Um texto para ser estudado nas escolas nas aulas de história, português... segue o textos divulgado em vários grupos. Leiam e compartilhem com outras pessoas.
*Laurenice (Nonô)
Noleto Alves - Goiânia, 27.01.16
Na
madrugada desta última terça-feira, 26 de janeiro de 2016, o sol dava
apenas os seus primeiros sinais de luz e o sono e os sonhos de cerca de
uma dúzia de jovens adolescentes - a maioria entre 12 e 14 anos de idade
- são cortados abrupta e cruelmente por chutes, tapas, gritos e
xingamentos, por um grupo de policiais militares, fardados, herdeiros da
truculência dos violadores da democracia no período da Ditadura Militar
no Brasil. A mesma violência que há 43 anos matou, sob tortura, num
quartel do Exército de Goiânia, um outro jovem - Ismael Silva de Jesus,
18 anos, cujo nome foi dado à escola desses que apanharam hoje, por
exercerem também o mesmo direito de sonhar e de lutar por seus sonhos.
Ha
cerca de 40 dias, esses meninos e meninas ocuparam o Colégio Estadual
Ismael Silva de Jesus, no Bairro da Vitória, na periferia Noroeste de
Goiânia - uma das áreas mais populosas e mais pobres da capital do
Estado de Goiás.
Eles repetem aqui no Cerrado um movimento de
resgate da cidadania dos jovens estudantes que começou na quase
quinhentoscentona cidade de São Paulo, impedindo que o governo daquele
estado implantasse um novo e não discutido projeto de educação, que
previa o fechamento de centenas de escolas em todo o Estado. Aqui em
Goiânia, no Bairro da Vitória, os novos líderes, que nasciam como os
verdadeiros "políticos-jardineiros" descritos por Rubem Alves em seu
texto "Sobre Política e Jardinagem, foram tratados com a mesma
desumanidade que, em 1972, fez sucumbir o menino-mártir Ismael Silva de
Jesus.
Há exatos 30 dias, esses mesmos meninos sequer sabiam a
história do outro jovem que dera sua vida pela democracia e o seu nome
para o colégio que então ocupavam, para resistir às não discutidas, mas
fartamente publicitadas nas telas das TVs, tentativas do Governo de
Goiás de iniciar um processo de semi-privatização da educação. Sem
qualquer discussão do projeto com a comunidade - professores, alunos e
pais - , ele pretende passar a administração das escolas estaduais de
Goiás a uma empresa privada (OS, sem nem mesmo concorrência pública e
escolhendo para isso uma empresa sem qualquer experiência em
administração escolar, mas de máquinas gráficas. Pela primeira vez em
suas vidas, falando comigo - jornalista, escritora e membro da Comissão
da Verdade Memória e Justiça do Sindicato dos Jornalistas de Goiás e da
Rede Brasil, Memória, Verdade e Justiça - esses meninos e meninas
ouviram alguém falar-lhes sobre a história de Ismael Silva, que tem o
nome de sua escola; pela primeira vez eles souberam das torturas
praticadas contra milhares de brasileiros - a maioria estudantes como
eles -, tão somente porque aqueles, assim como eles, queriam participar
da escrita de sua própria história.
Quem era Ismael de Jesus?
"Ismael
Silva de Jesus era um jovem quase como vocês aqui. Ele tinha apenas 18
anos de idade, quando foi preso e torturado até a sua morte, no dia 19
de agosto de 1972. Ele era um menino que sonhava com um Brasil melhor
para todos, que defendia a liberdade, a justiça, a volta da democracia, o
direito dos brasileiros se reunirem, de cantar, de sonhar com um amanhã
com mais felicidade para todos. Ele não era um terrorista. Era apenas
um menino sonhador, corajoso e indignado com o projeto de país que os
militares e as elites políticas empresariais, incluindo os donos das
emissoras de rádio, TV e jornais, estavam implantando no Brasil há oito
anos, então. Por isso, ele se filiou a um partido que na época tinha
sido colocado na clandestinidade - o Partido Comunista Brasileiro. E o
seu crime era ser o responsável pelo empréstimos de livros aos demais
companheiros: ele era o bibliotecário do PCB."
- Por que O Ismael
não falava o que eles queriam e parava com a tortura?- perguntou-me
ingenuamente um deles, de apenas 12 anos de idade, carinha limpa e
cabelo bem penteado.
- Porque somente os fracos ou os covardes, entregam os seus companheiros - respondi-lhe.
-
Como "entregavam"? - continuou na sua ignorância da história política
do seu país, do seu Estado, da sua cidade e do seu colégio.
- Quando
uma pessoa presa falava os nomes de seus companheiros, eles estava
denunciando eles, confirmando que os conheciam e que eram comunistas. E
naquela época da Ditadura, os comunistas era todos presos, muitos deles
seqüestrados, torturados e muitos morreram sob tortura. Por isso, para
sua segurança, todos eles escolhiam um codinome, um apelido, para ser
chamado no partido. O Ismael, por exemplo, era chamado de Olavo. Ele foi
preso e muito torturado, pra que dissesse os nomes das pessoas para
quem eles emprestava livros. Esse foi o seu crime. E por causa disso ele
morreu. Com o corpo marcado pelas manchas da tortura, um olho furado e
unhas arrancadas seu corpo foi entregue à família, com um Atestado de
Óbito informando que ele havia "suicidado".
"O meu marido, que
também era jornalista como eu, também estava preso no mesmo quartel que o
Ismael. Numa cela vizinha à sua. E ele foi uma testemunha auditiva da
agonia de morte de Ismael. E então, ele fez a si mesmo uma promessa: "No
dia que eu tiver meu primeiro filho, ele vai se chamar Olavo, para
continuar a sua luta que foi interrompida, companheiro!" E assim
aconteceu. Nosso filho mais velho tem o nome de Olavo e, inclusive,
aprendeu a andar correndo pelos corredores das cadeias em que o pai dele
esteve preso por três vezes, nessa época do terrorismo instalado no
Brasil pelo próprio governo federal: a Ditadura Militar. E, por isso, eu
estou hoje muito emocionada de estar aqui com vocês. Agora, é a vez de
vocês assumirem a construção de sua própria história. E vocês estão
fazendo isso muito bem. Parabéns!"
Assim eu fui falando, rápida,
mas suavemente, com aqueles jovens da Escola Estadual Ismael Silva de
Jesus, que há duas semanas a haviam ocupado, tentando chamar a atenção
do Governo do Estado, do PSDB, como se a gritar: "Olha aqui! Nós não
somos invisíveis! Também queremos participar da discussão do nosso
futuro, queremos participar da construção da nossa história!" Eram só
meninos e meninas de sorriso fácil, de muitas perguntas, ingenuidade e
coragem. Tudo estava extremamente limpo, inclusive eles. "Aqui não se
entram drogas. Nem cigarros!" - dizia um cartaz grande escrito por eles,
logo à entrada. Terminado o bate-papo, todos sentados em roda e falando
um por vez, ofereceram-me um café coado na hora e um pão com manteiga
que eu mesma lhes havia levado, junto com outros pacotes de macarrão,
sucos, material de limpeza etc.
O Governo de Goiás entrou com
uma ação na Justiça, pedindo a reintegração da posse e não a obteve. A
Justiça entendeu que os meninos e meninas tinham direito de ocupar sua
escola e discutir com o Governo o seu futuro. Mas hoje de manhã, me vem a
notícia do absurdo! Esses jovens Ismael/Olavo, que apenas começam a
tomar consciência da sua cidadania, ao invés de serem estimulados a se
desenvolverem mais, sendo respeitados e ouvidos, esto sendo espancados,
pisoteados, agredidos, xingados como se fossem o lixo do lixo não
reciclado. Quando estive lá, não imaginava que a história pudesse ser
repetida. Agora, todos eles são também vítimas da truculência que a
Ditadura deixou de herança à Polícia Militar, criada naquela época.
Os novos Ismael-Olavo:
Meu corpo, minhas regras!
Pela
Internet, recebi várias mensagens narrando as atrocidades cometidas
pela polícia: "Hoje cedo, eu acordei, era umas 6 horas da manhã.
Policiais entraram, ficaram me chutando… Chutaram o meu colega que
estava do lado, no quarto. Me xingaram de cadela, vadia, vagabunda…
Pegaram os nossos cadernos, colchões, mochilas - nossas coisas - e
foram jogando no chão. Um soldado furou o pneu da minha bicicleta que
tava no
quarto, mandando a gente sair. Uma amiga levou uma cadeira nas costas,
um outro também. Tá todo mundo cheio de manchas roxas…" Depoimento de
uma menina de 14 anos de idade, aluna do Colégio Estadual Ismael Silva
de Jesus.
"Eu acordei com os
polícia dando
tapa na cara, cadeirada nas costas minha e dos meus amigos, xingando
nós.. E bateram muito. Eu tô com roxo na perna, no rosto…" - conta
outro aluno, com cara e corpo magricela de dez, mas dizendo ter 12 anos
de idade.
"E eu fui uma das mais agredidas porque estava com essa
tatuagem na perna. Sendo que isso não tinha nada a ver. Nem minha mãe
brigou por causa disso. E outra: Meu corpo, minhas regras!" - diz a
mocinha mostrando uma tatuagem de figura feminina na sua perna fina,
enquanto morde um sanduíche de pão com mortadela.
Pouco depois,
chega pelo Whatsapp outro emocionado relato de uma historiadora de
apenas 27 anos - Mariana Barbosa - apoiadora do Movimento dos Estudantes
Secundaristas:
"Escrevo esse relato aos prantos, como, aliás,
estive em boa parte do dia de hoje. Escrevo porque acho que todos devem
saber o que está acontecendo no Estado de Goiás, escrevo por proteção,
já que a perseguição começa a se instaurar, escrevo para tentar aliviar a
dor de ver aquelas crianças espancadas.
"Às 07:00 da manhã
recebi o relato de estudantes do Colégio Estadual Ismael Silva de Jesus
de que a polícia havia entrado na escola às 05:40, quebrado várias
coisas lá dentro, agredido vários deles e saído. Logo em seguida,
chegaram várias pessoas da comunidade e um carro de som que já começava a
anunciar as matrículas na escola. As pessoas da comunidade entraram no
colégio e agrediram mais ainda essas crianças e as expulsaram de lá.
Eles permaneceram na porta, abraçados, resistindo à todas essas
agressões.
"Quando cheguei ao colégio já tinha um advogado do
movimento lá e alguns outros apoiadores, que estavam tentando acalmar os
meninos, comprando lanche para eles e ajudando a pegarem seus colchões e
mochilas para levarem para outra escola. Havia também duas viaturas da
PM na porta, algumas pessoas da comunidade (bastante agressivas), o
diretor e o sub-secretário de Educação.
"Conseguiram um frete e
colocaram todos os colchões, mochilas e objetos pessoais deles na
caçamba de uma pampa. Saímos em comboio para levar esses objetos para
uma outra escola e depois levar os meninos ao Ministério Público para
denunciar as agressões. Éramos três carros: o do frete, o de um
professor e o que eu estava. Ao passarmos por uma rua um pouco mais
afastada da escola e bem vazia, nossos carros foram fechados por mais
três carros, sem nenhum tipo de identificação policial, nem nos veículos
e muito menos uniformes ou distintivos nos policiais.
"Fecharam
a gente, saíram de seus carros com arma na mão mandando a gente descer e
colocar a mão na cabeça. Assim fizemos. Nos trataram com muita
truculência. Gritaram com as crianças, não nos deixaram pegar nossos
celulares para avisar o advogado, revistaram os carros, revistaram
nossas bolsas, jogaram as cosias dos meninos no asfalto. Depois, tiraram
todos os colchões do frete, revistaram todas as mochilas que estavam lá
dentro (e nem eram dos estudantes que estavam conosco), fizeram
perguntas intimidatórias e ameaçaram: disseram que houve denúncia de
furto e depredação da escola e que seríamos acusados por isso.
"Mas
não encontraram nada! O que tinha lá eram esses objetos! O que fomos
fazer lá foi ajudar essas crianças e adolescentes, que haviam apanhado, a
fazerem uma denúncia, a levar quem precisasse no hospital e a levar
suas coisas a uma outra escola. Como não tinham encontrado nada,
perguntamos se então estávamos liberados. Eles disseram que estávamos
convidados a irmos à delegacia. Perguntamos se podíamos não aceitar o
convite e responderam que se nos negássemos a ir, PODERÍAMOS SER
ENCAMINHADOS A FORÇA, e nesse momento um deles retirou algumas algemas
do bolso.
"Fomos então, acompanhando os carros dos policiais para
o 22º CIOPS, no Jardim Curitiba. Lá pegaram nossos nomes completos,
endereços e telefones e nos entregaram mandados de intimação para
prestarmos depoimentos nos dias 02 e 03 de fevereiro. Detalhe: os
menores também receberam intimações! Saindo da delegacia, um pouco mais
tarde, orientados pelos advogados, fomos finalmente ao Ministério
Público onde as crianças e adolescentes relataram sobre as agressões que
sofreram e posteriormente foram encaminhados para o IML para fazer
exames de corpo de delito. Apresentamos também a denúncia da abordagem
que nos fizeram.
"Estamos mobilizando todo tipo de apoio neste
momento. As perseguições políticas começaram com o claro intuito de
criminalizar apoiadores maiores de idade. Mas vão criminalizar o quê?
Criminalizar pessoas que iam às ocupações diariamente levar comida,
cozinhar, fazer oficinas? Que crime podem me acusar? De ter ido ao
Ismael e em tantas outras escolas discutir com as meninas sobre
violência contra a mulher? De ter feito comida pra eles vários dias e
levado doações que recolhíamos de diversos apoiadores espalhados na
cidade? De oferecer ajuda quando apanharam? De dar uma carona ao
Ministério Público?
"Confesso que ainda estou muito chocada com
tudo o que aconteceu, estou profundamente triste e assustada. Espancar
crianças é muito baixo, é muito cruel. Mas o que tem me dado força é a
solidariedade de pessoas não só daqui, mas do Brasil inteiro que já
estão se mobilizando, porque lutar pela educação não é crime! Porém,
sobretudo, e desde o começo, o que me emociona e dá forças, mesmo, é ver
a garra dessas crianças e adolescentes, que têm tocado essa luta
histórica em Goiás, passando por todo tipo de problemas nas ocupações e
agora por mais isso, mas ainda assim permanecem firmes e nos ensinam,
diariamente, tanta coisa bonita que nos traz de volta a esperança."
No
início da noite ainda da terça-feira, chegam mais notícias por
telefone, whatsapp e outras redes sociais, dando conta de que os
estudantes haviam ocupado a sede da Secretária de Estado da Educacão e
que a situação era perigosa. Lá dentro, uma meia centena de estudantes,
lá fora uma centena e mais de policias. A tensão era grande e a
possibilidade de mais violências também. E, para denegrir ainda mais a
imagem do governo do Estado, o próprio subsecretário de Educação, o
mesmo que esteve nas escolas "desocupadas", junto com os policiais,
entrou no prédio, se trancou numa sala e se auto-proclamou seqüestrado.
As notas na Internet mostravam imagens, visitas de autoridades e até de
um diretor da OAB-Goiás, deixando clara a ridícula tentativa do
subsecretário de Educação de Goiás de ludibriar e deseducar a população,
criando uma situação fraudulenta.
Em Goiânia, hoje à noite, não
teve chuvas ou trovoadas. É uma noite escura, calorenta e pachorrenta.
Tomara Deus que não se copiem os militares nos anos de chumbo e que não
transformem as trevas desta noite de 26 para 27 de janeiro de 2016 em
novas nódoas na nossa história política! Ditadura, nunca mais!
* Laurenice Noleto Alves - Nonô Noleto - DRT-GO 191
Jornalista, 67 anos, aposentada, escritora e artesã licoreira
Diretora de Eventos do Sindicato dos Jornalistas de Goiás
Membro da Comissão da Verdade, Memória e Justiça do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Goiás
Membro da Rede Brasil, Verdade e Justiça
Membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste de Goiás
foto - Secundarista em Luta - Goiânia