem deixar de debater. Não podem deixar só nas mãos dos dirigentes políticos. Todos os povos da terra, todos os homens e mulheres de boa vontade têm que levantar a voz em defesa desses dois dons preciosos: a paz e a natureza. A irmã mãe Terra, como chamava São Francisco de Assis.

Há pouco tempo, eu disse, e repito, que estamos vivendo a terceira guerra mundial, mas em cotas. Há sistemas econômicos que, para sobreviver, devem fazer a guerra. Então, fabricam e vendem armas e, com isso, os balanços das economia que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro, obviamente, ficam saneados. E não se pensa nas crianças famintas nos campos de refugiados, não se pensa nos deslocamentos forçados, não se pensa nas moradias destruídas, não se pensa, desde já, em tantas vidas ceifadas. Quanto sofrimento, quanta destruição, quanta dor. Hoje, queridos irmãos e irmãs, se levanta em todas as partes da terra, em todos os povos, em cada coração e nos movimentos populares, o grito da paz: nunca mais a guerra!

Um sistema econômico centrado no deus dinheiro também precisa saquear a natureza, saquear a natureza, para sustentar o ritmo frenético de consumo que lhe é inerente. As mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, o desmatamento já estão mostrando seus efeitos devastadores nos grandes cataclismos que vemos, e os que mais sofrem são vocês, os humildes, os que vivem perto das costas em moradias precárias, ou que são tão vulneráveis economicamente que, diante de um desastre natural, perdem tudo.
Irmãos e irmãs, a criação não é uma propriedade da qual podemos dispor ao nosso gosto; muito menos é uma propriedade só de alguns, de poucos: a criação é um dom, é um presente, um dom maravilhoso que Deus nos deu para que cuidemos dele e o utilizemos em benefício de todos, sempre com respeito e gratidão. Talvez vocês saibam que eu estou preparando uma encíclica sobre Ecologia: tenham a certeza de que as suas preocupações estarão presentes nela. Agradeço-lhes, aproveito para lhes agradecer, pela carta que os integrantes da Via Campesina, da Federação dos Papeleiros e tantos outros irmãos me fizeram chegar sobre o assunto.
Falamos da terra, de trabalho, de teto... falamos de trabalhar pela paz e cuidar da natureza... Mas por que, em vez disso, nos acostumamos a ver como se destrói o trabalho digno, se despejam tantas famílias, se expulsam os camponeses, se faz a guerra e se abusa da natureza? Porque, nesse sistema, tirou-se o homem, a pessoa humana, do centro, e substituiu-se por outra coisa. Porque se presta um culto idólatra ao dinheiro. Porque se globalizou a indiferença! Se globalizou a indiferença. O que me importa o que acontece com os outros, desde que eu defenda o que é meu? Porque o mundo se esqueceu de Deus, que é Pai; tornou-se um órfão, porque deixou Deus de lado.
Alguns de vocês expressaram: esse sistema não se aguenta mais. Temos que mudá-lo, temos que voltar a levar a dignidade humana para o centro, e que, sobre esse pilar, se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos. É preciso fazer isso com coragem, mas também com inteligência. Com tenacidade, mas sem fanatismo. Com paixão, mas sem violência. E entre todos, enfrentando os conflitos sem ficar presos neles, buscando sempre resolver as tensões para alcançar um plano superior de unidade, de paz e de justiça.
Os cristãos têm algo muito lindo, um guia de ação, um programa, poderíamos dizer, revolucionário. Recomendo-lhes vivamente que o leiam, que leiam as Bem-aventuranças que estão no capítulo 5 de São Mateus e 6 de São Lucas(cfr. Mt 5, 3; e Lc 6, 20) e que leiam a passagem de Mateus 25. Eu disse isso aos jovens no Rio de Janeiro. Com essas duas coisas, vocês têm o programa de ação.
Sei que entre vocês há pessoas de distintas religiões, ofícios, ideias, culturas, países, continentes. Hoje, estão praticando aqui a cultura do encontro, tão diferente da xenofobia, da discriminação e da intolerância que vemos tantas vezes. Entre os excluídos, dá-se esse encontro de culturas em que o conjunto não anula a particularidade, o conjunto não anula a particularidade. Por isso eu gosto da imagem do poliedro, uma figura geométrica com muitas caras distintas. O poliedro reflete a confluência de todas as particularidades que, nele, conservam a originalidade. Nada se dissolve, nada se destrói, nada se domina, tudo se integra, tudo se integra. Hoje, vocês também estão buscando essa síntese entre o local e o global. Sei que trabalham dia após dia no próximo, no concreto, no seu território, seu bairro, seu lugar de trabalho: convido-os também a continuarem buscando essa perspectiva mais ampla, que nossos sonhos voem alto e abranjam tudo.
Assim, parece-me importante essa proposta que alguns me compartilharam de que esses movimentos, essas experiências de solidariedade que crescem a partir de baixo, a partir do subsolo do planeta, confluam, estejam mais coordenadas, vão se encontrando, como vocês fizeram nestes dias. Atenção, nunca é bom espartilhar o movimento em estruturas rígidas. Por isso, eu disse encontra-se. Também não é bom tentar absorvê-lo, dirigi-lo ou dominá-lo; movimentos livres têm a sua dinâmica própria, mas, sim, devemos tentar caminhar juntos. Estamos neste salão, que é o salão do Sínodo velho. Agora há um novo. E sínodo significa precisamente "caminhar juntos": que esse seja um símbolo do processo que vocês começaram e estão levando adiante.
Os movimentos populares expressam a necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias, tantas vezes sequestradas por inúmeros fatores. É impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação protagônica das grandes maiorias, e esse protagonismo excede os procedimentos lógicos da democracia formal. A perspectiva de um mundo da paz e da justiça duradouras nos exige superar o assistencialismo paternalista, nos exige criar novas formas de participação que inclua os movimentos populares e anime as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com essa torrente de energia moral que surge da incorporação dos excluídos na construção do destino comum. E isso com ânimo construtivo, sem ressentimento, com amor.
Eu os acompanho de coração nesse caminho. Digamos juntos com o coração: nenhuma família sem moradia, nenhum agricultor sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá.
Queridos irmãos e irmãs: sigam com a sua luta, fazem bem a todos nós. É como uma bênção de humanidade. Deixo-lhes de recordação, de presente e com a minha bênção, alguns rosários que foram fabricados por artesãos, papeleiros e trabalhadores da economia popular da América Latina.
E nesse acompanhamento eu rezo por vocês, rezo com vocês e quero pedir ao nosso Pai Deus que os acompanhe e os abençoe, que os encha com o seu amor e os acompanhe no caminho, dando-lhes abundantemente essa força que nos mantém de pé: essa força é a esperança, a esperança que não desilude. Obrigado.