sexta-feira, 7 de julho de 2017

Espiritualidade, Direitos humanos e Juventude: Albano Trinks - Hilário Dick

Apesar de ter sido jesuíta, assim como eu o sou, gostaria de recordar outra figura que ajudou muito na construção dos fundamentos da Pastoral da Juventude. Confesso que não me lembro de muita coisa dele, mas vamos lá. Trata-se do P. ALBANO TRINKS. Carmem Teixeira, grande amiga dele, diz que é difícil “escrever sobre a vida de Padre Albano Trinks, jesuíta, gaúcho, fundador da Casa da Juventude, organizador do Centro de Direitos Humanos no norte do Brasil, também, e com o mesmo zelo mestre de noviço dos jesuítas, formador em vários institutos de formação do clero, assessor da Pastoral da Juventude... A sua maior atividade era ser amigo”.

P. Albano, como Mestre de Noviços, no ano de 1980, participava dos debates sobre o futuro da “Casa Padre Jorge”, em Porto Alegre, onde funcionava, até este ano, o noviciado dos jesuítas do Sul do Brasil. Todos dizem que era muito exigente na vivência da coerência com o Evangelho. Com seu compromisso com os Direitos Humanos e com os pobres, tomou uma decisão que marcaria sua vida e a vida de boa parte dos jesuítas: levou os noviços para uma periferia de Cascavel (PR), onde os jesuítas haviam comprado uma casa grande que funcionara, por anos, como prostíbulo. Se os Direitos Humanos já eram certa provocação para uma boa parte dos jesuítas, imagine-se a reação deles sabendo que os noviços deles foram transferidos para esta casa... O que aconteceu é que o P. Albano, em 1984, estava em outra Casa dos Jesuítas, em Goiânia, que foi transformada, igualmente, em Casa da Juventude: a Casa da Juventude Padre Burnier S.J. padre assassinado pela polícia em Mato Grosso.

Apesar de ser um militante dos Direitos Humanos, diz Carmem Teixeira que o que o P. Albano “talvez fez neste mundo com mais dedicação e cuidado foi a última atividade citada: cuidar da juventude. Visitava cada pessoa da comunidade, a casa dos jovens, gastava tempo escutando cada pessoa, fazia um acompanhamento espiritual... Os seus retiros tinham uma junção de fé e justiça e uma provocação para o compromisso de transformação da realidade que despertava arrepios em muitas pessoas que faziam a experiência. Ele citava sempre uma máxima atribuída a Santo Inácio, que diz: Fazer tudo como se dependesse somente de nós e, confiar em Deus, como se tudo dependesse de Deus”.

A espiritualidade inaciana, no P.Albano, era parte de sua respiração. Fazia algumas reflexões que permaneceram na memória e na vida de várias lideranças da Igreja e Sociedade. Em tempos de organização da União Democrática Ruralista (UDR) foram feitas, em Goiânia, várias manifestações, entre elas uma passeata com mais de 400 “caixões” que foram depositados na frente do Fórum da capital de Goiás. Era uma denúncia sobre tantos assassinatos que já haviam acontecido: Padre Josimo, Vilmar de Castro, Nativo da Natividade, atentado ao Padre Chicão. P. Albano recebeu várias ameaças. Nada foi, contudo, motivo para fugir da luta pela justiça.

Talvez pelos perigos que corria, mas também pelo espírito pioneiro do P. Albano, logo mais ele estaria em Porto Velho (Rondônia) onde os jesuítas desejavam fazer uma inserção significativa, também uma Casa da Juventude. Não pode ficar por muito tempo porque, atacado por um câncer (fumava muito), teve que voltar, a São Leopoldo (RS) para fazer um tratamento de saúde. Já estávamos em 1995.

De Porto Alegre, portanto, foi a Cascavel; de Cascavel foi a Goiânia. Viveu em Goiânia na década de 80. De Goiânia foi a Porto Velho, na Rondônia. Faleceu com 60 anos. Diz Carmem Teixeira que ele sempre brincava que era a idade da sabedoria. Já no final de sua vida, ele me disse: “Sabedoria é de Deus e por isto, será vivida mais intensamente junto Dele”.

Diz Carmem Teixeira: “Testemunho que este amigo foi uma luz em meu caminho; um destes acontecimentos que temos certeza que é expressão da amorosidade de Jesus para com a humanidade. Recordar Albano e sua vida dedicada à juventude é percorrer os caminhos que vivi como jovem, acompanhada por ele, seja nas decisões mais definitivas de minha vida, seja no processo de libertação e da assumência de uma fé marcada pela justiça do Reino”.

P. Albano foi muito mais que isso. Visitando o túmulo dele, e São Leopoldo, o que sinto é desafio.

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