quarta-feira, 29 de outubro de 2014

''Quando eu falo de terra, teto e trabalho, dizem que o papa é comunista''.



Entre os dias 27 e 29 de outubro, ocorreu o Encontro Mundial dos Movimentos Populares, promovido pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz, em colaboração com a Pontifícia Academia das Ciências Sociais. Nesta terça-feira, o Papa Francisco proferiu o seu discurso aos participantes do encontro.

Discurso do Santo Padre Francisco aos participantes do Encontro Mundial de Movimentos Populares

Bom dia de novo. Eu estou contente por estar no meio de vocês. Aliás, vou lhes fazer uma confidência: é a primeira vez que eu desço aqui [na Aula Velha do Sínodo], nunca tinha vindo.
Como lhes dizia, tenho muita alegria e lhes dou calorosas boas-vindas. Obrigado por terem aceitado este convite para debater tantos graves problemas sociais que afligem o mundo hoje, vocês, que sofrem em carne própria a desigualdade e a exclusão. Obrigado ao cardeal Turkson pela sua acolhida. Obrigado, Eminência, pelo seu trabalho e pelas suas palavras.
Este encontro de Movimentos Populares é um sinal, é um grande sinal: vocês vieram colocar na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada. Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela!
Não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos. Também não estão esperando de braços cruzados a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de maneira que vão em uma direção ou de anestesiar ou de domesticar. Isso é meio perigoso. Vocês sentem que os pobres já não esperam e querem ser protagonistas, se organizam, estudam, trabalham, reivindicam e, sobretudo, praticam essa solidariedade tão especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres, e que a nossa civilização parece ter esquecido ou, ao menos, tem muita vontade de esquecer.
Solidariedade é uma palavra que nem sempre cai bem. Eu diria que, algumas vezes, a transformamos em um palavrão, não se pode dizer; mas é uma palavra muito mais do que alguns atos de generosidade esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade de vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. Também é lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de moradia, a negação dos direitos sociais e trabalhistas. É enfrentar os destrutivos efeitos do Império do dinheiro: os deslocamentos forçados, as migrações dolorosas, o tráfico de pessoas, a droga, a guerra, a violência e todas essas realidades que muitos de vocês sofrem e que todos somos chamados a transformar. A solidariedade, entendida em seu sentido mais profundo, é um modo de fazer história, e é isso que os movimentos populares fazem.
Este encontro nosso não responde a uma ideologia. Vocês não trabalham com ideias, trabalham com realidades como as que eu mencionei e muitas outras que me contaram... têm os pés no barro, e as mãos, na carne. Têm cheiro de bairro, de povo, de luta! Queremos que se ouça a sua voz, que, em geral, se escuta pouco. Talvez porque incomoda, talvez porque o seu grito incomoda, talvez porque se tem medo da mudança que vocês reivindicam, mas, sem a sua presença, sem ir realmente às periferias, as boas propostas e projetos que frequentemente ouvimos nas conferências internacionais ficam no reino da ideia, é meu projeto.
Não é possível abordar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que unicamente tranquilizem e convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos. Como é triste ver quando, por trás de supostas obras altruístas, se reduz o outro à passividade, se nega ele ou, pior, se escondem negócios e ambições pessoais: Jesus lhes chamaria de hipócritas. Como é lindo, ao contrário, quando vemos em movimento os Povos, sobretudo os seus membros mais pobres e os jovens. Então, sim, se sente o vento da promessa que aviva a esperança de um mundo melhor. Que esse vento se transforme em vendaval de esperança. Esse é o meu desejo.
Este encontro nosso responde a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais longe da maioria: terrateto e trabalho. É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é comunista.

Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a doutrina social da Igreja. Vou me deter um pouco sobre cada um deles, porque vocês os escolheram como tema para este encontro.

Terra. No início da criação, Deus criou o homem, guardião da sua obra, encarregando-o de cultivá-la e protegê-la. Vejo que aqui há dezenas de camponeses e camponesas, e quero felicitá-los por cuidar da terra, por cultivá-la e por fazer isso em comunidade. Preocupa-me a erradicação de tantos irmãos camponeses que sobrem o desenraizamento, e não por guerras ou desastres naturais. A apropriação de terras, o desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal. Essa dolorosa separação, que não é só física, mas também existencial e espiritual, porque há uma relação com a terra que está pondo a comunidade rural e seu modo de vida peculiar em notória decadência e até em risco de extinção.

A outra dimensão do processo já global é a fome. Quando a especulação financeira condiciona o preço dos alimentos, tratando-os como qualquer mercadoria, milhões de pessoas sofrem e morrem de fome. Por outro lado, descartam-se toneladas de alimentos. Isso é um verdadeiro escândalo. A fome é criminosa, a alimentação é um direito inalienável. Eu sei que alguns de vocês reivindicam uma reforma agrária para solucionar alguns desses problemas, e deixem-me dizer-lhes que, em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, "a reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral" (CDSI, 300).

Não sou só eu que digo isso. Está no Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Por favor, continuem com a luta pela dignidade da família rural, pela água, pela vida e para que todos possam se beneficiar dos frutos da terra.

Em segundo lugar, teto. Eu disse e repito: uma casa para cada família. Nunca se deve esquecer de que Jesus nasceu em um estábulo porque na hospedagem não havia lugar, que a sua família teve que abandonar o seu lar e fugir para o Egito, perseguida por Herodes. Hoje há tantas famílias sem moradia, ou porque nunca a tiveram, ou porque a perderam por diferentes motivos. Família e moradia andam de mãos dadas. Mas, além disso, um teto, para que seja um lar, tem uma dimensão comunitária: e é o bairro... e é precisamente no bairro onde se começa a construir essa grande família da humanidade, a partir do mais imediato, a partir da convivência com os vizinhos.
Hoje, vivemos em imensas cidades que se mostram modernas, orgulhosas e até vaidosas. Cidades que oferecem inúmeros prazeres e bem-estar para uma minoria feliz... mas se nega o teto a milhares de vizinhos e irmãos nossos, inclusive crianças, e eles são chamados, elegantemente, de "pessoas em situação de rua". É curioso como no mundo das injustiças abundam os eufemismos. Não se dizem as palavras com a contundência, e busca-se a realidade no eufemismo. Uma pessoa, uma pessoa segregada, uma pessoa apartada, uma pessoa que está sofrendo a miséria, a fome, é uma pessoa em situação de rua: palavra elegante, não? Vocês, busquem sempre, talvez me equivoque em algum, mas, em geral, por trás de um eufemismo há um crime.
Vivemos em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários... mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias. Como dói escutar que os assentamentos pobres são marginalizados ou, pior, quer-se erradicá-los! São cruéis as imagens dos despejos forçados, dos tratores derrubando casinhas, imagens tão parecidas às da guerra. E isso se vê hoje.
Vocês sabem que, nos bairros populares, onde muitos de vocês vivem, subsistem valores já esquecidos nos centros enriquecidos. Os assentamentos estão abençoados com uma rica cultura popular: ali, o espaço público não é um mero lugar de trânsito, mas uma extensão do próprio lar, um lugar para gerar vínculos com os vizinhos. Como são belas as cidades que superam a desconfiança doentia e integram os diferentes e que fazem dessa integração um novo fator de desenvolvimento. Como são lindas as cidades que, ainda no seu desenho arquitetônico, estão cheias de espaços que conectam, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro.
Por isso, nem erradicação, nem marginalização: é preciso seguir na linha da integração urbana. Essa palavra deve substituir completamente a palavra erradicação, desde já, mas também esses projetos que pretendem envernizar os bairros populares, ajeitar as periferias e maquiar as feridas sociais, em vez de curá-las, promovendo uma integração autêntica e respeitosa. É uma espécie de direito arquitetura de maquiagem, não? E vai por esse lado. Sigamos trabalhando para que todas as famílias tenham uma moradia e para que todos os bairros tenham uma infraestrutura adequada (esgoto, luz, gás, asfalto e continuo: escolas, hospitais ou salas de primeiros socorros, clube de esportes e todas as coisas que criam vínculos e que unem, acesso à saúde – já disse – e à educação e à segurança.

Terceiro, trabalho. Não existe pior pobreza material – urge-me enfatizar isto –, não existe pior pobreza material do que a que não permite ganhar o pão e priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos trabalhistas não são inevitáveis, são o resultado de uma prévia opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem, se o lucro é econômico, sobre a humanidade ou sobre o homem, são efeitos de uma cultura do descarte que considera o ser humano em si mesmo como um bem de consumo, que pode ser usado e depois jogado fora.

Hoje, ao fenômeno da exploração e da opressão, soma-se uma nova dimensão, um matiz gráfico e duro da injustiça social; os que não podem ser integrados, os excluídos são resíduos, "sobrantes". Essa é a cultura do descarte, e sobre isso gostaria de ampliar algo que não tenho por escrito, mas que lembrei agora. Isso acontece quando, no centro de um sistema econômico, está o deus dinheiro e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de todo sistema social ou econômico, tem que estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o denominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e vem o deus dinheiro, acontecesse essa inversão de valores.
E, para explicitar, lembro um ensinamento de cerca do ano 1200. Um rabino judeu explicava aos seus fiéis a história da torre de Babel e, então, contava como, para construir essa torre de Babel, era preciso fazer muito esforço, era preciso fazer os tijolos; para fazer os tijolos, era preciso fazer o barro e trazer a palha, e amassar o barro com a palha; depois, cortá-lo em quadrados; depois, secá-lo; depois, cozinhá-lo; e, quando já estavam cozidos e frios, subi-los, para ir construindo a torre.

Se um tijolo caía – o tijolo era muito caro –, com todo esse trabalho, se um tijolo caía, era quase uma tragédia nacional. Aquele que o deixara cair era castigado ou suspenso, ou não sei o que lhe faziam. E se um operário caía não acontecia nada. Isso é quando a pessoa está a serviço do deus dinheiro, e isso era contado por um rabino judeu no ano 1200, explicando essas coisas horríveis.

E, a respeito do descarte, também temos que estar um pouco atentos ao que acontece na nossa sociedade. Estou repetindo coisas que disse e que estão na Evangelii gaudium. Hoje em dia, descartam-se as crianças porque a taxa de natalidade em muitos países da terra diminuiu, ou se descartam as crianças porque não se ter alimentação, ou porque são mortas antes de nascerem, descarte de crianças.

Descartam-se os idosos, porque, bom, não servem, não produzem. Nem crianças nem idosos produzem. Então, sistemas mais ou menos sofisticados vão os abandonando lentamente. E agora como é necessário, nesta crise, recuperar um certo equilíbrio. Estamos assistindo a um terceiro descarte muito doloroso, o descarte dos jovens. Milhões de jovens. Eu não quero dizer o dado, porque não o sei exatamente, e a que eu li parece um pouco exagerado, mas milhões de jovens descartados do trabalho, desempregados.

Nos países da Europa – e estas são estatísticas muito claras –, aqui na Itália, passou um pouquinho dos 40% de jovens desempregados. Sabem o que significa 40% de jovens? Toda uma geração, anular toda uma geração para manter o equilíbrio. Em outro país da Europa, está passando os 50% e, nesse mesmo país dos 50%, no sul são 60%. São dados claros, ou seja, do descarte. Descarte de crianças, descarte de idosos, que não produzem, e temos que sacrificar uma geração de jovens, descarte de jovens, para poder manter e reequilibrar um sistema em cujo centro está o deus dinheiro, e não a pessoa humana.

Apesar disso, a essa cultura de descarte, a essa cultura dos sobrantes, muitos de vocês, trabalhadores excluídos, sobrantes para esse sistema, foram inventando o seu próprio trabalho com tudo aquilo que parecia não poder dar mais de si mesmo... mas vocês, com a sua artesanalidade que Deus lhes deu, com a sua busca, com a sua solidariedade, com o seu trabalho comunitário, com a sua economia popular, conseguiram e estão conseguindo... E, deixem-me dizer isto, isso, além de trabalho, é poesia. Obrigado.

Desde já, todo trabalhador, esteja ou não no sistema formal do trabalho assalariado, tem direito a uma remuneração digna, à segurança social e a uma cobertura de aposentadoria. Aqui há papeleiros, recicladores, vendedores ambulantes, costureiros, artesãos, pescadores, camponeses, construtores, mineiros, operários de empresas recuperadas, todos os tipos de cooperativados e trabalhadores de ofícios populares que estão excluídos dos direitos trabalhistas, aos quais é negada a possibilidade de se sindicalizar, que não têm uma renda adequada e estável. Hoje, quero unir a minha voz à sua e acompanhá-los na sua luta.
Neste encontro, também falaram da Paz e da Ecologia. É lógico: não pode haver terra, não pode haver teto, não pode haver trabalho se não temos paz e se destruímos o planeta. São temas tão importantes que os Povos e suas organizações de base não podem deixar de debater. Não podem deixar só nas mãos dos dirigentes políticos. Todos os povos da terra, todos os homens e mulheres de boa vontade têm que levantar a voz em defesa desses dois dons preciosos: a paz e a natureza. A irmã mãe Terra, como chamava São Francisco de Assis.

Há pouco tempo, eu disse, e repito, que estamos vivendo a terceira guerra mundial, mas em cotas. Há sistemas econômicos que, para sobreviver, devem fazer a guerra. Então, fabricam e vendem armas e, com isso, os balanços das economia que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro, obviamente, ficam saneados. E não se pensa nas crianças famintas nos campos de refugiados, não se pensa nos deslocamentos forçados, não se pensa nas moradias destruídas, não se pensa, desde já, em tantas vidas ceifadas. Quanto sofrimento, quanta destruição, quanta dor. Hoje, queridos irmãos e irmãs, se levanta em todas as partes da terra, em todos os povos, em cada coração e nos movimentos populares, o grito da paz: nunca mais a guerra!

Um sistema econômico centrado no deus dinheiro também precisa saquear a natureza, saquear a natureza, para sustentar o ritmo frenético de consumo que lhe é inerente. As mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, o desmatamento já estão mostrando seus efeitos devastadores nos grandes cataclismos que vemos, e os que mais sofrem são vocês, os humildes, os que vivem perto das costas em moradias precárias, ou que são tão vulneráveis economicamente que, diante de um desastre natural, perdem tudo.
Irmãos e irmãs, a criação não é uma propriedade da qual podemos dispor ao nosso gosto; muito menos é uma propriedade só de alguns, de poucos: a criação é um dom, é um presente, um dom maravilhoso que Deus nos deu para que cuidemos dele e o utilizemos em benefício de todos, sempre com respeito e gratidão. Talvez vocês saibam que eu estou preparando uma encíclica sobre Ecologia: tenham a certeza de que as suas preocupações estarão presentes nela. Agradeço-lhes, aproveito para lhes agradecer, pela carta que os integrantes da Via Campesina, da Federação dos Papeleiros e tantos outros irmãos me fizeram chegar sobre o assunto.
Falamos da terra, de trabalho, de teto... falamos de trabalhar pela paz e cuidar da natureza... Mas por que, em vez disso, nos acostumamos a ver como se destrói o trabalho digno, se despejam tantas famílias, se expulsam os camponeses, se faz a guerra e se abusa da natureza? Porque, nesse sistema, tirou-se o homem, a pessoa humana, do centro, e substituiu-se por outra coisa. Porque se presta um culto idólatra ao dinheiro. Porque se globalizou a indiferença! Se globalizou a indiferença. O que me importa o que acontece com os outros, desde que eu defenda o que é meu? Porque o mundo se esqueceu de Deus, que é Pai; tornou-se um órfão, porque deixou Deus de lado.
Alguns de vocês expressaram: esse sistema não se aguenta mais. Temos que mudá-lo, temos que voltar a levar a dignidade humana para o centro, e que, sobre esse pilar, se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos. É preciso fazer isso com coragem, mas também com inteligência. Com tenacidade, mas sem fanatismo. Com paixão, mas sem violência. E entre todos, enfrentando os conflitos sem ficar presos neles, buscando sempre resolver as tensões para alcançar um plano superior de unidade, de paz e de justiça.
Os cristãos têm algo muito lindo, um guia de ação, um programa, poderíamos dizer, revolucionário. Recomendo-lhes vivamente que o leiam, que leiam as Bem-aventuranças que estão no capítulo 5 de São Mateus e 6 de São Lucas(cfr. Mt 5, 3; e Lc 6, 20) e que leiam a passagem de Mateus 25. Eu disse isso aos jovens no Rio de Janeiro. Com essas duas coisas, vocês têm o programa de ação.
Sei que entre vocês há pessoas de distintas religiões, ofícios, ideias, culturas, países, continentes. Hoje, estão praticando aqui a cultura do encontro, tão diferente da xenofobia, da discriminação e da intolerância que vemos tantas vezes. Entre os excluídos, dá-se esse encontro de culturas em que o conjunto não anula a particularidade, o conjunto não anula a particularidade. Por isso eu gosto da imagem do poliedro, uma figura geométrica com muitas caras distintas. O poliedro reflete a confluência de todas as particularidades que, nele, conservam a originalidade. Nada se dissolve, nada se destrói, nada se domina, tudo se integra, tudo se integra. Hoje, vocês também estão buscando essa síntese entre o local e o global. Sei que trabalham dia após dia no próximo, no concreto, no seu território, seu bairro, seu lugar de trabalho: convido-os também a continuarem buscando essa perspectiva mais ampla, que nossos sonhos voem alto e abranjam tudo.
Assim, parece-me importante essa proposta que alguns me compartilharam de que esses movimentos, essas experiências de solidariedade que crescem a partir de baixo, a partir do subsolo do planeta, confluam, estejam mais coordenadas, vão se encontrando, como vocês fizeram nestes dias. Atenção, nunca é bom espartilhar o movimento em estruturas rígidas. Por isso, eu disse encontra-se. Também não é bom tentar absorvê-lo, dirigi-lo ou dominá-lo; movimentos livres têm a sua dinâmica própria, mas, sim, devemos tentar caminhar juntos. Estamos neste salão, que é o salão do Sínodo velho. Agora há um novo. E sínodo significa precisamente "caminhar juntos": que esse seja um símbolo do processo que vocês começaram e estão levando adiante.
Os movimentos populares expressam a necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias, tantas vezes sequestradas por inúmeros fatores. É impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação protagônica das grandes maiorias, e esse protagonismo excede os procedimentos lógicos da democracia formal. A perspectiva de um mundo da paz e da justiça duradouras nos exige superar o assistencialismo paternalista, nos exige criar novas formas de participação que inclua os movimentos populares e anime as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com essa torrente de energia moral que surge da incorporação dos excluídos na construção do destino comum. E isso com ânimo construtivo, sem ressentimento, com amor.
Eu os acompanho de coração nesse caminho. Digamos juntos com o coração: nenhuma família sem moradia, nenhum agricultor sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá.
Queridos irmãos e irmãs: sigam com a sua luta, fazem bem a todos nós. É como uma bênção de humanidade. Deixo-lhes de recordação, de presente e com a minha bênção, alguns rosários que foram fabricados por artesãos, papeleiros e trabalhadores da economia popular da América Latina.
E nesse acompanhamento eu rezo por vocês, rezo com vocês e quero pedir ao nosso Pai Deus que os acompanhe e os abençoe, que os encha com o seu amor e os acompanhe no caminho, dando-lhes abundantemente essa força que nos mantém de pé: essa força é a esperança, a esperança que não desilude. Obrigado.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O QUE VIMOS E OUVIMOS, NÓS O ANUNCIAMOS




Crônica sobre o Dia Nacional da Juventude
Santa Maria/RS 2014
Hilário Dick


Quando Simone, Silon, Dudu e eu pegamos a estrada para Santa Maria, sabíamos que nos esperava muita chuva, buracos, horizontes imensos, bobagens, risos, curiosidades, informações turísticas e muita curiosidade em ver quem se encontraria no Dia Nacional da Juventude dos grupos de jovens da Pastoral da Juventude do Rio Grande do Sul. E assim se fez.

- Logo mais vamos pegar chuva! dizia Silon.

- Dudu, primeira vez que vais a uma “coisa” dessas?

- Já passamos aqui – dizia Simone.

Eu, quase não falava. Admirava as curvas, chamava a atenção para o buraco que já passáramos e sonhava:

- O que será este Encontro?

Os grupos haviam refletido o lema “Feitos para sermos livres e não escravos” e estavam indo para muitas estradas que levam a Santa Maria, pensando com Jeremias que é preciso praticar a justiça e o direito e livrar o oprimido das mãos do opressor.

- Coitada dessa gurizada que vai viajar de 5 a 6 horas, no meio de baldes de chuva! dizia a Simone.

- Assim que é bom, respondia Dudu. Jovem gosta é de aventura...

No meio da chuva acompanhada de raios e trovões, chegamos. A Tauana até fora falar com o motorista do ônibus, perguntando se tudo estava bem. Não ficou claro se quem tinha medo era a Tauana ou o motorista...

A coordenação da Pastoral da Juventude havia solicitado que eu falasse algo do sentido e da história do Dia Nacional da Juventude. Quando vi a meninada, reunida naquele espaço grande, fervilhando como abelhas alegres por se encontrarem, pensei:

- Como fazer que me escutem?

Senti que todos estavam alegres, mesmo não tendo eles e elas dormido a noite toda, viajando em meio aos raios. Não sabia quando era para falar, mas a Débora veio e me disse, quando a meninada ainda não sabia que talvez tivessem que escutar alguém:

- Venha, diga umas palavras de saudação...
E ela acrescentou:

- Bem curtinho.

Débora é minha confessora... Depois de uns quantos, falei dois minutos. Logo após, debaixo de guarda-chuvas e com muita disposição, a meninada foi encaminhada para o santuário de Nossa Senhora Medianeira. A igreja cheia... Um e outro mais adulto olhava arregalado para toda esta meninada e não acreditou que uma missa com jovens poderia ser tão bonita. Cantos, palmas, dança, bispo falando, jovens falando.

- Que bem que falou este menino! dizia aquela senhora para o seu marido.



E assim foi. E a missa, sempre abençoada pela chuva da Medianeira, acabou e voltamos para aquele espaço grande, desviando das águas correndo na rua. Quem ficou nervoso, então, fui eu:
- Será que tenho que falar mesmo?

Veio Betina, veio Débora, veio Carlos, veio Alberto, vieram vários e disseram:

- Vai ser agora...

Emocionado, tentei começar a minha fala. Até cantei gregoriano para ver se aquele enxame enorme, vindo de quase todas as dioceses do Rio Grande do Sul, se aquietava. E ele se aquietou. Iniciei dizendo que é mais feliz quem é dono de sua história. Aliás, acentuei dizendo que “é feliz quem sabe a sua história”. Me lembro que disse que precisamos ser bíblicos, cultivando a memória. Aliás, foi o que aprendi do Papa Francisco. Claro que falei a frase de Che Guevara: “Um povo sem memória é um povo sem coluna vertebral”. Contudo, recordar a história do Dia Nacional da Juventude em nível de Brasil e de Rio Grande do Sul não é só lembrar um evento, mas recordar um processo vivido com subsídios, liberação de jovens, escolas de juventude, instituições de formação, com milhares de grupos se encontrando de diversas formas, em muitos lugares.

A celebração do Dia Nacional da Juventude, no Brasil, começou em 1985, em grande parte por reação com a forma como a TV Globo quis celebrar o Ano Internacional da Juventude. Tomando nas mãos problemáticas concretas vividas pela juventude, os temas dos DNJ´s sempre foram missionários: a Nova Sociedade, a Terra, a Educação, o Trabalho, a Cidadania, as Políticas Públicas de Juventude – assuntos que nem sempre agradavam algumas autoridades.

No Rio Grande do Sul celebrou-se o DNJ durante os 29 anos de sua existência em nível de paróquia, de diocese e de Estado. Em nível de Estado, houve cinco encontrões, nestes anos, sempre com muita juventude. Na média 45 mil. Era bonito de se ver... Valia a pena comer muita poeira para a gente se encontrar em Passo Fundo, em Santa Cruz do Sul, em Santa Maria e em Canoas... O que valia era a união de fé e vida; de fé e política, de realidade social e espiritualidade. Enfim, somos um povo que caminha em sua integralidade. Deus não nos fez para rezarmos somente nas sacristias...

Por isso não deixei de falar que o DNJ é uma expressão do modelo de Igreja que a Pastoral da Juventude acredita; uma Igreja que quer ser encarnação do Reino e inserção na realidade, também através do testemunho e da celebração. Não é a Igreja que deve ficar na sacristia, mas é preciso que a sacristia se desloque para o mundo. Sendo tema desse Dia a Defesa da Vida, precisamos dar-nos conta de que assim como cresce a consciência da dignidade humana, cresce igualmente a possibilidade da maldade onde o outro se torna, cada vez mais, objeto, especialmente através do capitalismo e do neoliberalismo. Para quem defende a vida, ninguém pode ser usado como objeto.

Após muitas recordações, cochiladas; após ver muita água; após encontrar tanta gente; após ter podido viajar nos mares da vida e celebrar uma juventude que é e sabe ser muito bonita; após confirmar-nos que a juventude é coisa de Deus, Silon, Simone, Dudu e eu chegamos aos abraços e agradecimentos pela convivência. A Kaká foi bem espontânea:

- E vocês já voltaram?

obs. imagens DNJ2014 - Diocese de Goiás

DNJ 2014: O caminho é Jerusalém, é a doação da vida! Memórias e reflexões a partir do DNJ.


Luis Duarte Vieira

            A vida da gente é caminho. Caminhamos nos passos de Jesus. Caminhamos movidos pela utopia do Reino. Fazemos esse caminho na paixão pela juventude. O caminho é mais intenso, belo, místico e misterioso quando o fazemos em Comunidade. 

            Todo o caminho, mais ou menos hora, se inunda de surpresa, de beleza, de encanto. Se inunda de uma teimosa esperança que arde, que explode. Se veste de abraço, de sorriso, de olhar. Mesclam-se causa, amor e compromisso. Se inunda de novidade. Explode de amor e de compromisso. A alegria invade tudo (Lc 10, 17). E marcados por isso, não resta dúvida: o caminho é Jerusalém! O caminho é Jerusalém, nos passos Dele e com Ele decididamente (Lc 9, 52). O caminho é a doação da vida, com amor, com causa e com esperança. Amar incondicionalmente. Doar a vida (Jo 13, 15). Defender a vida, até as últimas consequências (Jo 13,1). Guardando e cuidando sempre da esperança, sem a heresia do desânimo. Assim foi o DNJ 2014 da Diocese de Jataí, celebrado em Caçu/GO.

            Depois de quase três anos fora da Diocese, meu coração ardeu e a alegria e a esperança invadiram-me de modo incrível no DNJ. Estava morando fora de meu chão natal, mas com meu retorno ao solo cerradeiro fui celebrar a vida da juventude com minha diocese. O coração arde, pulsa, queima. A paixão e o compromisso com a vida a juventude se renova e se fortalece.

            O DNJ de 2014 se fez um banho de novidade, de causa e de esperança. De novidade, porque muitos dos rostos ali presentes (quase todos na verdade) eram novos para mim. O que significa que a caminhada dos grupos de jovens tem dado frutos na diocese, encantando outros/as jovens, chegando a outros/as. Novidade e esperança porque muitos grupos de jovens nasceram nesses anos em que estive fora, mesmo com a morte e a desarticulação de outros, infelizmente. De esperança, porque vi com meus olhos que os grupos de jovens não morreram. É por isso mesmo que não posso e não podemos aceitar que o direito de viver em grupo seja tirado da juventude. É preciso, mais que nunca, seguir nucleando e acompanhando os grupos de jovens. De esperança, porque a Pastoral da Juventude está mais viva que nunca. Precisamos sim, fortalecer a caminhada da PJ na Diocese. Mas, ela segue mais viva que nunca. De esperança porque há bonitas lideranças surgindo. Poderia dizer de muitas lideranças surgindo, mas não guardei todos/as os nomes, por isso, digo apenas do Uilicem, do Paulo, da Sandra, da Vanessa, do Marcos e do Fernando. De causa, porque celebrar a vida da juventude em nossa diocese renovou em mim e nos presentes a causa da juventude. Não há como sair do DNJ sem renovar o compromisso com a vida da juventude. É uma profissão de fé que faço: seguirei gastando minha vida na causa da juventude!

            Igualmente Caçu foi lugar de amizade. O abraço de Dom Vinícius, OSB me acolhendo. O encontro e re-encontro com amigos/as. As novas amizades nascendo. Aqui  poderia dizer muitos nomes, mas trago o nome do Ailton, do Pablo, do Igor, da Vanessa, do Uicilem, do Fernando. Como não ser tocado pelo mistério da Amizade, mistério da juventude e da Trindade?

            O DNJ ainda foi um lugar de fortalecer a certeza do valor da formação integral e do processo de educação da fé. A caminhada da PJ e dos grupos de jovens ao percorrer seu caminho com a juventude atenta á formação integral gera mais vida e muitos frutos na vida da juventude. Ver o Fernando coordenando e animando o DNJ 2014, por exemplo, é ter uma comprovação viva do bem que a formação integral gera na vida da juventude. Por isso, é preciso gastar tempo e força na formação processual com a juventude. Essa é a melhor resposta que podemos dar nos passos de Jesus e no serviço a juventude. De fato, a formação integral é um caminho de discipulado, que forma homens e mulheres comprometidos/as com a vida e com o Reino. Homens e mulheres que optam por fazer o caminho rumo á Jerusalém.

No DNJ éramos quase quatrocentos jovens, de todos os distritos da Diocese, acolhidos pelo grupo de jovens JUMP e pela Paróquia de Caçu. Celebrando a vida da juventude, em momentos de conversa, palestra, mesa de debate e teatros, saímos convictos que “somos feitos para a liberdade e não para a escravidão” e que por isso mesmo é preciso dizer, com nossas vidas, “chega de violência e extermínio de jovens”! Igualmente saímos fortalecidos na alegria, que vem da Boa-Nova de Jesus Cristo. Boa-Nova que celebramos nos momentos de oração, adoração e na Eucaristia. Alegria vivida na partilha da vida, nas amizades firmadas e na animação durante o DNJ. Dos momentos mais marcantes dentro do que vivemos no DNJ quatro me tocaram mais. O primeiro foi quando os/as presentes ficaram inquietos/as diante da quantidade de jovens que morrem assassinados/as em nossas cidades e em nosso estado. O segundo foi o momento de silêncio que fizemos em memória de tantos/as jovens vítimas da violência e do extermínio. O terceiro foi a Eucaristia, celebração de nossa utopia e de nossa esperança. O quarto foi o encerramento do DNJ, com muito vento e com a chuva (que nos alcançou nas estradas de volta para casa) depois de dias de muito calor no estado. Sem dúvida, esse vento e essa chuva são sinais da presença amorosa da Trindade, presença que tateamos no encontro com o Divino presente e cada jovem.

Uma das marcas fortes do DNJ foi ver o trabalho e a doação da vida dos/as jovens do grupo de jovens JUMP. Gostaria de trazer o nome de todos/as, mas isso me é impossível. Esses/as jovens não mediram esforços na acolhida e na realização do DNJ. Vale a pena gastar tempo na vida em grupo, no caminho do seguimento em grupo e em Comunidade. Sigo tocado pelo esforço deles, pelo testemunho de cada um/a. Por isso, minha palavra de gratidão a esses jovens do JUMP, à Paróquia de Caçu, à coordenação diocesana do Setor Juventude e da PJ e aos/às jovens que participaram do DNJ por aquilo que o DNJ significou na minha vida e na vida da juventude de nossa Diocese. Gratidão igual a tantos/as jovens e assessores/as (leigos/as, religiosos/as e padres) que fazem parte da história da evangelização da juventude na Diocese de Jataí. De fato, a caminhada de hoje não é de hoje, mas é parte de um caminho maior e mais longo, trilhado por tantos/as. É preciso conhecer e cuidar de nossa memória. Tantos nomes me passam pela mente e pelo corpo. Alessandro, Hellen, Cláudia, Ir. Ana Paula, Karlos, Edina, Pe. Chico, Dom Heriberto, Suzana, Dom Vinícius, Murilo, Sidenil, Keila, Bruna, Suellen, Márcio, Denner, Daiana, Ir. Rosilda, Higor, Luiz Rogério, Tássia, Gedeone, Ângela, Jaime, Ir. Terezinha, Dom Miguel, Pe. Vicente, Pe. Luismar, Camila e Paula.  Fica um pedido perdão porque essa lista de nomes é infinitamente maior do que esses poucos lembrados.

Ainda uma palavra especial de gratidão ao Dom Vinícius, OSB.  Um amigo (e como sou feliz de ser amigo do Dom Vinícius) que doa sua vida no compromisso com a juventude. Há anos nos conhecemos nesse caminho de serviço aos/às jovens e sempre me impressiono vendo sua doação e seu compromisso. Durante o DNJ tivemos a oportunidade de conversar um pouco, partilhar a vida. E em muitos momentos fiquei olhando esse amigo junto da juventude. De fato, temos um grande amigo, assessor, acompanhante e cuidante da juventude. Sem dúvida, precisamos ter pessoas que amam a juventude e que doam suas vidas no acompanhamento. É preciso gastar tempo preparando homens e mulheres (leigos/as, religiosos/as e padres) para o ministério da assessoria e do acompanhamento. Pessoas que estejam nesse ministério por amor.

            Ao retornarmos para casa, voltamos, eu e os presentes, convictos de que o caminho que devemos percorrer como seguidores/as do Mestre, é ir para Jerusalém com Jesus e em seus passos. O caminho é a doação da vida pela vida da juventude, pelos pobres e pelo Reino.

Rio Verde/GO, 20 de outubro de 2014.
Na memória da vida da vovó Maria Helena, que me ensinou o amor.
Ainda muito marcado pelo vivido no DNJ.

            

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Processo de preparação para o dia 10 de dezembro - 66 anos da Declaração dos Direitos Humanos

 
 
 
A coordenação do Projeto Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil, juntamente com o Processo de Articulação e Diálogo - PAD, FIAN-Brasil, Instituto Brasil Central - BRACE, Cajueiro - Centro de Formação, Assessoria e Pesquisa em Juventude, RECID, HABITAT, Comissão Pastoral da Terra, Centro de Referencia em DH, Anistia Internacional, e a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Goiás, Diocese de Goiás, Programa de Direitos Humanos da UEG buscando avançar na agenda de realização da audiência estadual de monitoramento dos Direitos Humanos, convida todas as organizações e entidades que trabalham com o tema de direitos humanos, a participarem da audiência que acontecerá
 
dia 10 de dezembro (data em que se comemora os 66 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos), 
no auditório da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás – UFG, na Praça Universitária, Goiânia, 
com abertura às 08:00 horas.
 
 
E, para subsidiar no desenho inicial do cenário, e contribuir com os debates, elaboramos um questionário que visa levantar a situação de violação dos Direitos Humanos no Estado, e a implementação do PIDESC pelo Estado brasileiro. Assim, convidamos a todos a responderem o questionário online, que se encontra no endereço: CLIQUE AQUI pedimos que enviem suas respostas do questionário online, e a confirmação de participação na audiência, até o dia 25 de novembro.
 
Caso tenha problema em responder o questionário, entrem em contato com Nazareno, pelo e-mail: naza.santos@gmail.com, ou pelos telefones (62) 3225-5918.
 
 
Próximo à data de realização da audiência enviaremos programação detalhada da mesma.
 
A participação de todos e todas fortalecerá a luta pela garantia dos Direitos de Todxs nós.
Atenciosamente
 
Instituto Brasil Central

domingo, 12 de outubro de 2014

Folder do Centro de Juventude Cajueiro


O Centro de Juventude Cajueiro lança o seu folder com as informações em PDF com o objetivo de divulgar para todo canto o projeto de servir à juventude empobrecida.

Também, convidamos você para plantar uma árvore em sua região, organizar um serviço que atenda a formação, a assessoria e a pesquisa em juventude para que a defesa da vida dos/as jovens possam se concretizar cada dia.

Contamos contigo no movimento Sou Cajueiro para que esta árvore se sustente e produza sempre flores e frutos para que encha de sabor e de fortaleza o caminhar da juventude neste continente.

Conheça nosso projeto e comente, envie mensagens para o grupo. Leiam as informações e enviem suas sugestões. 
Folder_Cajueiro Centro de Juventude

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Curso SUPERA - uso e abuso de drogas oferecido pela SENAD - Gratis


A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) abriu as inscrições
para 10 mil vagas na 7ª edição do Curso SUPERA - "Sistema para detecção do Uso abusivo e
dependência de substâncias psicoativas: encaminhamento, intervenção breve, reinserção social
e acompanhamento".

O curso, totalmente gratuito, visa capacitar profissionais das áreas da saúde e assistência
social para identificação e abordagem dos usuários de álcool, crack e/ou outras drogas, com
a apresentação de diferentes modelos de prevenção e intervenção e encaminhamento.

A capacitação é desenvolvida na modalidade de Educação a Distância (EaD), com carga horária
de 120 horas e tem a duração de três meses. Os alunos que concluírem o curso receberão
certificado de extensão universitária emitido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Os alunos receberão o material didático no endereço residencial e terão acesso às novas
tecnologias de EaD, incluindo Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), portal específico do
curso, acompanhamento por tutores especializados e telefonia gratuita para dúvidas e orientações.


Inscrições gratuitas
www.supera.senad.gov.br

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Eu sei, mas não devia Marina Colasanti

Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti

 
texto - aqui em PDF
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. 

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti 1972 -nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil.