quarta-feira, 16 de setembro de 2020

As necessidades nos caminhos da defesa da vida

 

Os/as participantes do Seminário do Bem-Viver – Tecendo Redes de Proteção à vida identificaram, ao longo do Seminário, as necessidades que eles/as percebem no campo da violação dos direitos, das violências e do caminho para uma vida segura.

É preciso garantir que os direitos fundamentais e humanos (13) de mulheres (24), negros/as (15), indígenas (7), povos tradicionais (3), LGBTQIA+ (10), camponeses/as (2), migrantes (4), crianças (15), população em situação de rua (6), jovens (44), adolescentes (14) e pobres (5).

É necessário garantir o direito à vida digna (87), à educação (47), moradia (13), demarcação terra (9), democracia (5), trabalho (35) e emprego (12), segurança (17), saúde (34), lazer (19), ir e vir (2),   saneamento básico (2),  transporte público (8),  acessibilidade (2), inclusão (4), à informação (5), alimentação (3), renda (3) e segurança alimentar (2), água (2), direito à cidade (8) e a saúde mental (2).

E para tal, é necessário e urgente romper com capitalismo (10), o racismo (14), feminicídio (3), assédios (4), misoginia (2), patriarcado, homofobia (6), violência em suas várias formas (97),  violência familiar, intrafamiliar e doméstica (10), violência policial (3) desigualdade social (10), cultura do estupro (2),  abusos (6), fome (5), xenofobia (5), meritocracia (3), drogadição (8), narcotráfico (2),  individualismo (2), crime organizado (3), trabalho escravo (5), conservadorismo  (2) e do ultraliberalismo (2).

Nessa mesma direção é preciso haver participação civil (10) na construção de políticas públicas; organização coesa dos grupos, coletivos e instituições em vista da defesa da vida (6); fortalecer as instituições e redes (19); capacitar as pessoas sobre seus direitos (12); fortalecer os processos educativos e formativos que rompam com as violências (5); melhorar, defender e fortalecer o SUS (4); fazer cessar as violações de direitos (6); garantir que o Estado efetive seu papel na garantia do direitos (23); defender a vida do planeta, da Natureza (3); fortalecer os conselhos tutelares com capacitação para exercerem adequadamente seu papel (2); escutar o/a outro/a e suas necessidades (3); apoiar, acolher e acompanhar as vítimas das violências (15); e romper com a exposição excessiva na internet (2).

As necessidades, como se percebe, são muitas, mas juntos/as é possível defender a vida e garantir vida plena para todos/as.

 Apoio, acolhida, escuta e e acompanhamento às Romper com o excesso de exposição digital (2)

Realizar uma ampla pesquisa de campo (2) para conhecer a realidade social em que estamos inseridos.


segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Dez anos depois: ainda é preciso fazer o sonho ser realidade! Por Luis Duarte

 

                                                                                    foto do Congresso em 2010.

Um dos exercícios mais intensos e proféticos do 3º Congresso Latino Americanos de Jovens, que ocorreu 10 anos atrás, foi a construção coletiva e sinodal dos paradigmas, desafios, horizontes e sonhos da PJ na América Latina e Caribe. Nessa reflexão me detenho aos sonhos.


    A própria construção coletiva dos sonhos foi a realização de um sonho. Jovens, religiosos/as, padres e bispos sentados/as na mesma mesa discerniram os rumos da PJ na Pátria Grande e impulsionados/as pelo Senhor teceram, em muitas mãos, os seguintes sonhos:


*"Los Jóvenes de la Pastoral Juvenil de América Latina y del Caribe apropiándonos de nuestra memoria histórica SOÑAMOS con...


1. Una sociedad democrática, justa y de paz que defiende el derecho a la vida digna, donde seamos reconocidos y valorados, encontrando pleno sentido a la vida, siendo PROTAGONISTAS del proceso transformador de la realidad.


2. Una Iglesia Pueblo de Dios, de Comunión y Participación, cercana a los jóvenes, y que opta por los pobres y marginados.


3. Una Pastoral Juvenil audaz, orgánica y profética, que acoja y propicie el encuentro con Jesucristo, y acompañe los procesos de formación integral, transformándonos en verdaderos discípulos misioneros".*

    Passados dez anos do 3º CLAJ precisamos nos perguntar se esses sonhos já se fizeram realidade ou se ainda precisamos dar mais passos para realizá-los plenamente. 


Quando olhamos para o sonho de uma sociedade democrática, justa e de paz precisamos reconhecer que os últimos dez anos trouxeram alguns avanços, mas de maneira geral muitos retrocessos em nossa Pátria Grande. Infelizmente, a justiça e o direito à vida não é garantido à todos os nossos irmãos e irmãs da América Latina e Caribe. No Brasil e em outros países da América Latina governos com traços fascistas assumiram a presidência e assim temos visto a retirada de diversos direitos. Os/as pobres seguem sendo massacrados por políticas que privilegiam os poderosos. Seguem sofrendo pela falta de políticas públicas que garantem a vida. O mesmo pode-se afirmar sobre a realidade de outros países de nossa Pátria Grande. Por isso, mais que nunca é hora de animar processos pastorais que impulsionem os /as jovens a serem protagonistas no processo de transformação da realidade. Processos muito necessários nesse tempo histórico.


Quando olhamos para o sonho de uma Igreja Povo Deus, de Comunhão e Participação, próxima dos/as jovens e que opta pelos/as pobres e marginalizados/as, poderíamos escrever muito. Na trajetória da Igreja no Brasil, na América Latina e Caribe e no mundo muito precisaria ser dito. Há sempre tensões, avanços e retrocessos. Mas, olhando a última década nos alegramos com o Papa Francisco que insiste em convocar-nos a sermos e construirmos uma Igreja em saída, uma Igreja pobre e para os pobres.  Se alguns passos foram dados nessa direção, muitos outros precisam ainda precisam ser dados. 


Com relação ao sonho de uma PJ audaz, orgânica e profética, que acolha e propicie o encontro com Jesus Cristo e acompanhe os processos de formação integral, transformando-nos em verdadeiros discípulos missionários muito precisaria ser dito. Muitos são os desafios e processos vividos pela PJ na última década, tanto no Brasil quando na América Latina e Caribe. Tanto processos que geraram maior organização, como processo que fragilizaram a mesma. Houveram processos de profecia, apesar das perseguições. Aqui é preciso recordar, no Brasil, a Campanha Nacional Contra a Violência e o Extermínio de Jovens, que já se findou, e a Campanha Nacional de enfrentamento aos ciclos de violência contra as mulheres, que segue ocorrendo. Essas duas campanhas e suas múltiplas ações são sinais dessa PJ profética que era sonhada. Muitos outros sinais poderiam ser partilhados sobre esses sonhos. 


A busca pela formação integral, desde o encontro com Jesus Cristo ainda é tarefa cotidiana da PJ em todos os cantos de nossa Pátria Grande. 


De fato, ao olhar os sonhos tecidos uma década atrás é preciso afirmar que ainda é necessário dar mais passos para fazer o sonho ser plenamente realidade e só poderemos fazer isso como irmãos e irmãs em nossa Casa Comum. Além de dar mais passos é preciso chamar outros/as jovens para sonharem juntos/as e, de alguma maneira, atualizar esses sonhos. 


E por isso, gostaria de encerrar essa reflexão com algumas perguntas:
1 – Quais os sonhos que precisamos sonhar e construir nesses tempos históricos? Que outras faces esses sonhos para a sociedade, para a Igreja e para a PJ precisam ter?
2 – Em nossos países, quais são os sinais concretos de realização desses sonhos que construímos dez anos atrás? O que precisamos agradecer do caminho? 


    Sigamos sonhando e fazendo o sonho acontecer. Passados 10 anos ainda há passos que precisamos dar. Façamos o caminho juntos/as

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Os temas que precisam ser aprofundados na formação

 


 

Os/as participantes do Seminário Bem Viver – Tecendo Redes de Proteção à Vida identificaram, ao longo do seminário, temáticas e assuntos que precisam ser melhor estudados e aprofundados em vista de ações mais qualificadas e que gerem maiores transformações nas realidades. Abaixo apresenta-se uma síntese das temáticas elencadas pelos participantes.

Há uma grande necessidade de compreender melhor a diferentes realidades (26), de modo a refletir melhor e mais coerentemente a conjuntura (6). É preciso, compreender, estudar e refletir a vida das mulheres (6), dos/as indígenas (6), dos/as negros/as (8) dos povos tradicionais (5), do povo do campo (7), da população LGBTQIA + (3), dos/as adolescentes (7) e dos/as jovens (36) para não ser indiferente ante suas vidas. O cuidado com a Casa Comum (3), ecologia (2) e meio ambiente (2) e natureza (2) também precisa ser pauta do estudos e ações.

Evidencia-se também a necessidade de conhecer e entender profundamente os processos de desigualdade (13), racismo (8), patriarcado (2), xenofobia (2), colonialismo (5), machismo (4), homofobia (2) e as demais violências (42) para combate-las e erradicá-las. Nessa mesma direção, os/as participantes do Seminário, recordam a necessidade de compreender metodologias (3), processos e mecanismos do trabalho em Rede (6) para que a defesa da vida (35) e sua proteção (6) sejam efetivadas.

Por isso mesmo, temas como relações sociais (12) e interpessoais (4), feminismo (3), relações de gênero (8), sexualidade (4), justiça social (8), justiça restaurativa (2), migração (1), bem viver (9), moradia (2), saúde (2), libertação (2), educação popular (6), Deus (5), espiritualidade  (4), teologia (3), memória (2), psicologia (2) e  mundo do trabalho (8) também são assuntos pertinentes e que pedem processos formativos.

Além disso, as temáticas envolvendo as políticas (33), as políticas públicas (18), o controle social (2), a participação popular (4), a mobilização popular (2), direitos (8) e direitos humanos (5) também tem importância e pedem aprofundamento teórico.  

Os participantes do seminário evidenciam a necessidade de contínuos processos formativos em diferentes áreas do conhecimento e saberes para que as ações em vista da defesa da vida sejam sempre mais qualificadas e eficazes. A necessidade de estudo também se faz para que não sejamos indiferentes à vida concreta das pessoas.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

"Memórias Pejotianas". Eu, "terra de bacuri"! Odalice Gonçalves

 

Interpelada, instigada, estimulada...acabei me sentindo motivada a "puxar" na memória fatos, fases, momentos, acontecimentos que deram corpo a minha história, especialmente nos tempos em que, cronologicamente, integrava a fase mais fértil da humanidade -juventude, "terra de bacuri".
Na verdade, a história da juventude de muitos de nós, "frutos", teve início um pouco antes de existir a Pastoral da Juventude na diocese. A minha assim o foi. Ingressei, na minha adolescência, numa "comunidade" jovem chamada CAJU e depois na COMIC, que era a Comunidade Iporaense Cristã, de jovens. A nível diocesano existia o TLC (Treinamento de Liderança Cristã) e uma coordenação diocesana da juventude da qual eu fazia parte quando aqui chegou, no início de 1981, Pe. Florisvaldo (Floris) com uma nova proposta para a nossa juventude.


A grande novidade trazida por Pe. Floris era a formação de pequenos grupos de base com uma nova metologia de atuação. Nossa cultura era de "comunidades jovens" que eram formadas por um grande número de participantes. Aliás, a eficácia, o sucesso de uma comunidade jovem eram medidos, essencialmente, pelo numero de integrantes da mesma. Pe. Floris chega propondo formação de pequenos grupos na base utilizando a metologia VER-JULGAR-AGIR-AVALIAR. Aquele novo jeito de trabalhar, de ser jovem, a princípio enfrentou uma certa resistência mas, aos poucos, foi despertando uma maior consciência da realidade, do papel que o jovem exercia e o desejo de ser agente da própria história.


Foram 10 meses de cansativas reuniões com nossa pequena, insegura, despreparada (ao menos diante daquela"novidade") e, por que não confessar, relutante equipe (Brito, Simair, Manoelino, Gildo e eu, se não me falha a memória). Naquele período Pe. Floris ia conhecendo a região e iniciamos "experiências piloto" de formação de pequenos grupos em algumas paróquias. Preparamos o TRECO (Treinamento de Coordenadores) visando também a avaliação do trabalho até então desenvolvido em preparação à primeira Assembleia Diocesana de Jovens que aconteceria em março de 82. Aquela Assembleia definiu um Primeiro Plano Diocesano de Pastoral da Juventude, para dois anos, tendo como prioridades: criação e acompanhamento de pequenos grupos de base; capacitação de coordenadores e formação.


A capacitação de coordenadores naquele ano, em nível diocesano, se deu através de dois cursos. O primeiro deles assessorado por Hilário Dick, então assessor nacional da PJ.Aqui gostaria de abrir um parêntese para relatar uma "situação desesperadora" e uma experiência desafiadora enfrentada pela guerreira ECD (Equipe Central Diocesana). Curso agendado, assessor contactado, coordenadores convidados, Pe. Floris viaja (não saberia dizer ao certo, mas creio que por uma questão pastoral) e enquanto se encontra fora ocorreu-lhe um problema de saúde. Comunicou-nos que não voltaria até a data do evento e que deveríamos assumir a preparação e realização do mesmo. Desespero total! O curso aconteceu sob a luz do Espírito Santo.


Outro acontecimento marcante para mim, não sei se trágico, cômico, pitoresco, constrangedor...ocorreu numa das nossas famosas Caminhadas Jovens. É que, certamente por falta de outra opção, eu assumia nos cursos, encontros, assembleias, caminhadas...a animação dos cantos. Desta feita, em cima de um caminhão de som, com microfone em punho "puxei" o canto: A verdade vos libertará, libeeeertará...de maneira tão desafinada que foi a maior "gafe". Imagine 5 mil jovens reunidos mais a população de São Luis quase toda e eu passando por aquele vexame. Tudo pelo Reino.


Não poderia deixar de mencionar aqui a idealização, criação, redação, distribuição do Força Jovem. Com o objetivo de ser instrumento de comunicação, intercâmbio, formação...para a juventude diocesana e até nacional ele surgiu. Uma equipe de jovens de Iporá (todos meus irmãos a integrava) assumiu esse trabalho. Experiência enriquecedora, mas exigia muito de nós. Chegávamos, em muitos momentos, a pensar em "deitar com a carga". Trabalhávamos com recursos mínimos - vale lembrar que não existia celulares, computadores e, claro, internet. Nosso equipamento mais avançado era uma máquina de datilografia (velha). O trabalho era artesanal e entrava madrugada a dentro. Das muitas memórias, destaco o fato de eu redigir, corrigir textos, ilustrar...amamentando uma filha e embalando outra no carrinho com o pé.


Enfim, posso afirmar com toda segurança que sou uma consequência da PJ. Se não tivesse tido essa "escola" certamente seria outra pessoa. Não ouso dizer se melhor ou pior mas, diferente, com certeza. A verdade é que a PJ teve uma influência muito grande em minha vida (até contribuiu para o término de um namoro de sete anos e meio, creiam). Colaborou, princialmente, para a formação do senso crítico, do desejo de ser protagonista da história e de colaborar na construção do Reino.


Confesso que, não raras vezes, tenho me sentido um peixe fora d'agua na igreja. Percebo uma forte tendência para uma ação mais voltada para o "combate espiritual" com ênfase no silêncio, na oração, na meditação, na adoração, na espiritualidade...bem ao gosto do capitalismo.Oxalá tenhamos a coerência do Papa Francisco - coloque a teologia em tom menor para que a libertação ressoe em tom maior: consolação para os oprimidos e apelo às consciências dos poderosos. Que tenhamos a consciência de João Batista e que o lema dele seja o nosso: "é necessário que Ele cresça e eu diminua" (Jo 3,30).
E assim vamos nós. Afinal, sabemos que "estamos unidos por um laço eterno". Então, cantemos,mesmo que desafinadamente: A verdade vos libertará, libeeeeertará...
Até breve!

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Uma carta para Pedro do Luis Duarte: Querido Pedro Calsadáliga,

 

Querido Pedro Calsadáliga,

Já comecei esse escrito várias vezes e não conseguia terminar. Faltam palavras, sobram lágrimas. Esse é o primeiro, de outros escritos que virão. Ontem reli seus escritos para os/as jovens das Pastorais da Juventude quando escrevia a coluna “Mística” no Jornal Juventude. Em um desses escritos você diz sete traços marcantes da vida de Jesus. Os traços da vida Dele que mais marcam a tua vida. Sem dúvida, os traços que indica do Cristo são os traços que marcam sua vida. 
Mas, inspirado nesse escrito, quero escrever sete traços de tua vida que tocam a minha. Sete traços que me tocam e me convocam.

1. *Fidelidade* – Sua vida comunica fidelidade. Fidelidade aos/às pobres e ao Evangelho. Fidelidade ao Senhor e ao Reino. Fidelidade mesmo quando isso significou perseguição. Você foi fiel ao Evangelho e aos/às pobres mesmo quando a estrutura eclesiástica te questionava. Você foi fiel mesmo nas ameaças de morte. 


2. *Martírio* – Não é possível falar da memória dos/as Mártires sem falar de ti e do como sua vida ajudou-nos a alimentar essa mística martirial.  A memória dos/as mártires seguirá e nos seguiremos. Vamos multiplicar Romarias dos/as Mártires. Quisera eu ter um pouco da mesma paixão e do mesmo compromisso que moveu os/as mártires e a ti. 

3. *Profecia* – Você chegou à região de São Félix e encarnou-se na vida desse povo. Tal qual Deus se encarnou na vida. E sua vida, suas ações e suas palavras foram profecia. Sua vida sempre foi pedra de tropeço para os ricos e poderosos. Sua vida sempre incomodou, tanto os governantes como algumas autoridades eclesiais. Sua profecia não era apenas na fala, mas sobretudo nas tuas ações, na tua encarnação na vida do povo. Até tua partida se faz profecia. Vives tua Páscoa no dia em que o Brasil se entristece por 100 mil vidas ceifadas pela pandemia. Até em tua partida, você se une aos/às obres que também estão partindo por conta dessa pandemia e do desgoverno que preside esse país. 

4. *Amor* – Na poesia eternizada de sua vida e seus escritos você escreveu: “Ao final do caminho me dirão: - E tu, viveste? Amaste? E eu, sem dizer nada, abrirei o coração cheio de nomes” Hoje nesse tempo pascal, fico pensando nesses milhões de nomes que saem de seu coração. Fico pensando nos pobres a quem você serviu. Fico pensando nas prostituas que você acolheu sem julgar. Nos indígenas que defendeu. Nos sem voz de quem tu foi voz. Tua Páscoa é sentida por demais, sobretudo por aqueles/as que tiveram a dignidade de suas vidas respeitadas por conta de tua vida. Fico pensando constantemente nos pobres da Prelazia. Penso nesses/a que você amou. Fico pensando nos/as camponeses/as. Fico pensando nos/as índios/as. Fico pensando no Cristo que você enxergou no rosto de cada pessoa com quem se encontrou. Queria ser capaz de amar assim. 

5. *Luta* - Jamais poderão falar de sua história sem dizer de sua luta pela vida e dignidade dos/as pobres, camponeses/as, indígenas e sem voz. Sua vida muito representa para as lutas tão necessárias nesses tempos. Sua memória seguirá nos inspirando. 


6. *Poesia* – Pedro tu és poeta. Tu sabes. E como poucos, tu descrevestes a Palavra do Deus Amor, Causa e Vida. Jamais falaremos de Pedro sem falarmos de tuas poesias que seguirão animando nossos encontros, abraços e lutas. 

7. *Esperança* – Pedro. Tu és e seguirá sendo o profeta da esperança. Mesmo que não fales nada, tua vida e tua presença e agora tua memória comunicam esperança. Irradiam esperança. Provocam esperança. Convocam à esperança. Motivam à esperança. E sua vida, querido Pedro, devolveu esperança a tanta gente. Sua vida foi como a vida D’Ele, o Mártir Jesus. Você, Nele, com Ele e por Ele, devolveu esperança ao povo. Nele, com Ele e por Ele você transformou muitos sertões em açudes. Faltam alguns sertões, mas essa tarefa agora cabe a nós. 

Olho para esses sete traços e me sinto tão pequeno diante de ti e diante Dele. E por isso, peço a ti que me ajude e que ajude-nos a também sermos homens e mulheres de profunda FIDELIDADE, de radical AMOR, comprometidos/as com a LUTA pela vida, POETAS e PROFETAS do Reino, alimentados/as pela MEMÓRIA MARTIRIAL, comprometidos/as com as causas dos/as Mártires e por isso mesmo pessoas de ESPERANÇA e que a devolvem aos/às pobres e sofredores/as. Obrigado por tanto Pedro. Ajude-me a ser capaz de amar um pouco como você amou e ama.  Continue a olhar pelos/as pobres de nossa Casa Comum. 
Dê um abraço no Hilário Dick, por favor. 
Abraços pascais, 
Luis Duarte

domingo, 9 de agosto de 2020

Carlos Rodrigues Brandão sobre Pedro Casaldáliga: Pedro

 

Pedro Casaldáliga partiu hoje, no dia em que chegamos a cem mil mortos pela COVID19, e a Amazônia arde em fogo.
 
Por toda a parte, entre a televisão, os escritos e as mensagens por internet, imagino que os fatos e feitos marcantes da vida de Pedro estarão sendo lembrados e narrados aqui no Brasil, na Catalunha e por toda a parte.
 
Um pouco antes desses tempos de quarentena eu lia na Rosa dos Ventos um dos seus diários publicado como um livro:  quando os dias fazem pensar.
 
Tal como aconteceu na partida de outras pessoas queridas, como Paulo Freire, Rubem Alves, Tomás Baldoino e Jether Ramalho, quero partilhar com pessoas amigas algo mais simples, mais corriqueiro e mais próximo da pessoa do cotidiano, do que do personagem da história.
 
Tenho dele algumas cartas, três ou quatro. Em uma delas, escrita a mão, ele fala da venda da “última propriedade da prelazia”. Uma pequena casa em São Felix do Araguaia, pintada de verde, simples como a de qualquer morador de “média classe média”, onde eu havia estado algum tempo antes.
 
Estive lá duas vezes. Uma delas com José de Souza Martins.  Era um encontro envolvendo do bispo-prelado a índios, e fomos lá para pensarmos algo sobre uma pesquisa nos moldes com que antes trabalhamos na Diocese de Goiás. Éramos muita gente, e dormimos no chão sobre colchonetes, em uma igreja de São Félix. Pedro dormiu ao lado das outras pessoas, no meio círculo que formamos lá dentro.
 
Costumava usar calça jeans, ou semelhantes, e quase sempre calçava uma conga, sua companheira de longas caminhadas a pé. Creio que o vi paramentado apenas uma vez.
 
Nossa correspondência era mais sobre poesia do que sobre política e pastoral. Menos do que eu, eu mesclava uma coisa com a outra, e saberá quem conheça os seus poemas, que eles eram também gritos, brados entre a revolta, a luta e a esperança.
 
Certa feita escrevi uma série de pequenos poemas dedicados a ele. O nome da série era: Os p (r) o (f) e t a s, e assim os dediquei: “A Pedro, profeta, poeta”.
 
Em tempos de ditadura militar os “bispos do Centro-Oeste” fizeram um duro documento de crítica ao (des)governo de então. Dom Tomás Baldoino foi encarregado de visitar os prelados entre Goiás e o Pará, para colher as assinaturas. Convidou-me para viajar com ele, entre a Cidade de Goiás e Marabá, em seu pequeno avião monomotor. Fomos e colhemos a assinatura de bispos em Porto Nacional, Conceição do Araguaia, Marabá, e a de Pedro, em São Felix do Araguaia
 
Na viagem de volta, depois que o avião foi abastecido de combustível em Santa Terezinha, perguntei a Dom Tomás se não poderíamos descer no aeroporto improvisado da aldeia dos índios Tapirapé, na Prelazia de Dom Pedro. Tomás gostou da ideia. Afina, havíamos cumprido a missão e tínhamos todo o dia para retornar a Goiás.
 
No momento do pouso na pista estreita e de terra, um dos pneus do avião furou. Não fosse a perícia do bispo-piloto e poderia haver sido um grave acidente. Até quando veio de Anápolis uma peça que substituiu a que ficou amassada no quase-acidente, permanecemos quatro dias entre a aldeia Tapirapé e São Félix. Padre Jenthel,  que meses mais tarde seria “expulso do Brasil” pelos militares, veio nos buscar de “voadeira” e descemos com ela até São Félix.
 
Estive de novo com Pedro, e uma vez mais aprendi deste homem pequenino e magro, o que na prática da vida de todos os dias os cristãos chamam de: “viver o evangelho”. Mais do que na sua poesia, em seus diários este “viver” está posto por escrito singelamente.
 
Pedro não apenas “estava com o povo e lutava por ele”.  Ele vivia com e como ele, sem alarde algum. Como se aquela fosse a mais simples e natural maneira de se ser. E acaso não é?
 
Anos mais tarde (para surpresa minha, que nada tive a ver com o “andamento do processo”), minha universidade, a UNICAMP (Laica e profana), concedeu a Pedro Casaldáliga o título de Dr. Honoris Causa.
 
Ao contrário de outros “honoris causa” que preparam para ocasiões assim solenes discursos, Pedro falou de improviso quando lhe foi dada a palavra.  E dedicou o seu título ao “Rio Araguaia”. E proclamou no silêncio do auditório lotado: “Doutor Araguaia!”
 
Quando a cerimônia estava para ser encerrada, ele subitamente convocou as pessoas presentes a que o acompanhassem, saindo da sala para um estacionamento ao ar livre. Pediu que fizéssemos um grande círculo e nos déssemos as mãos.
 
Começamos a rodar lentamente (algumas autoridades sumamente envergonhadas). E ao invés de “puxar algum canto sacro”, ele começou a cantar, e em seguida o acompanhamos:
 
Caminhando e cantando
E seguindo a canção.
Somos todos irmãos
Braços dados os não...
 
E assim seguimos, Pedro, irmão.
 
Carlos Rodrigues Brandão
8 de agosto de 2020

sábado, 8 de agosto de 2020

Pedro, o profeta da vida transformada em poesia - Marcelo Barros


“Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé” (II Tm 4, 7). 
Para quem conheceu de perto e teve a graça de conviver com Pedro Casaldáliga, não será fácil ver o mundo sem ele. Afinal, desde que, como padre ainda jovem, chegou em São Félix do Araguaia, em outubro de 1971, penso que nunca ninguém o encontrou sem de alguma forma ficar marcado. No contato com ele, as pessoas abertas ao apelo divino da justiça e da paz receberam sempre alento e força. Aqueles que, por interesses pessoais ou por alienação da vida, não aceitaram o anúncio do reino, o rejeitaram. Alguns o odiavam. Diante dele e de sua palavra e suas posturas proféticas, era quase impossível ficar indiferente. 
 
A quem, na busca espiritual, teve a graça de encontrá-lo ao menos uma vez e mais ainda para muitos de nós que tivemos o privilégio de conviver com ele ou acompanhá-lo na missão, Pedro sempre  testemunhou o amor divino como força transformadora das pessoas e da sociedade. 
Neste momento de sua Páscoa definitiva, muitos irmãos e irmãs vão lembrar coisas bonitas que viveram com ele. Outros tecerão elogios a seus poemas e a seus escritos que “sempre dão o que pensar”, como ele intitulou um dos volumes de seu diário nos anos 80.
 
 Pode ser que, depois de alguns dias, eu consiga escrever mais alguma coisa. Hoje, a emoção ainda não me deixa escrever, sem misturar as letras com as lágrimas da saudade, da gratidão imensa e da ação de graças a Deus por ter, durante anos decisivos da minha vida, podido ter nele um irmão mais velho, um conselheiro espiritual e um mestre de vida. 
 
Junto com Dom Tomás, foi ele que fez a mim, a Filipe Leddet e a Pedro Recroix, retomar o projeto de um mosteiro ecumênico e inserido no meio dos pobres quando pensávamos que, na Igreja Católica, não conseguiríamos. De fato, no começo dos anos 2000, aquele projeto tinha mesmo se tornado bem mais difícil. No entanto, em 1984, Pedro e Tomás nos aconselharam a recomeçar de forma nova o estilo de vida monástica inserida que os monges franceses começaram em 1961 em Curitiba. A partir dali, o mosteiro da Anunciação do Senhor foi um sinal ecumênico e pascal para as Igrejas do Brasil e para os movimentos sociais.  Como gostaria de encontrar o poema de Pedro sobre os monges de pés descalços cujo mosteiro é o mundo. 
 
Nesta vigília de oração, tento me lembrar o que aprendi com Pedro nos anos em que convivi com ele na Pastoral da Terra, quando ia assessorar a prelazia ou quando algumas vezes viajamos juntos e fizemos retiros em comum. É uma riqueza que não dá para resumir e que é bom recordar porque não é uma herança apenas para mim e sim para toda a Igreja e a caminhada a partir de uma espiritualidade libertadora.
 
Alguns elementos desta herança espiritual: 
 
1 - Pedro nos ensinou e nos propôs a viver a fé, descentrados de nós mesmos e da própria Igreja. Ele vivia uma adesão contínua e total a Jesus Ressuscitado no estilo de uma Santa Teresa de Ávila, mas manifestando-o presente nas pessoas mais pobres, na opção pela justiça e pela libertação de todos/as.  Pedro expressava isso ao dizer: Absoluto mesmo só Deus e a fome do povo.
 
2 – Desde o começo do seu ministério, Pedro insistia: Igreja é sempre e principalmente Igreja local. Ah, se Pedro pudesse ter estado no Sínodo da Amazônia e nos revelado como já nos anos 70, ele propunha “amazonizar” a Igreja. 
 
3 – Pedro nos passou o amor apaixonado aos povos indígenas e este amor se manifestava em todo o seu estilo de vida, até o fato de querer ser enterrado no cemitério Karajá às margens do Araguaia.
 Não tenho como neste momento não retomar com carinho filial um dos seus poemas que fala da morte, mas também da ressurreição como rota de vida: 

Enterrem-me no rio,

Perto de uma garça branca.

O resto já será meu.


E aquela correnteza franca


Que eu, passando, pedia,

Será pátria recuperada.


O êxito do fracasso.

A graça da chegada.



A sombra-em-cruz da vida

Sob este sol de verdade

Tem a exata medida


Da paz de um homem morto...


E o tempo é eternidade

E toda a rota é porto!

Pedro Casaldáliga: Oração: meu corpo como comida