sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Leitura do Levantamento sobre a dimensão técnica - Curso virtual da Rede Caminho de Esperança




Como trabalhar a capacitação técnica
ou a metodologia no grupo de jovens?

            O levantamento foi realizado de setembro, outubro e novembro de 2017 com o objetivo de escutar jovens e pessoas adultas que atuam com jovens nos diversos ambientes e atividades eclesiais para a revisão do programa de formação de lideranças “Caminho de Esperança” realizado de modo virtual pelo Cajueiro e parceiros.

            Respostas
Responderam 145 pessoas de 19 Estados e DF e de quatro países de língua espanhola (México, Colômbia, Equador e Paraguai).  É uma amostra que auxiliará para rever o curso de capacitação técnica que situada no lugar Bíblico Emaús. As pessoas que responderam são: AC (7), AM (9), BA (2), CE (8), DF (9), ES (4), GO (28), MA (6), MG (3), MT (5), PA (7), PE (3), PR(1), RJ(3), RO(4), RS(5), SC(23), SE(1), SP(9). Não tivemos participação dos Estados: AP, RR, MS, TO, RN, PB, AL, PI. Das 27 unidades, 19 responderam e 8 não participaram. Podemos dizer que há uma ausência das regiões nordeste e norte.

            Faixa etária
As pessoas que responderam ao levantamento estão organizadas pela seguinte faixa etária:
15 a 18 anos –  5,5%, sendo 8 respostas, 19 a 24 anos – 17,9%; sendo 26 respostas; 25-29 anos 17,9 sendo 26 respostas; 30 - 40 anos, 26,9%, sendo 39 respostas; 40 – 50 anos - 22,8% sendo 33 respostas; mais de 50 anos, foram 9% sendo 13 respostas. 60 das respostas vieram de pessoas abaixo de 29 anos e 85 das respostas das pessoas acima de 30 anos.  A ideia era escutar jovens e adultos das diversas faixas etária, a amostra de cada grupo é significativa.

            Trabalho com jovens
Nas experiências de trabalho com a juventude, o levantamento conseguiu escutar grupos significativos. A pessoa poderia marcar mais de uma opção em sua resposta. Com experiências em Pastorais de Juventudes foram 103 pessoas, 71,5%; Pastoral Vocacional ou Serviço de Animação Vocacional foram 22 pessoas, 15,2%. Grupo de Jovens foram 83 pessoas, 57%; Crisma foram 43 pessoas, 26%; jovens nas comunidades, 51 pessoas, 35,4%; juventude missionária, 8 pessoas, 5,6%. Outros grupos: MEJ, Articulação das Juventudes Salesianas, Caminho Catecumenal, Catequistas, Secretaria Regional da Pastoral Juvenil, Jovenes en situaciones críticas, PJMP, CRAS, Curso de Teologia Pastoral, Escola Bíblica, Escola Pública, Escola Diocesana, Pequenos Agricultores/Assentados da reforma agrária (3), Grêmio Estudantil, Maristas, Pastoral Juvenil Marista, Coordenação de Comunidades, Coletivos Jovens Com Vida, Centro de Convivência, Movimentos Jovens, Universitário e Setor Juventude. Nas experiências de trabalho com a juventude nota-se um acento das Pastorais de Juventudes e dos grupos de jovens; porém as diversidades de presença em vários espaços dão um colorido especial para este levantamento.
            Tempo de inserção
Quando o grupo foi perguntado sobre o tempo de trabalho com a juventude, 109 afirmaram que tem mais de 5 anos de trabalho; alguns indicaram 20 anos, 25 e até 50 anos, sendo 70%, até 5 anos (9 pessoas);3%; 4 anos, significando 7 pessoas, 4,9%; 3 anos 9 pessoas, 6,3; 2 anos - 4 pessoas, 2,8%; 1 ano, 5 pessoas, 3,5% e menos de 1 ano 2 pessoas, 1,4%. O tempo de trabalho com a juventude e sua organização pode ter duas situações: a primeira é que a experiência pode nos ajudar com as questões trazidas, porém o tempo pode ajudar também, na repetição sem buscar algo novo. É sempre um risco porque a realidade é sempre carregada destas possibilidades. Ler estes dados exigirá atenção e cuidado para que possamos compreender as necessidades da juventude e, também, as práticas pedagógicas exercidas pelas pessoas que buscam a formação.

            Funções exercidas
As respostas sobre a função que exercem as pessoas que responderam qualificam o resultado pela variedade do grupo, garantindo a diversidade das tarefas e dos grupos que acompanham jovens e suas organizações. Vejam as suas funções: coordenação de grupo (30), Coordenação Diocesana (17), Coordenação Regional (15), Coordenação do trabalho com juventude nas congregações (3), Assessoria diocesana/Regional (23), Animação Vocacional ou Serviço de Animação Vocacional (12), Animação da Juventude Missionária (5), Coordenação Pastoral Escolar (1), Instituto de Juventude (1), Secretaria Regional da Pastoral Juvenil (1), Diretor de Escola Católica (1), Animação do CEBI, Catequista de crisma, Coordenação da CRB/Regional, Acompanhamento, Animadora de projetos, Acompanhamento de grupo de mulheres, Militantes, membro do grupo de jovens, Membro da RACJ, acompanhamento vocacional, Educador socioambiental, professor, animação paroquial, Referência da PJ Diocesana, Catequista, Coordenação Nacional, Coordenação pedagógica, assessoria da área missionária, assessoria de formação,  assessoria de paróquia. Espaços distintos desde o grupo de jovens, espaços de serviços de coordenação e assessoria, assim como acompanhamento e atuação em grupos variados de jovens.

            Dificuldades
Na pergunta sobre as dificuldades no serviço com a juventude as pessoas que responderam apontam: Cuidar da formação integral (74) 51, 4%; Trabalhar a motivação para evitar a evasão do grupo de jovens (68) 47,2%; Acompanhar as questões pessoais (42) 29,2%; Planejar as ações que envolvam os participantes (41) 28,5%; Tratar temas em uma sequência (26) 18,1%; Saber coordenar (18) 12,5; Tratar tema do interesse dos jovens (32) 22,2%; saber como coordenação e com assessorar o trabalho (17) 11,8%; Planejar as ações (24) 16,7%; Trabalhar o tema do Projeto de Vida e Vocacional (20) 13,9%; tratar o tema da Missão (9) 6,3%; e ainda, a proximidade com a realidade juvenil, trabalhar a afetividade e sexualidade, formar para a militância, coordenar e compreender o papel da assessoria; resistência ao modelo eclesial clerical; acompanhar as contínuas mudanças, compreender a sistemática  campanha contra  a identidade e organização da PJ; trabalhar o diálogo entre as expressões juvenis. O que significa que as dificuldades apontam as preocupações para a formação? Como atender todas estas dificuldades?

            Dúvidas
Quanto às dúvidas sobre o tema a ser tratado o grupo apontou  o papel da assessoria/animação vocacional/missionária (60) 50,4%; Diferença entre Coordenação e Assessoria(38) 31,9%; papel da Coordenação (12) 10,1% e, ainda nas respostas abertas: como animar os grupos constituídos em ambiente escolar, como coordenar sem tirar a responsabilidade dos demais, como a CRB pode acompanhar a formação inicial a partir dos interesses da juventude, como trabalhar o conjunto, como trabalhar as demandas pessoais e realizar um caminho integral de formação, trabalhar temas a partir do interesse dos jovens, lidar com as mudanças, manter o acompanhamento e integrar família, sociedade e Igreja, trabalho com a juventude indígena, ministério da assessoria. Aqui nas dúvidas o acento está maior para a questão da assessoria e a preocupação com a diferença entre este dois papeis, porém, há uma preocupação em acompanhar à juventude nos diversos ambientes.

            Instrumentos
A pergunta que fala dos instrumentos a serem trabalhados no Curso pergunta pelo que deve conter esta proposta: textos de orientações e reflexões (107) 73,8%; videos com depoimentos de jovens e assessores (68) 46,9%; vídeo-aulas (48) 33,1%; apresentação de eslaides (30) 20,7% e, ainda: atividades missionárias, trabalhar a realidade, trabalhar a escuta, rodas de conversas (2), música, acompanhar as atividades diocesanas, bibliografia, dinâmicas (6), intercâmbio de experiências (3), dinâmicas bíblicas, trabalho em grupo, visitas, vivências, teatro do oprimido, oficinas de escuta da realidade.
            Nome
Como deve ser chamado este curso de capacitação técnica? As respostas foram: Escola de Juventude Emaús (49) 34%; Caminho de Emaús (47) 32%; Escola de Coordenadores e assessores (29) 20,1% e nas respostas abertas foram: Escola de Formação Juvenil – caminho de Emaús, Escola do Caminho, Entrando no Caminho de Emaús, Formação técnica para o trabalho com a juventude, Escola Peregrina de Emaús, Curso de capacitação caminho de Emaús, Herramientas para el acompañamiento, CCJUVS – Caminhada da Capacitação da Juventude, Redes de Saberes, Emaús escuta da juventude, Caminho de Emaús- Curso de capacitação técnica,  Formação em metodologia para facilitar os coletivos jovens, formação de lideranças de juventudes- caminho de Emaús, formação de lideranças – caminho de Emaús, Escola de Formação de formadores jovens, comunidade de jovens Emaús, Escola de Aprendizagens do Caminho.
            Material a usar
As pessoas que responderam ao levantamento usam que tipo de material na coordenação e assessoria? Respostas: Textos em geral (87) 61,3%, Na Trilha do Grupo de Jovens (70)49,3%, Material produzido pela CNBB, Regionais e Diocese (70) 49,3%, \Nenhum deste citados (8) 5,6% e ainda, apontaram outros na questão aberta: Material do CEBI (3), exploração do lúdico, material do RICA e Liturgia, Bíblia (3), ODJ (2), Metodogia y espiritualid de la revisión de vida, Sou Igreja Jovem, CDL I e II, Educação da Fé, Materiais das PJs, CAJU, Vídeos bíblicos, textos das questões ambientais, natureza, símbolos e cores, cartas a Neotéfilo e outros livros, por uma cultura de paz da justiça restaurativa, uso estes materiais adaptados.

            Participação
Na pergunta se já participou de formação o “sim” (133) 92,4% e o “não” (10) 7,6% e na questão aberta sobre como contribuiu no trabalho responderam 114 pessoas : despertou para o trabalho com a juventude no acompanhamento aos grupos nos vários âmbitos (grupo, paróquia, diocese e regional), a experiência de quem fala e o testemunho dão sentido ao trabalho e animo para o caminho, a formação integral colabora na integração da fé e da vida e colabora para o amadurecimento da fé comprometida;  aponta para maior aprofundamento e novas leituras,  a questão juventude aparece várias vezes (a sua realidade, aproximar da suas linguagens, as suas demandas, os desafios do dia a dia, aproxima mais da juventude, melhora a escuta) também, falam da juventude e seu engajamento: CEBs, grupo de jovens, Pastorais da Juventude, catequese, do CEBI, IPJ, CAJU, Cajueiro). Há um destaque para o grupo de jovens (cuidado, espaço de crescimento, espaço de articulação com outras instancias, dia a dia da realidade) assim como das estratégias do acompanhamento como a escuta, a acolhida, o respeito ao caminho feito pelo jovem a partir de sua realidade, amizade, das experiências comunitárias, para as dinâmicas, leitura crítica da realidade, a questão do compromisso cristão engajado e missionário, de catequeses mais dinâmicas e envolvendo melhor os jovens, a compreensão da formação integral aparece pela a ideia da pessoa mais realizada, integrada na fé, comprometida na transformação, na percepção da diversidade da cultura juvenil, do planejamento, vida em grupo, articulação dos grupos, acompanhamento. A questão da formação de outras pessoas. Pode-se dizer que participar de uma formação abre novas perguntas e o grupo que respondeu está atento ao público destinatário porque a repetição da palavra juventude, grupo, formação integral. O que indica que o caminho da formação a partir da integralidade, da opção pela educação popular, que parte da realidade, das questões trazidas pelos participantes é um caminho a ser aprimorado na revisão do material.

            Cursos virtuais
Quando perguntado sobre a participação em cursos virtuais 70 pessoas disseram que sim (50%) e outras 70 disseram que não (50%). Sobre a questão da participação temos a metade do grupo que não participou e as pessoas que participaram das respostas foram 98, claro que algumas delas para dizer que não têm nenhuma observação ou que não participaram. As facilidades estão no tempo do curso, no uso do tempo de modo flexível, na praticidade, nos conteúdos sucintos, na organização do estudo dentro do tempo pessoal, na qualificação da ação; o tempo poupado pelo deslocamentos, facilidade de acesso de mais pessoas, o curso é prático e relevante para a capacitação de pessoas, o acesso em qualquer lugar e hora, a possibilidade de organizar o estudo e a exigência de disciplina e a comunicação entre as pessoas e com outras de lugares diferenciados, a possibilidade de ampliar o conhecimento de outros grupos, unir a juventude. Estas facilidades se repetem e o que mais aparece é a questão do tempo como fato importante para a formação.
Enquanto que as dificuldades a avalição traz a troca de ideias, o acesso à internet (computador ou lentidão ou ausência de conexão com a rede), a disciplina em organizar o tempo para o estudo e a harmonização  do trabalho, o estudo acadêmico e aponta como um dos fatores negativos a falta de disciplina para o estudo, provocada pela dinâmica da realidade, pela capacidade de leitura e pela interpretação ou a dificuldade de construir argumentos dentro do debate,  gerando desânimo ou medo de se expor; muitas desistências dos participantes, ausência de um debate que envolva os participantes, ou de um horário para que o grupo possa se encontrar no espaço virtual, pessoas para o acompanhamento com capacidade de atender as dúvidas e necessidades do participantes, manter o tempo do curso  segundo  as demandas e atividades, manter a motivação para o estudo solitário, falta a mística do encontro com as pessoas. Nas dificuldades, a questão do tempo retorna pelo acúmulo de tarefas ou pela falta de organização do mesmo; há dificuldades que são operacionais de acesso com qualidade ao curso e, também, pela falta de hábitos de leitura e estudos pessoais, pelas dificuldades decorrentes do sistema escolar e, também, em agregar novas formas de formação a seus hábitos já constituídos.
            Na questão sobre a organização de formação para outras pessoas a resposta “sim” oi de 113 e 79% de não, com 21% que não respondeu.
Nas sugestões apontadas para a revisão há uma insistência na modalidade semipresencial, em uma maior divulgação e envolvimento dos jovens e dos grupos responsáveis pelo projeto de formação, manter uma comunicação em outros meios para motivar e lembrar a participação no curso, trabalhar o fortalecimento dos grupos de jovens, manter em cada texto uma bibliografia e sugestões de textos para o aprofundamento, inserir vídeos, depoimentos e links de estudos, que sejam plurais, integrais e dinâmicos, insistir no fortalecimento e na criação de grupos e seu acompanhamento e não somente em instâncias mais amplas, que seja leve e prazeroso, tenha um espaço somente para dúvidas, explicitar bem a diferença entre assessoria, animação e coordenação, indicar os momentos que a assessoria pode e deve intervir e momentos que precisam estar na escuta e na sistematização, que seja possível uma organização de uma formação local a partir da proposta da formação virtual,  realizar congresso para aprofundamento, criar um espaço e conteúdo que possam gerar interatividade entre os participantes, disponibilizar o material para ser impresso pelos participantes ou organizar o material impresso do curso, organizar equipes locais para trabalhar de modo presencial a proposta do conteúdo, capacitar melhor as coordenações das pastorais, estudar um caminho para inserir nos cursos as pessoas que não tem condições financeiras de contribuir com a plataforma, propor ações comuns para sentir-se unidos, ficar atentos a diversidade de participantes buscando incluir a diversidade da juventude, confeccionar alguns materiais em oficinas com a juventude e na elaboração estar atentos a formação integral com suas dimensões e processos.
Outras questões
Na última questão, aberta para outras sugestões, 60 pessoas responderam e as questões trazidas foram agregar as realidades do campo e da cidade, despertar para a participação nas questões políticas e sociais, contemplar as diversas realidade (jovens em conflito com a lei, jovens que estão fora do ambiente eclesial, entre outros), trabalhar dinâmicas de grupo, construir um aplicativo para facilitar o acesso, trabalhar a questão da responsabilidade e o compromisso com o curso pela dificuldade apresentada nos cursos virtuais, que a linguagem seja para a diversidade das juventudes. Nestas sugestões pode-se notar uma preocupação com a juventude nos diversos ambientes e com a linguagem. Também, aponta para ficar atento às expressões juvenis e termos que tem sido explorado na dinâmica do trabalho com a juventude.


Conclusão
Ao ler todo o levantamento sobre as questões referentes à formação integral com foco na dimensão técnica ou metodológica, pode-se formular várias questões. Quais tipos de leitura de textos você aponta? A capacidade de coordenar e de acompanhar grupos nos diversos ambientes, tanto eclesial, social ou político tem sido prática dos grupos e instituições? Há um discurso recorrente sobre o protagonismo, ou seja, formar sujeitos históricos capazes de intervir em sua realidade e espalhar o bem, a vida, ou seja, cuidar do bem comum. Ao ler as respostas tanto fechadas como abertas pode-se dizer que há um desejo desta formação, porém a pergunta que permanece para os grupos e instituições se refere ao interesse em preparar sujeitos críticos e capazes de ler a realidade e posicionar-se nela tendo como referência os princípios evangélicos, ou seja, expressar pela vida e pela prática os sinais do Reino?
Há uma diferença entre capacitação que envolve conceitos, compreensão dos termos aplicados pelas propostas de trabalho com a juventude que podem ocorrer de modo presencial ou virtual e outros modelos de encontros que se perdem nos seus objetivos e ficam somente em tempos para encontros, passeios ou festas, não que tudo isto não seja importante. Nesta dinâmica da vida algumas situações são justificadas como pauta única. Como trabalhar o estudo pessoal, a leitura, o debate em grupo de temas que tocam a vida dos jovens, ou a ação pastoral, social ou política?
O levantamento aponta várias possibilidades de revisão do conteúdo do curso oferecido e sugere metodologias inovadoras. Aponta problemas já percebidos na execução do curso como a questão do tempo, tanto no aspecto que favorece a formação, como no que dificulta a organização da formação virtual. Aponta para a questão presencial como constituído de mística e de fortalecimento de vínculos e indica que deve ser em localidades mais próximas como fruto do trabalho dos que estão inseridos no curso virtual. Há muito que aprofundar neste caminho a ser construído por esta Rede Caminho de Esperança.

Texto construído por Carmem Lucia Teixeira, pesquisadora do Cajueiro, professora de escola pública, e Hilário Dick, pesquisador de juventude, padre jesuíta.
08 de dezembro de 2017.





           

           


 


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

RECORDAÇÕES: FLORIS, CARMEM, ALBANO NA CELEBRAÇÃO DOS 35 ANOS DA PJ CENTRO OESTE



Hilário Dick fez uma memória dos 35 anos da história da Pastoral da Juventude lembrando de três pessoas que estiveram no início da história como assessores/a. Leia e deixa o seu comentário.

É preciso dar-se o direito de voltar, sonhar, reconstituir pedacinhos que se vivei, reencontrar amigos e companheiros de luta que talvez já foram. Mandei a memória, por isso, para alguns recantos de Goiânia. Que saudade desta casa! Que raiva do que fizeram com esta Casa! Fui lá muitas vezes para alimentar meus sonhos e dar de comer os sonhos que carregava em mim.


Não era só Casa; eram pessoas. As que estão aí são somente símbolos dos adultos e jovens, dos ricos e dos pobres, dos urbanos e das periferias, de estudiosos de juventude e pessoas que desejavam aprender. Berg, Alessandra, falecido Lourival e Geraldo eram pedras daquela casa, janelas, portas, livros, bibliotecas, cantos, rezas. Pena que a Carmem não esteja na  foto.
Alguém consegue medir a dor deles quando viram a “Casa da Juventude” vendida, mais e menos santamente, mas vendida?

A memória conseguiu encontrar, contudo, esta foto antiga e memorável: Carmem, ainda quase menina, e Floris (Florisvaldo), um assesor como houve poucos em nossa América Latina. Um câncer o incomodou anos e anos até que conseguiu levá-lo para as multidões apocalípticas de jovens num céu que ainda vamos descobrir onde é.



A paisagem pode ser de Pires do Rio ou de alguma parte do Cerrado que os dois amavam e fizeram amar. Contudo, nem ele nem ela ficavam em casa. Iam pelo mundo a convite de jovens, adultos e bispos (ao menos alguns). Nem sei onde foi que nos encontramos, no fundo dessa casa de cor de tijolo. Foi uma amizade que ia florindo no meio de briguinhas pedagógicas. (Foto: encontro da Rede Latino Americana no Chile)

- Olha ela aí abaixo, ela encenando o quê? Cara de braba? Gozando da cara de alguém? Humilhando algum bispo? Não. Ela não iria com aquele chapéu que não deve ser dela. Ela tem uma perna um pouco menor que a outra, mas olhe-se a pose, o chinelo de dedo,  o beiço que faz. Deve ser numa festa pelas bebidas que desejam esconder-se. (Foto da Assembleia da PJ na Cidade de Goiás)
Pena que só me lembro da Alessandra, mas os dois devem estar provocando a Carmem para beber mais... Mas ela não era de beber; era de contar casos vividos em ambientes eclesiais, também de freiras co as quais falava as quais devi escandalizar um tanto. (Foto: Raimundo e Alessandra na festa dos 25 anos da CAJU)
     

Não faltam nem faltaram amigos que ela estimava e que era muito estimada por eles, pelo que ela era, fazia, pensava, falava, desafiava, sonhava. Mirim, Luis Duarte, Francisco, Jerônimo, Benta, Teresa, Cláudia, mãe, avô e avó. Raras as pessoas meio problemáticas que não gostam dela. Ninguém acredita que, depois de trabalhar anos e anos na Casa da Juventude, houve pessoas que quiseram fazer dela cobranças financeiras. Como mero símbolos, aí vão duas fotos que a memória escolheu. Nas escolhas sempre há certa injustiça, mas, em nosso caso, sempre há perdões.



 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

O Bem Viver e as relações de poder - Múria Carrijo

Ao partilhar na Secretaria Nacional da CPT (Comissão Pastoral da Terra), fagulhas do que foi refletido no Seminário do Bem Viver e Relações de Poder, fui motivada a tentar alinhavar reflexões sobre o Bem Viver, a partir do Encontro Nacional de Formação da CPT e do próprio Seminário. O Encontro Nacional da CPT aconteceu em outubro (Brasília) e o Seminário, em novembro (cidade de Goiás), ambos em 2017.

A motivação preparatória, tanto do Encontro de Formação da CPT como para o Seminário do Bem Viver, partiu do relato de experiências concretas dos povos, nas suas práticas do Bem Viver, seja em âmbito de América Latina, seja nas várias regiões do Brasil.
No Encontro Nacional de Formação da CPT refletiu-se sobre conjuntura política e bem viver, com os povos originários do Brasil e da América Latina. Pessoas que contribuíram com as reflexões: Bruno Lima Rocha, professor de ciência política da Unisinos/RS. Além dele, Lorenzo Soliz (Instituto para el Desarrollo Rural de Sudamerica - IPDRS), trouxe um panorama da história de seu país (Bolívia) e da luta dos povos indígenas. Ele falou que em 1960, período de ditadura, os povos indígenas do altiplano, Aymara e Quechua, retomaram as lutas, em defesa de seus territórios. Em seguida, a boliviana Marta Cabrera, do povo Qhara, reforçou que pela luta (1976 a 1990) os povos indígenas bolivianos conquistaram o direito coletivo sobre seus territórios. Outras pessoas que contribuíram com reflexões: Caciques Babau e Ramon, do povo Tupinambá, território Serra do Padeiro, na Bahia, refletiram sobre a luta do povo Tupinambá na retomada e defesa de seus territórios, a partir do ano 2000.  Sandro Gallazzi, biblista, trouxe reflexões sobre a Bíblia e o Bem Viver. Por fim, Moema Miranda, do Serviço Inter-Franciscano de Justiça, Paz e Ecologia (Sinfrajupe), provocou diálogos sobre o Bem Viver a partir de uma espiritualidade cósmica de amizade com a Terra. Para ela, “o capitalismo está fazendo muito dinheiro quando ele constrói e destrói. Nessa guerra do capitalismo contra a Terra, temos que definir claramente qual é o nosso lado, como é que nos posicionamos, onde é que nos conectamos com os que estão sendo derrotados. E quais são nossas possibilidades de reconexão”.
Após essas inúmeras reflexões, intermediadas por provocações trazidas pelos grupos, a compreensão das pessoas que estavam no Encontro Nacional de Formação da CPT foi algo parecido com isso: “não se reflete sobre Bem Viver desvinculando-se do Território; a prática do Bem Viver acontece no Território”.

O Seminário do Bem Viver e Relações de Poder, na cidade de Goiás, contou com a contribuição da doutora em Filosofia e Ciências da Religião, Ivone Gebara. Ela refletiu sobre Bem Viver como uma metáfora, um termo que nos apropriamos dele “de forma romântica”, como se os povos Aymara e Quechua já tivessem vivido a plenitude do Bem Viver e nós ficamos com os olhos fixos nesse horizonte “ideal”, almejando alcançar uma realidade que nem é nossa. Ivone nos provoca a desconstruir esse “lugar ideal”, a partir da seguinte reflexão: “a esperança que nos anima não tem lugares pré-estabelecidos de chegada; ela permanece em nós”. E questiona: “Por que estamos usando Bem Viver no lugar de Teologia da Libertação? Por que não falamos de Direitos Humanos e de Justiça nas nossas partilhas sobre as práticas do Bem Viver? Qual é a ética que fundamenta nossa caixinha do Bem Viver? Qual é a política? Qual é a religião? Fica tudo igual? O que o Bem Viver tem a ver com o poder? Como articulamos micro e macro poderes nos moldes do Bem Viver?”


Após profundas reflexões sobre as relações de macro e micro poderes (as quais não relatarei aqui),  Ivone disse algo parecido com isso: O Bem Viver, mais do que um horizonte utópico, exige um tópos (lugar), ou várias topografias. Temos que fazer fluir as energias (poderes), pois ao contribuirmos para que as energias circulem, nós admitimos a responsabilidade social de fazermos fluir a energia da Vida. Esse tópos (ou topografias) nos remete a perguntarmos pelas nossas crenças e convicções (Em que eu acredito?); provoca-nos para uma conversão à realidade... Em vez de ficarmos preocupadas em chegar “a um lugar ideal”, indaguemo-nos: “Quais são as frentes da realidade humana em que podemos atuar? O que podemos fazer? Como devolver a compreensão da realidade às pessoas, dentro do limite de todas as teorias?”

O Seminário Bem Viver e Relações de Poder foi organizado por uma Rede do Bem Viver que tem realizado outros seminários: Cajueiro (Centro de Formação, Assessoria e Pesquisa em Juventude),  Comissão Pastoral da Terra (CPT), CEBI (Centro de Estudos Bíblicos), CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), Curso de Verão, Pastoral da Juventude (PJ), Missionárias de Jesus Crucificado, Congregação de Nossa Senhora Cônegas de Santo Agostinho, Centro Cultural Cara Vídeo, Cáritas Brasileira, Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB-GO)  e Fraternidade da Anunciação. 

Múria Carrijo Viana, 11 de novembro de 2017.





Fotos - Cajueiro - Célio Amaro







sábado, 11 de novembro de 2017

Coisa de branco, até quando? Elisa Lucinda


foto retirada da internet https://www.google.com.br/search?q=elisa+lucinda&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwj6_a-SrbbXAhVFDpAKHRdvDRsQ_AUICigB&biw=970&bih=457#imgrc=TYUSiZxKnVZfEM:

Elisa Lucinda comenta o episódio racista. Triste realidade do Brasil com os dados que ela apresenta. Um texto que precisa ser trabalhado, lido, discutido entre nós.

 Texto de Elisa Lucinda sobre o episódio de racismo envolvendo Willian Wack.

Coisa de branco, até quando?

           Escroto, consciente, ativo, legitimado, estrutural, septicêmico em todos os órgãos da nação, o racismo de William Waack não é só dele. Essa é a pior notícia. “Coisa de preto” é subtexto corrente na mente de grande parte de uma sociedade criada sob os parâmetros da Casa Grande. O diabólico plano que começou com tráfico, tortura e assassinato do povo negro e que durou quatrocentos anos, é mais nefasto e homicida do que os cinco ou seis anos do holocausto judeu e essa dor a humanidade respeita mais. Não estou dizendo que uma dor é menor do que a outra. Mas afirmo que o holocausto da escravidão negra continua até hoje e não comove nossa sociedade. Não importa, em geral, a quantidade de negros sem nome, sem sobrenome nobre que é assassinada diuturnamente nas favelas e periferias deste país. Ainda rola no imaginário brasileiro a ideia obsoleta de que “preto bom é o de alma branca”, é o sem voz, e há neste imaginário uma desvalorização da etnia negra como se houvesse para isso alguma defesa científica que apontasse no DNA de uma raça sua propensão à sub-humanidade.
               O que impressiona muito no vídeo do Willian é sua falta de conflito com o tema, seu conforto escancarado e muito bem acomodado dentro de sua convicção. Quando a Globo que, felizmente, com muita rapidez, prontamente se posicionou repudiando e afastando o jornalista, afirma que vai pedir esclarecimentos dos fatos dá vontade de ser uma mosquinha na cabeça deste profissional para ver qual será o melhor argumento nos bastidores dessa saída. A situação é indefensável. Não falou sem querer, não estava nervoso. Repito: trata-se de uma convicção. Absolutamente consciente e levemente temeroso de que sua fala pudesse comprometê-lo, ele, textualmente, quase evita falar abertamente: “Tá buzinando por quê? Ô seu merda do cacete! Deve ser um... Não vou nem falar quem. Eu sei quem é... Você sabe quem é né?” Mas não resistiu. Saiu. Pulou da boca. Pensa assim. Concorda com o racismo. É porta voz dele. Estamos diante de um vazamento e por ele podemos supor quantas dessas atitudes não chegam a público e fazem a graça de muitos bastidores. Não seria leviano de minha parte afirmar que essa não é uma atitude isolada deste jornalista. Um detector de discriminação racial afinado talvez não tivesse dificuldade em encontrar na educação, dele e de sua família, a ideologia revelada no patético vídeo gravado em frente à Casa Branca. Ele estava nos Estados Unidos, ele falava português, ele estava em seu “camarim” e não imaginou que a máscara Waack estava sendo retirada antes do público deixar o teatro.  Sou atriz, vivo no teatro, e sei que se o público por algum motivo avista o truque, a ponta da carta escondida sob o manto do mágico, não há outra saída para o artista se não render-se à verdade. Já era. O público viu. Fodeu. É melhor admitir. Flagrantes são inegáveis. Qualquer tentativa de desqualificar a verdade flagrante é constrangedoramente impotente.
               O que está em jogo aqui é como deter o escravagismo moderno, esse que foi trazido através da linguagem das escrotíssimas expressões que destroem a auto estima do povo negro a cada minuto, e que vão mantendo a obra da escravidão na cabeça de jovens brancos, de crianças brancas, em pleno 2017. A semente do mal é reproduzida em todos os lugares, inclusive nos jornalismos, inclusive nas ficções. Sou jornalista também de formação, e sei da responsabilidade pública que temos com a informação, sei do poder de influência da palavra jornalística na formação de opiniões. Diante disso numa democracia, ter um jornalista que apresenta um jornal importante numa emissora que alcança milhões de espectadores diariamente, defendendo posturas racistas, expondo-se inclusive judicialmente a um processo, aponta para uma demissão sumária deste profissional. Não vejo outra saída. Para mim é tão grave quanto um médico que não atende um paciente preto e pobre na emergência. Para William Waack a vida do preto, o pensamento do preto, a atitude do preto, os direitos do preto são menores e tudo nele vale menos. Está entranhado em seu DNA cultural branco e dominador tal aberração intelectual. Sua ignorância é sofisticadamente tosca, uma vez que ocupa um cargo nobre na tele informação. E essa ignorância é tão sofisticada quanto perniciosa, representa um pensamento vigente que raramente tem coragem de mostrar a cara, de sair do armário. Mas é este pensamento que gera a atitude prática de fechar portas, e de provocar em nós, em nossas organizações civis e nas leis, a feliz estratégia dos sistemas de cotas. Quando Cazuza diz que a burguesia fede é a isso que ele se refere. Há uma hipocrisia católica, disfarçada de caridosa, ornada dos aparentes bons costumes, mas que chafurda na lama tóxica de seus preconceitos e na sua luta pela preservação das senzalas, dos quartos de despejos e da persistência variada das chibatas. Presídios, quartos de empregadas, entulhos das favelas e periferias, tudo têm como modelo os porões da escravidão.
            Eu teria vergonha de ensinar racismo aos meus filhos, William não tem. Eu teria vergonha de ser racista em meu local de trabalho, William não tem. Eu teria vergonha de ser racista sendo brasileira e estando trabalhando em terras estrangeiras, William não tem. De usar a minha língua contra o povo que construiu a minha nação, William não tem. E por isso representa uma vergonha para o povo brasileiro. Sua declaração bate na cara dos negros que labutam para o sucesso da história desse país e da empresa que ele trabalha; sua declaração é um acinte, um achincalhe no talento de grandes atores negros que deram e dão sua arte à teledramaturgia brasileira contribuindo para um sucesso de público que atravessa décadas. Sua declaração atinge  também em cheio a consciência de brancos a quem ele não representa, os constrange, os convoca a limpar a própria barra. Puni-lo com  delito o torna naturalmente afastado da emissora. Se a Rede Globo não quer compactuar com uma atitude discriminatória não pode ter em seus quadros quem pensa diferente disso, uma vez que tal quesito está espalhado em todos os conteúdos de sua programação. Neste momento, estou fazendo a campanha da ONU chamada Vidas Negras. Os números são alarmantes, perdemos grandes exércitos de meninos que saem da escola para o crime e, entre estes, milhares são assassinados sendo inocentes, só por serem negros. E só. Por valerem menos.
            Mas a tragédia só se realiza, só chega a virar sangue, a virar tiro de fuzil, só chega a matar depois de se consolidar na mente de muita gente, e muita gente que manda neste país. É este jogo que nós temos que desmontar. Quando se diz “coisa de preto” como sinônimo de inferior ou ruim, no fundo estamos produzindo um conteúdo que dará autorização para matar. William Waack não é o único a pensar assim, é isso que o vídeo veio nos revelar. É coisa de branco e aos bons brancos deve envergonhar. O assunto está bombando.  A questão racial no novo  filme de Daniela Thomas vai ser assunto nessa sexta no Pedro Bial. Não dá mais pra segurar . O mundo pede abolicionistas modernos e quer saber de que lado você está.